• Paulo Vinicius

Resenha: "O Último Desejo" (A Saga do Bruxo Geralt de Rivia vol. 1) de Andrzej Sapkowski

Geralt é um bruxo: alguém que não é exatamente um humano e usa sua espada para matar monstros e ganhar algum dinheiro. Monstros como strigoi, gênios e homens corruptos habitam suas histórias como se fossem mais um dia em sua vida. Venham conhecer o início desta incrível série.


Sinopse:


Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons...




A Voz da Razão


Esse final de 2019 vai ser um ano importante para a obra de Andrzej Sapkowski. Com a primeira temporada da série a ser transmitida pela Netflix, milhares de novos fãs serão inevitavelmente arrastados para conhecer a fonte de onde saíram os episódios. Tendo confirmado que a série vai se basear nos livros, é um ponto óbvio que os leitores vão correr para adquirir este primeiro volume, O Último Desejo. Para vocês terem ideia, os títulos dos episódios correspondem aos títulos de cada um dos contos que compõem este primeiro volume. Contos? Sim, isso mesmo. O Último Desejo é um romance fix-up, ou seja, uma coletânea de contos escritos pelo mesmo autor, passando-se no mesmo mundo, tendo o mesmo personagem como protagonista e convergindo em uma narrativa que se desenrola no fundo. A estratégia dos produtores da série foi bem inteligente, aproveitando-se da própria maneira diferente como Sapkowski escreveu suas histórias e que se encaixam bem no tamanho de um episódio de uma série. Só uma dica: até o volume 3, o autor segue mais ou menos essa mesma fórmula. Só mais para a frente que ele adota o formato mais alongado.


"Um mal é um mal, Stregobor. Menor, maior, médio, tanto faz... As proporções são convencionadas e as fronteiras, imprecisas. Não sou um santo eremita e não pratiquei apenas o bem ao longo de minha vida. Mas, se me couber escolher entre dois males, prefiro abster-me por completo da escolha."

Eu li O Último Desejo em poucos dias (3, para ser mais preciso). E eu me segurei para não terminar ainda mais rápido. A escrita do autor é muito boa e o leitor não sente dificuldades em ficar imerso na narrativa. A curva de aprendizado sobre o mundo fantástico criado por Sapkowski é rápida, ainda mais pelo fato de ele usar uma abordagem bem realista em sua narrativa. O mundo parece vivo e tudo possui consequências. Uma das coisas que alguns leitores ficam receosos é com o próprio formato fix-up das histórias. Podem ficar tranquilos que, na minha visão, ele é perfeito para aquilo que o autor deseja passar. A sensação que eu tive é de estar lendo diversas aventuras do personagem, como as histórias do Conan (do Robert E. Howard) são. Contudo, o autor coloca uma narrativa no fundo que liga todas as histórias em um clímax muito bom. A narrativa é contada em terceira pessoa, com um narrador onisciente, estando sempre junto de Geralt. Tem um pequeno capítulo lá pela metade da história em que Sapkowski adota um formato bem curioso: Geralt faz uma espécie de monólogo com Iola, uma das sacerdotisas de Melitele com quem ele tem um envolvimento, e explica os seus sentimentos ao mesmo tempo em que se desculpa por sua falta de tato. O capítulo possui um tom poético, mostrando a capacidade do autor de variar a forma com a qual ele entrega a sua narrativa.


"Os reis dividem as pessoas em duas categorias: aqueles às quais ordenam e aquelas a quem compram. E sabe por quê, Geralt? Porque eles acreditam piamente numa antiga crença banal: a de que qualquer um pode ser comprado. Qualquer um. É apenas uma questão de preço."

O mundo criado pelo autor é apaixonante. Aos poucos ele vai adotando mais e mais cores até se formar um todo maior, familiar para nós. Os monstros são criaturas que afligem os seres humanos, mas existe mais na existência de cada um. Na primeira história (que será o primeiro episódio da série), Geralt precisa lidar com uma strigoi, um monstro que parece com um vampiro. Na verdade, se trata de uma princesa que fora amaldiçoada por alguém e o rei colocou uma recompensa para quem conseguir libertar sua filha da maldição. Parece uma narrativa simples, mas vários outros elementos dão mais profundidade a ela. O monstro está aterrorizando as redondezas há muito tempo e os membros da corte do rei querem a strigoi morta porque sabem que não há cura para aquilo. Por outro lado, o rei deseja de todo o coração ter sua filha de volta, mas entende a necessidade de proteger seus cidadãos. Com isso, a gente é capaz de perceber que, embora as missões de Geralt partam de uma premissa simples, elas acabam ganhando outras cores por conta da interação entre o bruxo e as partes envolvidas.


