• Paulo Vinicius

Resenha: "Nonnonba" de Shigeru Mizuki

O jovem Shigee-san aprende com a Nonnonba sobre o mundo dos youkais. Ao mesmo tempo precisa lidar com os problemas típicos da sua idade: as guerras contra a galera da outra cidade, as paixonites juvenis e as dificuldades na escola.

Sinopse:


"NonNonBa", publicado originalmente no Japão em 1977, é a obra-prima de Shigeru Mizuki, um dos autores de mangá mais importantes de todos os tempos. Parte biográfico, parte fantástico, "NonNonBa" é um trabalho tocante sobre a infância e o amadurecimento, inspirado em grande parte no próprio Mizuki, quando criança, e sua avó, uma fonte inesgotável de conhecimento sobre os youkais (espíritos-monstros do folclore japonês).

Neste mangá, os personagens caricatos e expressivos contrastam com cenários detalhados e realistas, resultando em um trabalho ímpar que é, ao mesmo tempo, delicado e expressivo. NonNonBa está firmemente enraizado em um contexto social e histórico, e passeia pelo mundo sobrenatural.




Como é colocado nos extras desta edição, se Osamu Tezuka é o deus dos mangás, Shigeru Mizuki é alguém que se situa no mesmo patamar. Diante de uma história que mescla elementos fantásticos para contar a história do jovem Shigeru, ficamos encantados com a riqueza de elementos da cultura oriental. É com essa proposta bem diferente de Nonnonba que somos apresentados finalmente a este grande mangaká. E tomara que outras obras dele venham ao Brasil. 

Falando da edição da Devir, ela é simples, porém bem redondinha. O mangá é em capa cartonada com uma sobrecapa que identifica a obra dentro da proposta da coleção Tsuru da editora. O papel é de boa gramatura, sendo uma variante do Pisa Brite. Mas, para a alegria do público, o papel não deixa passar aquelas transparências chatas que atrapalham alguns mangás. Nonnonba tem um tamanho grande, o que faz com que possamos apreciar melhor o traço de Mizuki. Ao final da história, temos um glossário com os youkais que aparecem ao longo da narrativa e uma matéria bem legal sobre a vida e a obra do autor. Após a biografia, temos uma bibliografia selecionada e alguns dos prêmios que o autor conquistou ao longo de sua carreira. Quanto à tradução, ela tem alguns erros ortográficos que podem ser facilmente corrigidos em uma nova edição. Não é nada que atrapalhe a leitura. 

Nonnonba é formado por vários pequenos capítulos que compõem a infância do autor. Essas histórias se interligam através de vários elementos, formando um todo bem coerente. Só previno os leitores que se deixam enganar pelas histórias simples e as situações de vida de Shigee para atentar melhor ao que está nas entrelinhas. Mizuki consegue entregar histórias bem profundas. O autor desfila todo o seu conhecimento sobre youkais na narrativa, mas em nenhum momento eles parecem ter sido colocados de qualquer maneira ali. Todos servem a um propósito. O enredo é competente ao ser capaz de falar de seus temas com muito sucesso. 

Outro elemento que não pode ser subestimado de forma alguma é o traço. Mizuki tem um traço sensacional. Alguns leitores vão parar no traço mais cartunesco do autor e esquecer de observar o resto. Os personagens são daquele jeito de uma forma proposital. Parece a visão de uma criança sobre aqueles que o cercam. Seja o seu pai com o queixo comprido e um ar de intelectual, a mãe com olhinhos apertados e desconfiados, os colegas do bando com o seu jeitão de moleques bravos ou o da Nonnonba com seu ar austero. Esse design de personagens é tão proposital que podemos ver como Mizuki sabe desenhar personagens bem delineados quando quer ao nos mostrar Chigusa. Ao mesmo tempo os cenários são deslumbrantes. O cuidado que o autor tem com os detalhes pequenos do cenário transparece nos detalhes dos kimonos de todas as personagens femininas. Ou as casas e árvores do fundo. Ou todos os objetos presentes nas casas. Outra coisa que impressiona é a habilidade de Mizuki de usar a técnica da perspectiva. Tudo fica com uma aparência mais longilínea, com uma profundidade maior. O uso habilidoso do sombreamento e do emprego do preto e do branco (e o que está no meio) coloca o autor em um outro patamar. 

