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Resenha: "Malaterre" de Pierre-Henry Gomont

Gabriel é um homem que busca recuperar a glória dos investimentos de sua família em um país africano. Ele não se importa em usar as pessoas para alcançar os seus objetivos, mesmo que essas pessoas sejam os seus filhos. Essa é a biografia da glória inútil de um homem miserável e de como ele destruiu a sua família.


Sinopse:


Gabriel quer comprar de volta a fazenda Malaterre, a propriedade que seus ancestrais construíram no coração da floresta equatorial africana há mais de um século. O objetivo é partir, assentar e reconstruir o que tornou a família Lesaffre tão prestigiosa. Em seguida, pretende entregar a terra a seus filhos.


Desde criança, Gabriel apresenta muitas "qualidades": é fugidio, mentiroso, beberrão. Nunca demonstrou, no entanto, capacidade para administrar uma propriedade rural. Mesmo assim, Gabriel partiu para o tudo ou nada: tirou os dois filhos mais velhos da mãe e os levou para a África equatorial.


Para os dois jovens adolescentes, tudo foi uma grande novidade. Descobriram a África e uma vida festiva e frívola. Eles também precisaram conviver com os problemas do pai, como a incessante falta de dinheiro, a má administração da fazenda e a insuperável propensão para a bebida.


Pode o sonho africano se dissipar nos vapores do álcool?





Essa é uma daquelas histórias que doem no coração a cada página que viramos. Porque ela é real e o autor não esconde isso desde o começo. Essa é a história dele e de seus irmãos e de seu pai abusivo que destruiu sua família em prol de resgatar a herança de família: uma imensa propriedade no continente africano onde ele explorava madeiras em plena floresta equatorial. Esta é uma daquelas histórias que não foram feitas para agradar aos leitores e nem nada do gênero. É um desabafo do autor sobre tudo aquilo que ele passou na vida e como isso impactou sua relação com aqueles mais próximos dele. Como toda a experiência que ele viveu traçou as linhas do seu caráter e como impactou a maneira como ele se relaciona hoje com a sua própria família. É uma história que me tocou profundamente por causa da experiência que eu também vivi (e de certa forma ainda vivo) por causa dos mesmos motivos.


Em Malaaterre conhecemos a história de Gabriel, um homem carismático, porém inescrupuloso capaz de qualquer coisa para resgatar os negócios de sua família. Desde pequeno, vemos o quanto Gabriel não gosta de seguir as regras impostas pela sociedade. Ele segue a sua própria visão de mundo e é muito bom no que faz. Um negociador insaciável, acabou por formar uma família com Claudia e seus filhos Simon, Martin e Mathilde. Viciado em álcool e fumo, não conseguia parar em um lugar só e com o tempo ele se separa de Claudia. Através de subornos e mentiras, Gabriel consegue a guarda de dois de seus três filhos, Simon e Mathilde enquanto que o pequeno Martin permanece com sua esposa, destruída por causa de todo o processo judicial. Não bastando separar os filhos de sua mãe, Gabriel os leva para a fazenda Malaterre em plena floresta equatorial africana, criando um abismo entre eles. Lá os filhos irão viver uma outra realidade, onde terão um pai ausente, ocupado com os seus negócios, enquanto precisam crescer neste lugar estranho. O resultado de tudo isso iremos acompanhar nas páginas dessa HQ, uma existência instável marcada por dúvidas, descobertas e ausências que farão parte da vida de todos os envolvidos nessa história de vida.


Este é um trabalho bem pessoal para Gomont e vemos sua arte passear pelas páginas do quadrinho. Não sei se essa foi uma impressão minha com base na história, mas a arte parece até meio raivosa de vez em quando. A gente sente o peso da construção das páginas, a imponência da floresta, a fúria de um pai envolvido em outros assuntos. Gomont usa uma arte bastante carregada nas hachuras, o que faz de sua palheta escura ainda mais escura. O verde é empregado à exaustão nas páginas e vez ou outra temos cores mais claras seja quando eles seguem para a praia ou quando se encontram na cidade. Não é necessariamente uma arte que me agrada, mas gosto de como ele monta a composição das páginas. Mais para o final do quadrinho, vemos várias páginas sem falas, só destacando momentos específicos da história. O que é possível concluir é que os momentos finais desse quadrinho são aqueles nos quais o autor tem problemas sentimentais maiores. É quando a ficha cai depois de vários anos e ele percebe o que perdeu. Isso é refletido nas páginas mais escuras ou nas situações mais íntimas.


Gomont usa alguns efeitos artísticos que são bem legais. Por exemplo, alguns quadros usam e abusam da sequencialidade. Seja com quadros que se repetem e mostram diálogos importantes ou cenas que são ou impactantes ou vexatórias. Dou dois exemplos. Um deles mostra Simon dirigindo o carro do pai sem permissão e ali vemos um efeito De Luca onde o carro aparece sequencialmente no mesmo quadro. A ideia ali era mostrar o quanto o personagem não sabia dirigir o carro e vacilava na direção. O outro momento é quando Gabriel e seus dois filhos estão em um bar e Gabriel está falando uma série de impropérios contra os negros que trabalham no lugar. Vemos quadros repetidos de cima a baixo na página mostrando a cena se desenrolando sequencialmente. Apenas a posição dos personagens muda, denotando que há uma simultaneidade temporal entre o que está sendo narrado e o que está sendo desenhado. Vale destacar também a maneira como Gomont mostra o que os personagens estão pensando. Ele destaca um balão de pensamento com alguma figura, demonstrando simbolicamente o que o personagem estaria imaginando ali. Tem um ótimo momento mais para o final da HQ onde Simon está indignado com o pai e gostaria de falar algumas verdades cruas em sua frente. Vemos vários quadros sequenciais com Simon de frente para o pai e a arte destaca em outra cor a silhueta do personagem com o que ele realmente queria dizer naquele momento. Só que Simon permanece calado, apenas olhando para o pai enquanto o que ele estava pensando se desenrola em sua imaginação.


