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Resenha: "O Apocalipse Amarelo Livro 1 - Uma torre para Cthulhu" de Diego Aguiar Viana

O Grande Fim chegou e a humanidade está vivendo um tempo de trevas. A chegada do Rei de Amarelo e de seus sacerdotes e outras criaturas nefastas fez irromper o caos e a imoralidade no coração dos homens. A família Dédalo tenta sobreviver nesse mundo em extinção e a cidade de Mucarágua pode ser o palco perfeito para estes últimos dias.


Sinopse:


Isolada em Mucaragua, cidade esquecida entre as montanhas, a família Dédalo observa o fim do mundo. Deuses, monstros e humanos convivem, afetados pela loucura e pelo esquecimento de tudo que os diferenciava no passado. Nessas páginas, vocês conhecerão Malaquias, um homem corroído pelo álcool e pela viuvez, e também seus filhos, Rafa e Ícaro. Rafa é uma jovem corajosa e inconformada que insiste em seguir adiante enquanto tenta superar um amor impossível. Ícaro, de natureza mais mansa, investiga os segredos da família. Os três poderão contar com a ajuda da sabedoria popular de Juca, professor antes do grande fim. Às vezes em conflito, às vezes em conjunto, os quatro buscarão um novo caminho – mas vão descobrir que o passado guarda respostas sombrias e que um mal ainda maior está à espreita. O Apocalipse Amarelo: uma torre para o Cthulhu é o primeiro volume de uma série de pequenas novelas sobre o Grande Fim e o que há além dele. Estas são as histórias daqueles que ficaram para trás no grande arrebatamento provocado pelos Seres Anciões despertos pelo alinhamento das estrelas, na tradição lovecraftiana do horror cósmico – mas com um toque brasileiro, com os pés no chão coberto de lama musguenta e tomado por vermes de outra dimensão. Este é um livro sobre a esperança, a família e também sobre a loucura de um mundo tomado pela destruição.






O Apocalipse Amarelo é uma narrativa bastante corajosa sobre uma cidade que passa pelo fim de seus dias. Quando o Grande Fim chegou e criaturas vindas de outras dimensões começam a tomar conta da cidade de Mucarágua, a humanidade se vê em um eterno tormento. O céu mudou, os animais se transformaram e os alimentos não são de completa confiança. Tudo transborda um miasma maligno que infecta o coração dos fracos. O Rei de Amarelo caminha entre os homens, sequestrando inocentes e servindo de avatar para um mal eterno que se aproxima. Os sacerdotes de deuses inomináveis cantarolam cantigas malditas, versos cruéis para homens e mulheres que perceberam que sua fé de nada servia contra o verdadeiro mal. No meio de tudo isso, a família Dédalo, formada pelo jovem Ícaro, sua irmã Rafa e seu pai Malaquias, procuram sobreviver neste mundo torpe. Ícaro começa a ouvir uma estranha voz que parece querer levá-lo a uma estrutura decadente formada por elementos malditos; Rafa quer sair a todo custo desta terra miserável e sem esperanças, mas seu pai parece ter abandonado o que ainda restava de sua sanidade, descontando suas frustrações em um olhar frio e indiferente a seus filhos.


Se podemos dizer uma coisa clara sobre este romance é que Diego Aguiar é alguém que conhece a fundo a mitlogia lovecraftiana. Sua narrativa bebe do melhor que o clássico autor já produziu, com uma escrita que mescla o erudito e o profano, apresentando ao leitor uma mitologia caótica, porém coerente sobre seres aos quais escapam ao nosso conhecimento mundano. Quanto mais lia este romance, mais identificava as características lovecraftianas na escrita do autor. É curioso pensar que o autor imaginou uma série de histórias no mundo em que criou sem ser uma série. Gosto da ousadia de, ao invés de ventilar uma trilogia ou uma longa série, se tratam de narrativas meio fechadas em si (essa tem um gancho lá no final que te deixa encucado). Quero entender como ele imagina o segundo livro, se terá personagens compartilhados, se acontecerá em outro local, se terá uma grande história por trás. Lovecraft preferia pequenas histórias encerradas nelas mesmas, sem se prender a algo maior. Sua mitologia foi construída ao buscar elementos comuns em seus vários livros. Aliás, a ideia de uma mitologia nem é coisa do autor, mas daqueles que o estudaram. Por isso a proposta de Diego é tão diferente.