" - (...) ser forte ou fraco não é uma questão de ter músculos.  - O quê? - Por mais que use a força física, não é possível conter a vontade. A sua vontade não se curvou a ele, certo? - Não, mas então o que é força? - É algo que aprenderá por si mesmo. São as dores e as humilhações como as que passou hoje que fortalecem as pessoas. (...)"

Os personagens criados pelo autor são apaixonantes. A narrativa se foca mais na família de Shigee e todos tem algum subplot a ser solucionado. Falando dos dois principais, Shigee e Nonnonba, eles vão sendo trabalhados lentamente pelo autor. O protagonista cresce bastante ao ter que passar por uma série de provações. Isso vai se solidificando na sua própria maneira de ver o mundo. Se pudermos trazer para a linguagem literária, Shigee passa por uma jornada de amadurecimento. Nonnonba atua como uma voz conselheira para ele. Ela ensina com calma e paciência lições necessárias sobre a vida. Tudo escondido nas suas inumeráveis citações sobre youkais que estariam ou não perseguindo o personagem. 

Os pais de Shigee representam a passagem de um Japão mais tradicional para a modernidade. Enquanto a mãe é descendente de uma família rica, com propriedade e porte de espada (que ela faz questão de lembrar o tempo todo), o pai é um homem mais ligado à cultura. A mãe representa ali o modelo da mulher japonesa do início do século XX que é submissa ao homem (apesar de ela ter uma forte personalidade) e vem de uma família tradicional. Para isso, ela cobra do marido que seja uma pessoa mais séria nos negócios. Já ele é menos ambicioso, gosta de ler e vive de acordo com suas paixões. Até inaugura uma cinemateca na cidade usando o dinheiro de seu trabalho. Como pais, a mãe representa o rigor enquanto o pai deixa seus filhos fazerem o que lhes dá vontade. 

Vários temas são tocados, mas vou comentar sobre alguns. A dor da perda do primeiro amor é um desses temas. Apesar de ser apresentado de uma forma bem inocente, o autor trata tudo com respeito. Ele não infantiliza o personagem e a conversa que Shigee e Nonnonba possuem sobre o significado da morte é muito lindo. Até mesmo as frases empregadas demonstram a sensibilidade do autor. Ou então o pai sentado à luz de lanternas na beira de um rio, dizendo: "Essa sua dor é um tesouro. Ganhou uma lembrança insubstituível." Essas frases simples e doces estão espalhadas pela narrativa. Outro tema é a do pai que não consegue parar em um emprego ou até do tráfico de pessoas. Fiquei espantado em como isso era comum no interior do Japão no início do século XX. Meninas que eram "adotadas" para serem vendidas para casas de prazeres como gueixas. Como eu disse no início, não se deixem levar pelo estilo cartunesco ou pelas temáticas aparentemente infantis. O mangá é muito mais profundo do que parece.

O elemento do sobrenatural é inserido com bastante naturalidade ao longo da trama. Os youkais fazem parte do cotidiano dessas pessoas. Eles estão presentes e precisam ser respeitados. Para isso alguns cuidados deveriam ser observados. O choque entre a descrença do que é o sobrenatural ao respeito por ele aparece em boa parte da narrativa. O mais curioso é que mesmo achando que tudo não passa de uma bobagem, os personagens sentem medo do Umi-Bozu, das kitsunes, dos ayakashis, dos uwan. Isso só demonstra como esse aspecto está entranhado nas relações entre os japoneses. Aliás, é até a relação que ocorre entre o homem e a natureza. 

Recomendo muito Nonnonba. Não é um mangá violento, e pode até mesmo ser lido junto com uma criança. Ajuda a passar diversas lições sobre amizade, sobre respeito às tradições, sobre primeiros amores, sobre família. Mizuki é um gênio, de fato. Se posso usar um adjetivo para ele, é que ele parece uma kitsune. Como as raposas japonesas, ele nos prega peças em suas páginas fazendo com que tenhamos uma atenção maior acerca do que ele está escrevendo. 


Ficha Técnica:

Nome: Nonnonba Autor: Shigeru Mizuki Editora: Devir Gênero: Fantasia/Autobiográfico

Tradutor: Arnaldo Oka Número de Páginas: 423 ​Ano de Publicação: 2018


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