• Paulo Vinicius

Resenha: "Monstros Noturnos" de Steve Niles e Bernie Wrightson

Uma coletânea com três histórias dessa dupla incrível que é Steve Niles e seus roteiros sensacionais e a arte primorosa do mestre Bernie Wrightson. 

Sinopse:


A versão ilustrada que o artista Bernie Wrightson fez de Frankenstein, o grande clássico de Mary Shelley, conferiu-lhe renome universal. Quase 30 anos depois, ele retorna triunfalmente ao personagem, com a ajuda dos roteiros de seu frequente colaborador, Steve Niles, em Frankenstein Vivo! Cada página foi escaneada em altíssima resolução para se aproximar ao máximo da rica e detalhada arte original. Embora a obra não tenha sido concluída, devido ao falecimento de Wrightson neste ano, a Mythos Editora não podia deixar de trazê-la para o leitor brasileiro, numa edição em homenagem a um dos maiores ilustradores do mundo dos quadrinhos. O luxuoso volume também inclui outra obra da dupla Steve e Bernie, O Carniçal, a macabra e divertida história de um monstro investigador.




Com Monstros Noturnos, eu pude ter o prazer de conhecer o trabalho deste artista sensacional que é o Bernie Wrightson. Se você nunca ouviu falar dele, precisa corrigir essa heresia! Wrightson ao lado do genial Len Wein foi um dos criadores do Monstro do Pântano. Fez vários outras HQs em praticamente todas as editoras: Marvel, DC, Dark Horse, IDW. Aqui nós temos publicadas três histórias sendo duas com o personal Carniçal e a terceira que foi um trabalho incompleto chamado Frankenstein, Vivo, Vivo que ele deixou incompleto (faleceu durante a produção da HQ). Esse último é uma releitura do clássico de Mary Shelley. 

A edição da Mythos está muito bonita resgatando as origens de terror do personagem. Uma edição em capa dura com uma espécie de relicário com o rosto do personagem no meio. Os textos estão muito bons e o Érico conseguiu captar muito bem o estilo de escrita do Steve Niles que varia da comédia na primeira história para algo mais erudito na última história. Sem erros de revisão que eu tenha percebido. O papel é de alta gramatura couché, o que dá uma bela valorizada na arte do Bernie. No final temos alguns extras bem legais: uma conversa franca entre Steve Niles e Bernie Wrightson onde ambos comentam um pouco sobre como conheceram e se apaixonaram pelo gênero do terror e quais foram suas influências (além de um belo gosto por filmes de terror clássico), uma galeria de sketches e capas sensacionais. 

Se a arte do Bernie é magnífica, os roteiros de Steve Niles não ficam muito atrás. Ele tem uma boa noção de enredo e desenvolvimento. Confesso que a primeira história em que o Carniçal conhece um detetive no Canadá. Não consegui me conectar aos personagens o que fez com que a história parecesse estranha e genérica para mim. E isso mesmo o roteiro do Niles sendo muito bom. Mas, a história não me cativou. Já a segunda história cresce em tom dramático e a gente consegue finalmente entender o sofrimento e a solidão do Carniçal. Na adaptação de Frankenstein, Niles e Wrightson fizeram algo de outro mundo. Que roteiro é aquele? Niles conseguiu ser erudito, sem ser pomposo e entregar uma narrativa que pega muito do espírito gótico do século XIX. Uma pena o projeto não ter sido finalizado; certamente seria um clássico da história dos quadrinhos. 

É difícil falar a respeito da arte do Wrightson sem usar um palavrão. Como eu passei a minha vida sem conhecer uma HQ desse cara? Tá, vou usar a história do Carniçal, a que eu menos gostei, para exemplificar o detalhamento da arte dele. Se vocês pararem para observar a silhueta do personagem, vão perceber que mesmo a camisa e o casaco simples que ele usa possui camadas ou até pequenos amassados. Isso é algo que passa despercebido por muitos artistas hoje que preferem algo mais clean. Ou as cenas de ação que possuem uma fluidez bela onde as coisas acontecem seguindo uma certa física. Nada acontece despropositadamente e a arte consegue captar bem esses detalhes. Mesmo quando ele precisa fazer uma arte mais deformada como no caso da artista, ele consegue criar algo realmente horrendo. Me lembrou algo saído da mente de um Lovecraft. 

Mas, eu preciso escrever um parágrafo sobre Frankenstein. Com mil demônios!!! Parecia que eu estava vendo uma sequência de quadros em uma exposição de arte. Cada página era deslumbrante. Eu parava para admirar cada paisagem, cada cena. Mesmo cenas tristes como a Criatura no meio de uma tempestade de neve com a visão de Frankenstein ao fundo gritando impropérios, é bela em toda a sua morbidez. Agora, como não referir à sequência de cenas no laboratório do dr. Ingles. Cada detalhe do laboratório foi minuciosamente desenhado por Wrightson, desde o livro ao fundo aos tubos com substâncias estranhas; das gárgulas estranhas às estátuas do fundo. Tudo tem detalhe, profundidade. Wrightson dá uma aula de como criar uma obra de arte apenas usando o preto e branco. Ele consegue usar as duas cores de formas tão inusitadas que ele parece um deus atirando vida na tela. As expressões dos personagens tem magnitude, beleza. ​

É curioso como os temas tanto do Carniçal quanto do Frankenstein tem um elemento em comum: um monstro tentando encontrar sua humanidade apesar de sua aparência. O Carniçal decide proteger a humanidade das forças sobrenaturais. É a maneira dele de conviver com a sua maldição ao mesmo tempo em que não perde aquilo que resta de seu coração. A amizade que ele desenvolve com Klimpt no espaço de uma noite vem a partir da aceitação do detetive da personalidade e da aparência do personagem. Enquanto que na segunda história, o protagonista imagina que se encontrar alguém parecido com ele, isto seria o suficiente para entender a si mesmo diante desse mundo que não o aceita. O curioso é que aquilo que parece ser o mais compreensível para ele, é o mais alienígena. Talvez pelo fato de os dois personagens terem percorrido caminhos absolutamente distintos, isto tenha feito uma diferença na própria essência de como eles encaram o significado dos humanos para si e deles para os humanos. 

Já a Criatura de Frankenstein é atormentada eternamente por ter sido criada por alguém que não a aceitou. Essa não aceitação significou uma negação de si. As desgraças perpetradas pela Criatura são fruto de uma raiva no fundo de seu coração por tudo aquilo que seu mestre fez a ele. Aqui vale mencionar que as mortes daqueles que eram caros a Frankenstein não é mencionada, mas quem leu o livro vai saber como se deram essas mortes. É legal também que o fato de a Criatura iniciar em um local gelado tem muito a ver com o romance propriamente dito já que uma das cenas finais é de ele e Victor em um barco próximo do pólo norte. De certa forma o roteiro de Niles segue em frente o que foi deixado por Mary Shelley. 

Tirando a primeira história que realmente não me encantou só tenho a elogiar a arte de Bernie Wrightson. Niles também conseguiu me atrair com essa pegada de terror pulp ou gótico, quando ele assim deseja. A edição da Mythos está linda e repleta de extras que vão interessar ao grande público. E essa é uma oportunidade única para conhecer a arte desse grande mestre. 


Ficha Técnica:

Nome: Monstros Noturnos Autor: Steve Niles Artista: Bernie Wrightson Editora: Mythos Gênero: Terror Tradutor: Érico Assis Número de Páginas: 156 Ano de Publicação: 2017

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