A narrativa é escrita em terceira pessoa em um estilo de escrita que parece ser o de três atos. Não enxerguei uma jornada do herói (nem do anti-herói), mas uma apresentação, um desenvolvimento e um clímax/conclusão. Cada capítulo é constituído de quatro subseções que funcionam quase como cenas onde as coisas acontecem. Me incomodou um pouco a falta de sinalização do autor em vários momentos sobre em quem a "câmera" estava posicionada em determinado momento da leitura. Entendo que quando os três personagens se encontram na mesma cena que a transição entre personagens aconteça rapidamente, mas não quando eles estão separados. Acontecem mudanças bruscas de um parágrafo para outro. Por isso que uma sinalização, seja com um acréscimo de mais subseções ou apenas uma sinalização de personagem, facilitaria a compreensão. Precisei voltar algumas vezes a ler páginas anteriores para ver em qual personagem a ação estava situada. Isso é um cuidado importante. No aspecto mais técnico, a escrita é bem sossegada de acompanhar e o leitor consegue entender numa boa o que está acontecendo.


Mesmo em um mundo terrível e repleto de criaturas inomináveis, no fundo se trata de um drama familiar. A morte da mãe abalou profundamente a família. Malaquias é um coveiro, tendo uma vida humilde e difícil. Descobrimos mais à frente na história o quanto a mãe precisou se sacrificar para que todos tivessem o que comer. Mas, quando a base de sustentação daquele pequeno núcleo desaparece, tudo parece se perder. E isso porque ainda temos a questão do irmão que foi um dos responsáveis pelo Grande Fim. Um irmão que a família sequer se recusa a nomear e que não se sabe se está vivo ou morto. Existe um medo entre os Dédalo de que os cidadãos de Mucarágua possam se voltar contra eles. Malaquias se fecha em si mesmo diante dos acontecimentos e prefere sofrer solitário. Esse ato de se fechar faz com que os dois filhos que sobrevivem, Rafa e Ícaro, fiquem sem sua figura paterna. No mundo tocado pelo mal, a solidão e o abandono são remédios amargos. A violência pode estar em qualquer esquina. Curioso o fato de Diego ter usado o mito de Ícaro nessa narrativa que faz com que o menino almeje voar, mas nesse mundo de atmosfera esverdeada e sol da cor da areia, voar pode significar se deparar com algo ainda mais estranho.


Na minha visão, o autor acelerou demais as coisas com a trama. Teria sido mais recompensador para o leitor acompanhar o lento declínio de uma cidade pequena. Explorar as famílias, as relações de poder, os problemas. Muito na forma de como Stephen King constrói suas comunidades fechadas (Sob a Redoma é um ótimo exemplo disso). Depois de estabelecer as conexões, inserir o fenômeno sobrenatural e distorcer as relações a um ponto sem volta. Em O Apocalipse Amarelo chega um certo ponto da história em que a crueldade perde força diante de tanta tragédia que acontece desde o começo da história. Um acontecimento sinistro precisa impactar o leitor. Quando inserimos coisas demais é como se criássemos uma casca contra isso. Vários personagens são inseridos no decorrer da história para morrerem algumas páginas depois. Ou seja, foram apenas bucha de canhão para mais mortes. Chega ao ponto de sequer lembrarmos seus nomes. O impacto seria diferente se o autor tivesse construído o perfil do mesmo. Drézim, um garoto que fazia bully com Ícaro, poderia ter sido apresentado em mais detalhes. Seu desespero teria gerado uma reação diferente no leitor, ao acompanhar um valentão se tornando alimento de criaturas malignas. Voltando a Sob a Redoma, King aniquila com vários personagens com requintes de crueldade. E a gente sente as mortes porque já havíamos nos acostumado com os personagens.


