• Paulo Vinicius

Resenha: "Maresi" (As Crônicas da Abadia Vermelha vol. 1) de Maria Turtschaninoff

Atualizado: Jan 15

A chegada de Jai na Abadia Vermelha vai mudar a dinâmica da vida de Maresi e suas companheiras noviças. Mas, primeiro, Maresi irá tentar integrar a novata no cotidiano tranquilo da abadia.



Sinopse:

Uma história sobre amizade e sobrevivência, magia e encantamento, beleza e terror.


Maresi chegou à Abadia Vermelha quando tinha 13 anos, durante o Inverno da Fome. Antes disso, só ouvira rumores e fábulas sobre o lugar. Em um mundo onde garotas são proibidas de estudar ou seguir seus próprios sonhos, uma ilha habitada apenas por mulheres soava como uma fantasia incrível.


Agora Maresi vive ali e sabe que é real. Ela está segura. Tudo muda quando Jai, com seus cabelos emaranhados, cicatrizes e roupas sujas, chega em um navio. Ela fugia da crueldade e dos perigos escondidos em sua terra natal – mas os homens que a perseguem não vão parar por nada, até encontrá-la.


Agora as mulheres e meninas da Abadia Vermelha terão que usar seus poderes e conhecimento ancestral para combater as forças que desejam destruí-las. E Maresi, assombrada por seus próprios pesadelos, deve confrontar seus mais profundos e terríveis medos.




Um lugar onde apenas mulheres são bem-vindas. Uma utopia voltada para abrigar mulheres de todas as partes do mundo onde elas vão também para obter conhecimento e dar um rumo para as suas vidas. Outras autoras como Charlotte Perkins Gilman já usaram esse artifício na hora de criar uma narrativa e nos colocar em uma situação como essa, mar Maria Turtschaninoff apresenta uma história mágica e vibrante que fala de crescimento, de violência e de sacrifícios.



Um lugar de conhecimento


A narrativa nos é feita por Maresi que parece estar escrevendo suas memórias. Como uma espécie de diário. Ela nos conta a partir da chegada de Jai que, de alguma forma mexe com tudo ao seu redor. Maresi é uma narradora confiável, e a gente acaba sentindo muito de perto seus anseios, suas alegrias, suas inseguranças, sua curiosidade. Essa conexão tão forte com a protagonista faz com que o leitor rapidamente tenha empatia com a personagem. E ela é aquele tipo de personagem que agrada a leitores de livros: curiosa, impulsiva, sedenta por conhecimento. E em um lugar voltado para a concentração e a difusão de conhecimentos isso se torna ainda mais legal. Um dos temas trabalhados pela autora é justamente o do conhecimento e sua importância para a sociedade. A personagem parece entender seu papel e está o tempo todo buscando ampliar aquilo que ela sabe.


Claro que pouco a pouco, a protagonista vai se dando conta de que aquele lugar é pequeno demais para concentrar tanta coisa. Maresi vem de um lugar que passou por um evento chamado inverno da fome, quando as colheitas minguaram e a população passou por muitas necessidades. Ela viu a morte de muito perto. E essa sua experiência faz dela uma pessoa marcada. Ver sua irmã morrendo só porque não tinha nada para comer fez nascer na personagem um forte sentimento de proteção por aquelas ao seu redor. É até curioso ver o quanto a personagem é protetora mesmo com a Jai, alguém que acabou de chegar. Maresi é compreensiva, paciente, tranquila. Ela entende que a recém-chegada passou por uma situação ruim e não a obriga a falar nada. Mesmo quando ela é pressionada para obter informações, Maresi apenas diz que tudo vem a seu tempo.

" - Elas gostam de mim. E elas precisam de mim, eu acho. - Eu sorri. - Eu preciso delas. Não sinto tanta falta de meus irmãos quando posso ajudar os outros."

Já Jai é aquela típica personagem misteriosa. Ela esconde algo e você sabe disso. Só que no fundo ela é apenas alguém traumatizado por uma situação de violência que vai ser explicada mais adiante. Jai faz a história se mover. Do contrário apenas passearíamos com Maresi pelo cotidiano idílico da Abadia sem que nada acontecesse. Apesar de que a autora é tão bem sucedida nesse quesito que eu não me incomodaria com uma história parada apenas contando um ano da vida das noviças e das irmãs. Recentemente eu li A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, da autora Becky Chambers, e percebi o quanto mesmo histórias mais lentas podem oferecer muita diversão ao leitor. Basta saber construir bem o núcleo de personagens e colocar situações realmente desafiadoras no dia-a-dia. A gente tem aqui Maresi indo para a sala dos livros, fazendo a Dança da Lua, ajudando suas colegas, enturmando Jai. Seria possível manter esse climinha sossegado numa boa. Mas, na sinopse do livro a gente já percebe que não é bem por aí.