O próprio Geralt é um personagem bem complexo. Nesse primeiro volume, sabemos pouco de sua origem e suas habilidades. É um espadachim habilidoso, versado no uso de elixires para complementar sua força. Temos a informação de que os bruxos não são exatamente seres humanos, mas sofrem algum tipo de alteração que muda suas características físicas. Parece que também mexe com seus sentimentos, tornando-os verdadeiras máquinas de caça a monstros. Mas, existe da parte dos humanos um forte preconceito em relação a eles. Em alguns lugares sua presença sequer é tolerada, como acontece nos capítulos em que Geralt está com Nenneke, no templo de Melitele. Mesmo assim, Geralt parece lutar com seu eu bruxo, preferindo ser uma criatura talvez mais humana do que aqueles que o contrataram.


"Em cada conto de fadas há um grão de veracidade. Amor e sangue. Ambos possuem um poder colossal. Os magos e outros estudiosos se debruçam sobre esse fenômeno há anos, mas não chegaram a resultado algum, exceto à convicção."

A história que segue no fundo fala de uma personagem que é mencionada em alguns momentos: Yennefer, uma feiticeira que tem uma forte relação com Geralt. Na série eu imagino que eles devam inserir muitos flashbacks de Geralt com Yennefer, mas fiquem avisados: a personagem não aparece muito neste primeiro volume. Vamos vê-la apenas no último conto que dá o título do livro e ele mostra como eles se conheceram. Sapkowski criou uma personagem boa, com dilemas e problemas próprios. Vemos muitas mulheres nos games inspirados nos livros que são sensuais, provocantes e sabem usar de suas artimanhas para atrair os homens. Mas, existe um detalhe curioso: no mundo do bruxo Geralt, as feiticeiras são mulheres que podem ser feias e usam da magia para alterar sua aparência e serem capazes de enganar ou seduzir. A sensualidade funciona como uma fachada para as reais habilidades das feiticeiras, o que, novamente, dá mais profundidade a elas. Contudo, Yennefer não é exatamente a mulher mais bela do universo. O próprio Geralt afirma isso em uma de suas descrições da personagem. O que a torna tão icônica é a sua aura de segurança, a sua presença frente àqueles que a cercam. Yennefer não é apenas uma feiticeira poderosa, mas alguém segura de si e capaz de passar por cima de quem for para alcançar seus objetivos. Mesmo ela tendo aparecido apenas em uma história curta, já deixou uma impressão marcante que só deve se acentuar nos próximos volumes.


Curiosamente, o livro não possui tantas cenas de ação assim. Ele até tem algumas que são bem marcantes, como no começo, em um duelo específico e no último capítulo, mas em alguns momentos, Geralt vai precisar usar de sua inteligência para sair de determinadas situações. Dois capítulos específicos então se parecem mais com uma investigação de crime em um mundo fantástico. Adorei a forma como Sapkowski é capaz de mexer com nossas expectativas e fornecer respostas que nem sempre são tão óbvias quanto parecem. Se trata de uma narrativa mais madura e nem tanto algo tão aventuresco. Por ser formado de vários contos curtos a narrativa segue uma certa constância, não tendo momentos de altos e baixos. Isso pode ser negativo para alguns leitores que gostam de momentos climáticos. Estes vão acontecer mais na primeira e na última narrativa. Para mim, ficou do meu agrado.


"Aos homens agrada inventar monstros e monstruosidades. Com isso, sentem-se menos monstruosos. Quando se embriagam, são capazes de trapacear, roubar, bater na esposa, deixar morrer de fome a velha vovozinha, matar a machadadas uma raposa pega numa armadilha ou ferir com flechas o último unicórnio do mundo."

Os personagens de apoio também funcionam bem. Jasper e Nenneke são os que mais aparecem e eles são bem delineados pelo autor. Essa é uma vantagem de usar algumas páginas a mais para dar mais contornos. Jasper é aquele típico companheiro fanfarrão, mas que é amigo do protagonista. Algumas situações que eles vivem são bem comuns, mas sempre levam a um algo mais. Por exemplo, tem um momento em que o ato de eles estarem pescando vai gerar uma aventura incrível logo a seguir. Em outros, Jasper vai funcionar como a voz da razão diante de alguma atitude mais impulsiva de Geralt. Já Nenneke é uma espécie de figura materna, aparentemente, para o personagem. Ela está ali para ouvir os problemas e as angústias do personagem e tomar alguma medida a respeito. O templo de Melitele funciona como o lugar seguro neste primeiro volume para ele.


O Último Desejo é um ótimo começo de saga para um mundo que é muito promissor. O autor consegue entregar boas histórias e um personagem bastante complexo. Ficamos encantados com o que vai acontecendo ao personagem e aqueles ao seu redor. Pouco a pouco tudo vai ganhando mais forma e Sapkowski é habilidoso ao entregar bastante e deixar outras coisas para serem trabalhadas em volumes posteriores. Perguntas foram deixadas fazendo com que nós desejemos saber como elas serão respondidas. No geral, um ótimo livro.



Ficha Técnica:


Nome: O Último Desejo

Autor: Andrzej Sapkowski

Série: A Saga de Geralt de Rívia vol. 1

Editora: Wmf Martins Fontes

Gênero: Fantasia

Tradutor: Tomasz Barcinski

Número de Páginas: 320

Ano de Publicação: 2011


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