A descrição do contexto vivido por aquelas pessoas é riquíssimo. Diego não hesita em construir um mundo que é bem detalhado, mesmo se tratando de uma pequena cidade. Gosto de como ele integra também o mito do Rei de Amarelo à narrativa com ele sendo incorporado à cultura do mundo. A religião deixa de existir para ser substituída por algo cruel e depravado com os sacerdotes sendo a manifestação desse novo modo de existir. Tem um momento na narrativa em que os sacerdotes amarelos citam a maneira como eles desprezam a vida e dentro daquele mundo distorcido, a racionalidade de tudo faz sentido. Mesmo os pequenos detalhes como os enterros, as mortes torpes, o medo de não conseguir saber se alguém continuará vivendo no dia seguinte. Uma das criaturas que cercam Malaquias diz que o mundo que existia antes era um sonho e que o mundo real é esse no qual as criaturas extraplanares habitam entre os homens. É como se fôssemos apenas mais um nível na cadeia alimentar e os Seres Antigos fossem os reais predadores. Isso fica bem claro para o leitor.


Faltou um pouco de cadenciamento para a construção de mundo. O começo da narrativa é bem puxada para um leitor ocasional. Até nos situarmos, precisa passar entre 30 e 40% da história (li no formato de ebook). Ficamos meio perdidos até ali tentando entender a situação. E não há problema nenhum em não explicar ao leitor as coisas, permitir que ele monte o quebra-cabeças. O problema é não dar as condições para que ele possa montar. Me situei mais tarde mais porque me aclimatei com a escrita em si. O contexto do mundo se confunde por vezes com o drama da própria família. E entendi que existem algumas conexões e que os Dédalo são centrais aqui. Mas, não para explicar o cotidiano deste lugar distorcido. Se o leitor não tiver algum conhecimento dos mitos de Lovecraft, ele também vai se perder. Ou seja, também afasta um leitor ocasional. E não estou dizendo que não curti o contexto. Pelo contrário: curti o contexto, curti os personagens. A história é boa. Só que alguns detalhes fazem com que alguns pequenos problemas se tornem questões maiores em um cômputo geral. Ao não abordar como aquela sociedade declinou, o autor deixou de apresentar pouco a pouco sua mitologia, para que o leitor pudesse assimilar com mais calma o volume de informações. Não compromete a fruição da história, apenas a complica um pouco.


Vou me lembrar do Diego Aguiar. Um autor que merece que a gente acompanhe seus trabalhos para sabermos o que ele vai aprontar a seguir. Essa história me deixou com curiosidade sobre que rumos ele vai tomar nesse universo maligno que criou. As peças foram postas no tabuleiro. É uma história inquietante, com personagens que vão precisar encontrar forças um no outro para poderem conseguir se manter vivos em um mundo que não deseja permanecer vivo. Onde sucumbir à loucura pode ser a melhor alternativa. Desvanecer e ser levado aos inomináveis pode ser o passeio do dia seguinte. E queremos saber o que vai acontecer com a família Dédalo e se as asas de Ícaro se queimarão assim como o de sua contraparte mitológica. Parabéns ao autor pelo bom trabalho e pelo domínio da mitologia lovecraftiana. Só que nos próximos volumes, uma ousadia ainda maior seria tornar essa mitologia que o inspirou em algo seu, em algo próprio. Partir de uma inspiração para introduzir o novo. Esse sim poderia ser um baita salto.











Ficha Técnica:


Nome: O Apocalipse Amarelo Livro 1 - Uma torre para Cthulhu

Autor: Diego Aguiar Vieira

Editora: Avec

Número de Páginas: 120

Ano de Publicação: 2023


Link de compra:


*Material recebido em parceria com a Avec Editora














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1 Comment


Rubens Miranda
Rubens Miranda
Jul 24, 2023

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