• Paulo Vinicius

Resenha: "O Ano em que nos Tornamos Ciborgues" de Olavo Amaral

Atualizado: Jun 4

Uma guerra acontece entre rebeldes e o governo vigente. Dura, cruel e sanguinária, transforma as pessoas e destrói vidas. Quando ela acaba, aqueles que saíram feridos passam por um processo que os transforma em ciborgues.



Sinopse:


Olavo Amaral mescla fatos e fantasia, narrativas labirínticas e distopias, na tradição dos grandes autores que escapam do realismo para tratar dos temas cruciais da situação humana.




Em uma narrativa repleta de camadas, Olavo Amaral nos coloca uma série de temas contemporâneos. É impressionante quando um autor consegue maximizar sua escrita a ponto de um parágrafo possuir tantas leituras diferentes quanto significados. Estamos diante de uma narrativa com pouco mais de dez páginas, cujas imagens podem nos revelar temas como a guerra, o fim da inocência, a opressão de um governo, a alienação e uma sociedade vigiada. Uma riqueza tão grande que o tema dos ciborgues se perde nesse manancial literário.


Estamos diante de um protagonista sem nome que parece estar escrevendo algo para o leitor. Trata-se de uma narrativa híbrida de primeira e segunda pessoas onde a quarta dimensão é quebrada vez ou outra. Isso porque o protagonista se refere ao leitor como "você" em algumas cenas, revelando momentos em que teria encontrado esse "você" ou alguma situação que o fez lembrar dessa pessoa. A escrita é muito poética e as palavras são vibrantes e cheias de energia. Os parágrafos possuem significados ocultos e jogos de palavras que podem conduzir diferentes leitores a diversos caminhos. Não dá para o leitor ler esse conto de maneira leviana ou rápida. Não recomendo isso. Vá com calma e apreenda o significado do que o autor está querendo dizer. Reflita. Deixe a mensagem entrar. Só depois prossiga. Se for preciso, releia algumas vezes.


A narrativa trata de um grupo de jovens que se rebelaram contra um governo opressor. A guerra durou algum tempo e fez com que estes jovens acabassem amadurecendo rápido demais. A dureza da guerra transformando jovens em homens devastados ao final do conflito. Este termina quando os líderes do movimento acabam conquistando aquilo que desejam do governo. Os oprimidos se tornaram opressores. Àqueles que foram feridos na guerra, resta uma operação que substitui os membros ou órgãos perdidos por peças mecânicas. Mas, a sociedade parece ser a mesma para eles? Depois do fim de um conflito duro e que todos buscavam algo que não foi alcançado, o que fazer?


"Pedaços e cicatrizes concretas de um passado que se esvai, marcas de uma derrota que nos une como a vitória não seria capaz."

Esta é a história daqueles que perderam. O quanto estes foram assimilados por uma sociedade que eles combatiam tanto. E agora se veem dentro dela, precisando se adaptar depois de terem tido suas vidas lançadas para o alto. Nenhum deles consegue se encaixar, já que os olhares daqueles que julgam estão por toda a parte. Nosso protagonista acaba seguindo para um bar onde outros como ele se encontram. Até aquele momento, o personagem sentia muita pena de si mesmo. Primeiro por ter sobrevivido enquanto outros morreram; e em segundo lugar, o porquê de ele ter deixado seus membros serem substituídos. Ele não se sente parte do próprio corpo.


O autor trata de temas que estão sempre em voga. Um outro exemplo é o do governo opressor que transforma mesmo a melhor das intenções em uma corrida capitalista mortal. Imagine fazer parte de um movimento que possuía um objetivo nobre e ver seus líderes negociando vantagens para si. O quanto isso pode devastar o coração de um rebelde. Quando aqueles no qual você acreditava passaram para o outro lado e se uniram àqueles que combatiam até algum tempo atrás. Infelizmente isso é mais comum do que parece. Essa sensação, esse sentimento de insatisfação é transmitido pelo protagonista que não se conforma com o que aconteceu. A injustiça de tudo aquilo é reveladora de o quanto a sociedade pode não recompensar aqueles que buscaram um equilíbrio.


Conto maravilhoso e só tenho a agradecer à Companhia das Letras por ter republicado esse conto em um formato tão legal. Pude ler a narrativa como se fosse uma pílula de encanto em uma tarde de primavera. Só tenho a recomendar a escrita de Olavo Amaral, um autor que eu não conhecia e o qual buscarei ler outros trabalhos.











Ficha Técnica:


Nome: O Ano em que nos Tornamos Ciborgues

Autor: Olavo Amaral

Editora: Companhia das Letras

Número de Páginas: 13

Ano de Publicação: 2019


Avaliação:

Link de compra:

https://amzn.to/2K4rN0h