Gabriel é um personagem extremamente desagradável e isso é deixado bem claro desde o começo. O que achei honesto da parte do autor, foi que ele apresentou o personagem não como alguém maquiavélico ou nada do gênero, mas como humano. No fundo ele se importava com os filhos e os amava ao seu jeito esquisito. Alguns acontecimentos que se sucedem na trama mostram isso, como quando Simon se envolveu em uma situação ruim na escola ou Martin que não queria voltar para a casa depois de uma visita aos irmãos. São coisas que tocaram fundo no coração de Gabriel e ele tentou mudar sua abordagem com os seus filhos. É que o personagem tinha a sua herança como algo mais prioritário do que sua relação familiar. Não à toa nenhum dos filhos consegue odiar o pai de todo. Quando Gabriel adoece, a família vai estar por perto. É compreensível que o leitor não compreenda até certo ponto como é possível gostar de uma pessoa tão ruim como Gabriel. Mas, pensemos em dois pontos. Primeiro, Gabriel oferece conforto e segurança aos filhos, e tenta, do seu jeito, agradá-los com passeios e presentes. Essa é uma maneira comum em pessoas manipuladoras como ele de manter o afeto de seus filhos. Segundo é que essa é uma história contada por um dos filhos, que é o próprio Gomont. Ou seja, é uma narrativa em primeira pessoa com um narrador não confiável já que ele estava envolvido com a história. Vemos a raiva e a frustração do menino diante de tudo o que aconteceu. E isso passa para as páginas.


Quando disse que passo por uma situação semelhante, me refiro ao apartamento que me foi deixado por minha avó. É um imóvel disputado com sangue e lágrimas desde que me entendo por gente. E a minha avó tinha várias das características de Gabriel: carismática, manipuladora e cruel até certo ponto. Sua prioridade estava em manter o apartamento para si e repassar aos seus herdeiros. A qualquer custo. Qualquer pessoa que tentasse tomá-lo ou negociá-lo era um inimigo em potencial. Para ela, era um absurdo não desejar possuir um imóvel como aquele. É um comportamento obsessivo que, para quem é desapegado e só quer ser feliz, chega a ser agressivo. E não importa os meios como o objeto ou terreno foi adquirido e mantido. Importa que ele é parte de alguma espécie estranha de status ao qual todos que estão próximos se tornam vítimas. Por isso que disse no parágrafo anterior que Gabriel não era uma pessoa ruim necessariamente. Ele apenas não tinha os filhos como prioridade. Seu legado é que era.

A maneira como os filhos acabam ficando abandonados e sem terem uma figura paterna é triste. O leitor percebe que todo aquele movimento de agradar os filhos e ser o "pai ideal" era apenas uma jogada para conseguir a guarda e levar seus filhos para a fazenda Malaterre. A primeira coisa que Gabriel faz ao chegar ao local é deixar o cuidado dos meninos com terceiros. Como Gabriel já havia conseguido conquistar os dois, eles não viam o retorno para casa como algo viável. Fora que Mathilde ficou apaixonada pela liberdade oferecida pela floresta equatorial em comparação ao estilo bucólico do lugar em que eles viviam em Paris. O novo lugar oferecia novas possibilidades, descobertas e aventuras. Claro que eles entenderam rapidamente que a liberdade que eles tinham vinha a um custo complicado que era o de não terem nenhum tipo de referência no qual viver. Precisaram aprender desde cedo a se virarem sozinhos e como eles eram um menino e uma menina em crescimento, direcionaram sua revolta adolescente ao contexto deles. Eles precisaram se tornar adultos rápido demais, o que prejudicou suas relações com outras pessoas. Erros e acertos precisaram ser descobertos na marra, sem uma bússola ética por perto.


Malaterre é uma leitura bem incômoda de uma relação familiar tóxica. Gostei de como o autor usou o espaço para tirar alguns demônios de si e contar a sua verdade, a sua história. Provavelmente é uma história que vai se parecer com outras. No final da leitura, o leitor não vai se sentir melhor ou pior, mas terá vivido aquela experiência junto dessa família. E acho que isso é mais do que suficiente. A arte é interessante, principalmente por causa dos recursos visuais que ele emprega para complementar suas ideias, mas não é algo que encheu meus olhos. A narrativa é mais interessante aqui. Considero uma leitura válida para todos, mas embarquem nela no momento certo porque pode ser bem pesada dependendo de nosso estado emocional.




Ficha Técnica:


Nome: Malaterre

Autor: PIerre-Henry Gomont

Editora: Nemo

Gênero: Biografia

Tradutora: Renata Silveira

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2023


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