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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "Museu do Crime" de Tito Prates

O Museu do Crime aproveita dos escândalos de assassinatos vislumbrados em exposição para entregar um caso inusitado ao delegado Meireles e uma boa história para o leitor.


Sinopse:


Uma série de mortes, até então desconectadas, começa a assombrar os moradores de São Paulo. Em todas elas o assassino deixa sua marca: a unha do dedinho do pé pintada de rosa.

O delegado Meireles e sua equipe de investigadores se empenham em desvendar o mistério por trás dessas mortes horrendas e descobrem que lidam com um serial-killer copycat e que a resposta à pergunta “quem será a próxima vítima?” pode estar no Museu do Crime!

Agora a polícia enfrenta o relógio e sua limitação de recursos para tentar descobrir a identidade do assassino e impedi-lo de causar mais mortes e terror na sociedade, enquanto uma trama cheia de mistérios vem à tona e Tito Prates te convida a desvendá-la.




A morte é tão aterradora que chega a inspirar pessoas. O jornalismo viu a oportunidade de elevar o número da audiência ao noticiar assassinatos brutais, mexer com o medo dos espectadores e prendê-los aos relatos de crueldade. Com tanta presença nas telas, seria lógico atrair também certas pessoas egocêntricas buscando chamar a atenção e trazer os holofotes a si. Como realizar tal feito? Simples, imitando os assassinatos marcantes ao longo da história a ponto de serem expostos para todos os interessados em conhecer este universo sensacionalista, disponibilizado tudo no mesmo lugar: o Museu do Crime. Publicado em 2019 pela editora Monomito após o sucesso na campanha do Catarse, este romance de Tito Prates conta a investigação de crimes inspirados nas exposições do museu homônimo, mas com um diferencial: demarcar cada vítima pintando o dedo mínimo do pé.

“― Doutor, isso não está Agatha Christie demais?”

Tereza Mendonça supera as expectativas de todo médico consultado por ela, sobrevivendo na velhice, mesmo sendo fumante. Vive com a filha Isadora e as funcionárias da casa, em especial a América, por sempre tratá-la como fosse a própria filha, ao contrário de Isadora, que sofre crises e toma medicamentos pesados quando necessita. Em certo dia acontece uma confusão de comunicação entre as funcionárias e nenhuma está presente, bem quando Tereza descobre Isadora enforcada no ventilador do apartamento.

O delegado Meireles está prestes a se aposentar depois de tanta experiência acumulada na resolução de diversos casos no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa ― DHPP. Acompanha o rumor de péssimo gosto sobre os funcionários do IML estarem aprontando com o corpo de algumas vítimas de assassinato ao pintar o dedinho do pé com esmalte rosa. Sílvio, um investigador em início de carreira ― por isso apelidado de investipol ― pede atenção do delegado para contar detalhes deste rumor com o esmalte. Temendo perder tempo, Meireles só aceita ouvir porque o escrivão e colega de longa data Xavier insiste. Depois de ouvir os detalhes e argumentos do investipol e não tendo condições de negar, o DHPP tem um grande caso em mãos, do tipo a ser estampado em todas as mídias de jornal viciadas em trazer catástrofes à audiência.


Ninguém diria que o cachorro latia porque sabia que ia acontecer um assassinato”

A narrativa alterna a perspectiva dos personagens, aproximando o leitor a seus receios nesta experiência distinta de toda a carreira dos profissionais envolvidos na investigação. Também acompanha a visão de certos civis envolvidos com uma ou outra vítima, entre eles a Paola. Diversas páginas relatam o cotidiano de todas essas pessoas. Mesmo quem não possui focalização na narrativa tem a oportunidade de falar em detalhes da vida através do diálogo, tudo em prol da investigação. Este tipo de abordagem soaria maçante caso viesse de um autor inexperiente a encher o livro de informações fúteis, o contrário da escrita de Tito Prates. Cada detalhe íntimo do personagem é válido na investigação e ainda vai além, conecta os personagens ao leitor e revela subtramas com conflitos particulares e interessantes a ponto de incentivar a leitura das próximas páginas.

O protagonista Meireles é um show à parte. É nítido ver o reflexo da experiência dele nas cenas onde participa. Sabe a melhor forma de interagir com os civis e funcionários, é consciente dos momentos aceitáveis de exclamar palavrões ― assustando apenas o investipol ― e reconhece os próprios limites, bem como a qualidade dos colegas de trabalho. Também possui aquela visão subversiva acerca dos clichês de investigação, seja na queixa da polícia resolver nada ou no desabafo dos colegas sobre jornalistas parecerem urubus em busca de notícia escandalosa; responde a esses questionamentos com empatia e traz nova interpretação da abordagem convencional.


“― [...] quando a gente acha que uma coisa é coincidência, aparece outra para mostrar que tudo é possível.”

Há muito diálogo no livro, algo aceitável em romance policial por dar brecha para os personagens demonstrarem contradição na fala ou revelarem detalhes aos investigadores ― e ao leitor ― mesmo sem querer. Ainda assim este livro exagera na dose. Dizem que uma das funções do diálogo consiste em avançar a cena, pois intercala com a narração e dinamiza a leitura. A afirmação é uma meia-verdade, pois o autor competente consegue conduzir o ritmo de leitura sem o uso do diálogo. Mas, voltando à escrita de Tito: certos diálogos avançam demais a cena, a aceleram quando há situações dramáticas que poderiam aprofundar naquele momento em vez de prosseguir com a conversa. Fora esse deslize de um ou outro momento, o uso do diálogo no geral é sensacional, trazendo voz distinta a cada personagem existente na trama.


Por abordar tanto o sensacionalismo de assassinatos, a edição do livro aproveitou e elaborou alguns recortes de jornal com notícias dos casos acontecidos no romance, estampados em toda a página anterior a determinados capítulos. São noticias do mesmo jornal, pondo os assassinatos em destaque no meio das notícias sobre sexo e prostituição, de natureza vulgar refletida até nos erros de ortografia ― aparentemente propositais na edição ―, mostrando que o jornal peca na revisão até nas manchetes da página principal. Há problemas de digitação no romance também, esses nada propositais, pelo menos não chegam a atrapalhar tanto a leitura.


“― Ninguém quer o serviço e aí quem aceita às vezes tem cabeça fraca.”

Museu do Crime reflete a experiência do delegado Meireles ao solucionar os crimes relacionados ao dedo rosa. Também demonstra a capacidade de Tito Prates em coordenar um romance policial extenso, com muitos personagens e acontecimentos, e ainda por cima sem sobrecarregar o leitor.



Ficha Técnica:


Nome: Museu do Crime

Autor: Tito Prates

Editora: Monomito Editorial

Gênero: Policial

Número de Páginas: 402

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:


*Material enviado em parceria com a Monomito Editorial






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