• Amanda Barreiro

Resenha: "Nós", de Ievguêni Zamiátin

O engenheiro D-503 desempenha suas funções conforme determinações do Estado Único e é plenamente feliz com isso, até que começa a questionar.



Sinopse:


Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. A história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita mas opressora, e seus conflitos ao perceber as imperfeições dele, ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o "Benfeitor", regente supremo da nação. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético, devido à censura imperante no país.



Nós


Considerado o pai das grandes distopias, Nós se sobressaiu entre seus colegas escritores, apesar de nunca ter conseguido alcançar a popularidade daqueles que o usaram como referência e inspiração, como os romances 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A bem da verdade, a leitura de Nós nos remete diretamente a essas duas obras, quando encontramos a mecanização do trabalho e do homem, pendendo para os primórdios da robótica, a adoração a razão, a lógica e o abandono de traços considerados como fraquezas humanas, tal como o amor.


Nesse sentido, vemos D-503, o protagonista da história, como um homem conformado, a quem foi ordenado que fosse feliz comendo uma gororoba sintética feita de petróleo (sim, o petróleo estava em alta naquele momento e acreditava-se ser a solução para todos os problemas econômicos), trabalhando e voltando para casa para dormir. O controle do Estado Único é tão presente e tão inquestionável que, sim, as pessoas são felizes sob seu jugo - ou pensam que são, já que não conhecem nada além disso. D-503, na verdade, não é nem um pouco cativante, carismático ou interessante; inclusive, é difícil citar quaisquer dos personagens como minimamente interessantes, e esse é o principal entrave para o ritmo da história.


Como personagens de destaque, temos também a O-90 e a I-330. Sem querer adentrar demais na história, é legal contrapor essas personagens, já que O-90 representa o amor, a emoção, a entrega e confiança - fraquezas que D-503 despreza - e estão diretamente opostas à I-330, à subversão, à sedução e à lógica seca e objetiva. I-330 é, para todos os efeitos, a verdadeira propulsora da trama e tudo passa a gravitar em torno dela a partir do momento em que surge na história. O que acontece é que I-330 também não é carismática, mostrando-se cheia de clichês terríveis desde sempre atrelados à figura feminina, como uma espécie de Eva distópica. No entanto, é dela o mérito pela ação de forma confiante e resoluta em busca do que realmente acredita.


Em termos de ambientação, Nós tem inúmeras peculiaridades e inovações para a época. É preciso ter em mente que Zamiátin foi um ex-bolchevique desiludido com a URSS e, portanto, teceu severas críticas ao regime socialista russo que transparecem em diversos momentos de Nós (motivo pelo qual foi aclamado por Orwell posteriormente). Tudo, então, diz respeito à crise da coletividade, à autoridade incontestável e à alienação imposta a uma sociedade que vive entre muros. São críticas relevantes e válidas, mas que precisam ser interpretadas com cuidado, levando em consideração a situação do autor. Dito isso, observamos uma sociedade bem desenvolvida, controlada e funcionando perfeitamente como um relógio: todos são números, para matar a ideia de individualidade; todos vestem uniformes (unifs), para não haver vaidades e diferenças; todos comem a mesma comida e moram no mesmo tipo de habitação; todos os prédios e construções são feitas em vidro, para não haver segredos e privacidades - não há nenhum "eu", apenas "nós".


" - Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?"

- Sim, é uma revolução! Por que isso é absurdo?

- É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa (eu é que digo e não você), a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso...

- Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número.

- Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

- E que última revolução é essa que você quer?"


A alienação é tamanha e as "fake news" tão bem disseminadas que todos os habitantes do Estado Único desconhecem o que existe além dos muros. Para eles, esta é uma civilização perfeita e tudo que está fora dos limites territoriais simplesmente não é bom o suficiente, é selvagem, desordenado e, portanto, inferior. É nesse cenário árido e surreal que o romance distópico se desenvolve.


Mas por que, dito tudo isso, Nós não conseguiu o mesmo destaque que 1984, por exemplo, dadas as terríveis semelhanças? Um dos pontos fracos do livro, na minha experiência de leitura, é a escrita do Zamiátin e o ritmo um pouco empacado, devido principalmente aos personagens, como já mencionei acima. Como a temática é centrada na razão e no raciocínio lógico, temos também uma escrita cheia de jargões, metáforas e alusões matemáticas; além disso, não sei se pela tradução ou se é uma característica já do original, Zamiátin se expressa de forma truncada, exigindo, em alguns momentos, uma releitura completa de um parágrafo , página ou até de um capítulo inteiro para se compreender a ideia ali exposta.


Contudo, ainda que pontuado por problemas, Nós representa um marco na literatura russa e uma vanguarda genial para as distopias, introduzindo uma nova forma crítica de escrita, utilizando a ficção a favor de um posicionamento político claro. Como clássico e como referência, é uma leitura importante, especialmente para os fãs do gênero, pois é a fonte da qual beberam os maiores nomes da ficção distópica que temos até o momento.


Por último, vale ressaltar que a edição da Aleph está excelente, com tradução direta do russo pra o português, ótima diagramação, capa dura e ainda tem dois anexos muito interessantes: uma resenha do George Orwell e uma carta do próprio Zamiátin ao Lênin. A editora conseguiu um belíssimo trabalho.









Ficha técnica:


Nome: Nós

Autor: Ievguêni Zamiátin

Editora: Aleph

Tradução: Gabriela Soares

Número de Páginas: 344

Ano de lançamento: 2017


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