• Paulo Vinicius

Resenha: "Numezu" de Jorge Alexandre Moreira

Raul tenta resgatar seu casamento com Laura a todo custo. Em uma última tentativa, ele aluga um iate luxuoso e segue para Marselha para dias de vinho e sexo sob um sol mediterrâneo. Mas, durante o passeio, Raul encontra uma estátua no fundo do mar. Uma estátua que contém um mal ancestral.


Sinopse:


É a última chance para Laura e Raoul. Mentiras, drogas e traição arrastaram seu casamento ladeira abaixo e esse casal de brasileiros aposta suas últimas fichas em férias no sul da França. Os dois isolados em um belo veleiro, em um lugar de sonho, com boa comida e boa bebida.  Um dia Raoul volta de um mergulho trazendo uma estranha e antiga estátua – uma figura monstruosa, com detalhes apagados pelo tempo. A imagem de um ser esquecido, aprisionado por uma terrível maldição. Sob sua influência, para desespero de Laura, Raoul se transforma em um louco depravado sedento de sangue.


Enquanto isso, em terra, Gaspard, um jovem francês, foge desesperadamente de seus próprios demônios. Agora, por destino ou acaso, os caminhos de todos eles estão prestes a se cruzarem. As consequências serão aterrorizantes.




Sexo e violência em alto mar


Aviso de Gatilho: O livro contém cenas fortes de sexo e estupro.



Mais do que um livro sobre uma criatura mítica antiga, Numezu fala sobre um casal que vive de aparências. Um casal que após muitos anos juntos perceberam o quanto são dissonantes um do outro. Mas, mesmo assim, o dinheiro e o status acabam falando mais alto e a conveniência se torna parte do casamento. O marido enxerga a esposa como um troféu e a traição se torna algo recorrente. Como punição pelas traições do marido (que ela sabe já que ele não é bom em mentir), a esposa pede coisas cada vez mais caras. E é nessa atmosfera de traição e desgosto que uma entidade antiga se apossa de um coração fraco.


"Ninguém ganha todas. E tem umas que você não pode perder, porque o prejuízo é grande."

A escrita do livro é bem simples e direta. Jorge Alexandre emprega dois Pontos de Vista: o de Laura e o de Gaspard. A primeira personagem é onde gira a história principal e o segundo possui um plot que vai convergir em um momento futuro. A escrita é em terceira pessoa, onisciente. Em alguns momentos, vemos algumas cenas sendo colocadas sob a visão de Gaspard. O desenvolvimento da narrativa segue um padrão cinematográfico em três atos, com o início se focando nas motivações dos personagens, o desenvolvimento contando o aparecimento do elemento sobrenatural e como ele afeta a dinâmica entre eles e o final com o clímax e o fechamento dos plots. O livro se passa até bem rápido e a escrita do autor é dinâmica e usa ganchos que prendem o leitor até o final. Dependendo do ritmo da leitura de cada um é possível lê-lo em um ou dois dias. Como eu quis aproveitar mais a escrita, acabei reduzindo meu ritmo para entender como ele escreve.


No sentido mais técnico, eu só não gostei de alguns momentos onde as variações de pontos de vista não são muito claras. Alguns capítulos contém relatos de Laura e de Raul, mas não há uma separação entre uma voz ou outra. Na maioria das vezes a gente entende bem qual voz é de qual personagem, mas em alguns momentos isso fica bem confuso. Fora isso, eu gostei bastante da escrita. Alguns typos passaram, mas como a versão que eu recebi era prévia antes do lançamento da versão física, acho que devem ter havido correções. Quanto ao tamanho do livro, eu o achei ideal. Não há necessidade de esticar uma história apenas para ganhar páginas a mais. O autor conseguiu contar a história que ele desejava: apresentou personagens, dramas e encerrou narrativas ao final. Sem tirar, nem pôr.


"O tempo era um velho rancoroso que desbotava tudo o que tocava."

A narrativa é bastante sexual. Aliás, fica aqui o aviso de gatilho para pessoas sensíveis ao tema. Por lidar com a relação entre duas pessoas, o autor decidiu explorar os meandros de um casamento. De um lado temos um homem realizado profissionalmente, com muito dinheiro e status. Ele se casou com Laura, mas à medida em que o tempo passava o amor ia morrendo. Seja por incompreensão das duas partes, ou apenas porque aquele fogo do começo se apagou e eles não se tornaram amigos ao longo do casamento. Mas, Raul não é um homem violento ou desrespeitoso com Laura. O que acontece é a mera indiferença entre eles. Laura também se acomodou com esta situação, discutindo eventualmente com o marido. Quando Numezu surge como um elemento modificador, tudo o que a estátua faz é despertar sentimentos que estavam represados. A imagem abre as comportas.


De outro lado temos Gaspard, um homem introvertido que acaba se envolvendo com uma mulher linda e sensual. A relação entre os dois vai se tornando mais difícil à medida em que ela se revela ser uma pessoa difícil com a qual lidar. Se Laura é um troféu para Raul, Gaspard precisa lidar com uma mulher que deseja ser o alvo de admiração e cobiça dos homens. Isso mesmo com o personagem não gostando desse comportamento. Se Raul é o protótipo do macho alfa com dinheiro, Gaspard prefere não estar tão embaixo das luzes. E quando ele deseja cair fora da relação, é óbvio que sua parceira não gosta da negativa. Ela gosta de se sentir poderosa, no controle. Toda a situação acaba levando o personagem a tomar uma decisão difícil que muda completamente sua vida.


"As mentes, diante de algo que afronta sua lógica, negam-lhe a existência. Parece orgulho, intolerância, cegueira, mas essas são apenas as roupagens externas de uma reação de sobrevivência. Mesmo a mais torta e imensa lógica pessoal é a trama da realidade que constitui aquela mente. O que agride essa trama, fere a mente de morte, ameaça sua própria existência."

Minha crítica fica no fato de a história de Gaspard estar muito distante da narrativa principal. Ele acaba sendo movido de forma muito conveniente a estar próximo ao que acontecia na narrativa de Laura e Raul. Para mim, a história é sobre estes dois e o outro personagem funciona mais como um intruso. Se o tema não fosse semelhante à narrativa principal, não haveria conexão alguma. Senti o personagem muito deslocado e o fato de a trajetória dele ter sido tratada rapidamente não colaborou para isso. Os capítulos de Gaspard eram bem pequenos, e parecia mais um filler entre as cenas vividas pelo casal. A minha sugestão seria a de dividir melhor os capítulos vividos pelo personagem de forma a equilibrar em parte as duas narrativas. E dar uma explicação para o personagem estar em Callelongue... Porque eu não entendi o que ele estava fazendo lá: ele buscava um cenário bucólico? Ia encontrar alguém? Queria pensar? Não entendi bem.


Se você está procurando por uma boa história de terror, Numezu pode ser uma boa. Com um estilo narrativo competente, apresentando uma história direta, Jorge Alexandre nos mostra que podemos ter um lado obscuro terrível escondido em nossos corações. E basta uma pequena faísca para que isso saia para fora e machuque aquelas pessoas que amamos.



Ficha Técnica:


Nome: Numezu

Autor: Jorge Alexandre Moreira

Editora: Monomito Editorial

Gênero: Terror

Número de Páginas: 182

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

https://www.livrariamonomito.com.br/numezu


*Material enviado em parceria com a Monomito Editorial


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