As três faces da Deusa


"Eu nunca me senti segura do chamado da Velha, mas à noite era pior. Era então que a escuridão apertava o meu peito e eu ouvia a última respiração engasgada de Anner repetidamente. O reino da Morte parecia tão próximo e as minhas próprias batidas do coração pareciam tão irregulares e fracas. Como eu poderia resistir à vontade da Velha? Como eu podia me manter longe da porta?"

Para quem acha que a leitura é sossegada, tem alguns momentos em que a autora trabalha a questão da violência de forma até tensa. Ela nunca é explícita, apenas insinua o que vai acontecer. E isso é bom porque Maresi é um bom livro para servir de início para novos leitores. Mas, a violência aparece em alguns momentos: a situação de Jai que a fez parar na ilha e a chegada daqueles buscando Jai mais para o final do livro. A gente sabe desde o começo que alguém virá atrás de Jai. Isso é solto em diversos momentos na história. É algo que demora a acontecer, mas acaba sendo inevitável. Quando acontece a gente fica surpreso com o quanto uma autora que nos fez ficar confortáveis na ilha, cria situações tão tensas. A virada narrativa é assustadora.


Ela liga esses acontecimentos ao conhecimento de Maresi sobre a deusa. Na narrativa aprendemos que a divindade do mundo dela possui três faces: a Donzela, a Mãe e a Velha. Cada uma delas representa um propósito da mulher e um acontecimento da vida. Da perspectiva da mulher, a Donzela representa os anos tenros e férteis da mulher onde ela é alegre, sedutora e apaixonada. A Mãe é a progenitora, aquela que cuida dos filhos, que trabalha por uma casa em harmonia. Já a Velha representa os anos mais avançados onde a sabedoria prevalece sobre a juventude, quando os conhecimentos precisam ser passados adiante e a morte se encontra próxima. Mas, a gente pode embarcar em outra interpretação: as três faces da Deusa representariam as fases da vida. A primeira fase seria o da descoberta do mundo onde tudo parece encantador e belo. A fase da Mãe representaria a maturidade apresentando novas responsabilidades e desafios para todos nós. E a Morte seria o fim inevitável das coisas, quando o ser humano se prepara para uma nova viagem.


" - A Casa da Sabedoria oculta todo o poder que as Primeiras Irmãs trouxeram consigo - recitei de memória. Irmã O, por que falam de poder e não conhecimento?
- Porque conhecimento é poder - disse Dorje."

Apenas o conhecimento da dinâmica das coisas faz com que as irmãs consigam se salvar de seus obstáculos. Ou seja, informação é poder e ela oferece a possibilidade de empoderar aqueles que sofrem com abusos de poder. A mensagem que fica também é que a ignorância leva a humanidade a cometer atrocidades. Vemos dois casos disso na narrativa: a do pai opressor e violento e o daqueles que duvidam de que o conhecimento possa mudar algo. A compreensão de nossas limitações e de o quanto precisamos uns dos outros também é uma lição valiosa. Maresi só consegue cumprir os seus objetivos com a ajuda de Ennike, de Heo, de Jai, de Dorje e todas as outras. Sozinha ela não pode alcançar objetivo algum.


O livro é uma peça linda que retira sua inspiração claramente dos contos de fadas. Maria Turtschaninoff nos coloca em uma atmosfera idílica, imaginando uma narrativa empoderada onde as personagens trabalham para obter um objetivo comum. O núcleo de personagens é fascinante e cada uma é bem delineada em suas características. Os momentos finais são duros, porém inspiradores. Já aguardo as próximas aventuras da personagem.



Ficha Técnica:


Nome: Maresi

Autora: Maria Turtschaninoff

Série: As Crônicas da Abadia Vermelha vol. 1

Editora: Morro Branco

Gênero: Fantasia

Tradutores: Lilia Roman e Pasi Roman

Número de Páginas: 200

Ano de Publicação: 2018


Outros Volumes:

Naondel (vol. 2)


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