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Resenha: "Lendas do Universo DC - Mulher Maravilha vol. 1" de George Perez e outros

Este é o início da coletânea que apresenta a famosa fase do George Perez à frente da Mulher-Maravilha. Somos apresentados à Diana Prince e as amazonas de Themyscira que foram criadas pelas deusas do Olimpo. Neste primeiro volume, Diana precisará de toda a sua coragem para deter as ambições de Ares, o deus da guerra.


Sinopse:


Em 1987, a Crise das Infinitas Terras havia revolucionado o Universo DC. Sem saber muito bem como apresentar sua maior heroína a uma nova geração de leitores, a Editora da Lendas passou a relutantemente considerar a ideia do roteirista Greg Potter de aproximar a personagem de elementos da mitologia grega. No entanto, somente quando o respeitado e megapopular George Pérez adotou o projeto foi que a editora acabou dando seu aval para o que veio a se provar, logo nas primeiras edições, um clássico instantâneo dos comics! Lendas do Universo DC: Mulher-Maravilha coloca de volta ao alcance do leitor brasileiro a fase mais significativa de toda a carreira da Princesa Amazona! (Wonder Woman 1-7)







Em 1987, a DC começa um processo de modernização de seus personagens, tentando solidificar seus mitos e origens e atrais novos leitores. Crise nas Infinitas Terras serviu como uma maneira de criar uma tábula rasa onde os roteiristas e desenhistas poderiam começar tudo do zero. É mais ou menos a época em que comecei a ler gibis pela extinta editora Abril (lembrando que o material de super-heróis chegava com alguns anos de defasagem) e peguei algumas fases icônicas como o Superman do exílio e os Novos Titãs do Contrato de Judas. Foi nesse último que conheci o lendário George Perez e seu traço me fascinava porque tudo era cósmico e grandioso em sua pena. Os perigos pareciam ser de uma escala incompreensível para nós. Hoje começo a trazer para vocês a fase dele com a Mulher-Maravilha (porque sei que se pegar Novos Titãs agora vai ser uma resenha só de elogios e puxa-saquismo).


Esse primeiro volume nos traz a origem e o primeiro arco de histórias onde somos apresentados a todos os personagens que cercam Diana Prince além de seus poderes e habilidades. Criadas pelas deusas que queriam criar uma raça formada por mulheres guerreiras que pudessem desafiar os preconceitos estabelecidos, Artemis, Atena, Deméter, Afrodite e Hermes usam o útero de Gaia para enviar almas que estavam perdidas e restaurá-las no corpo de mulheres capazes de levar adiante os ideais dos deuses. Claro que isso desperta a ira de Ares que deseja ser o mais poderoso entre os deuses e começa a fazer planos para levar todo o Olimpo à inexistência. Depois de uma longa história de lutas e disputas, Hipólita se estabelece como a rainha de Themyscira e recebe a possibilidade de criar sua filha, Diana, usando o barro dos deuses com a graça deles. Nasce Diana, a princesa de Themyscira que terá um futuro brilhante ao mesmo tempo em que será terrível pois ela será a ponte que ligara o mundo dos deuses ao mundo dos homens. Mas, será ela forte o suficiente para conter a influência nefasta de Ares?


Quem tiver contato com Crise nas Infinitas Terras verá uma Mulher-Maravilha muito diferente da que conhecemos. Uma história bastante confusa que você não entende o que a faz ser quem é. Quando George Perez assume o título ele coloca a personagem mais próxima dos deuses do Olimpo, o que faz com que ela tenha um mito de origem mais palpável e compreensível. Quando o editorial da revista diz releitura e renovação, não está brincando. O que aparece aqui é uma personagem completamente nova, com seus poderes delineados adequadamente (antes ela tinha vários que não faziam sentido, inclusive telecinésia) e inimigos cujos objetivos se associavam aos problemas de sua época. Quando chegarmos ao final deste arco na sétima edição já conhecemos a personagem como um todo, suas motivações e desafios bem delimitados, possíveis próximos inimigos e aliados e a inexperiência da personagem em viver no mundo dos homens. Tudo isso permite aos roteiristas enormes possibilidades para ela.


Falar da arte do falecido George Perez é covardia. Ele desenha muito. Hoje estamos acostumados demais a uma arte mais digital e que proporciona aos artistas certos atalhos que eles não tinham antes. Estamos diante de um artista clássico, versado na pena, na tinta, na composição de quadros. Tudo feito manualmente, com storyboards, gastando horas de desenho e precisando produzir em uma escala quase industrial porque precisava atender a um mercado faminto por novidades. Perez se destaca em um momento em que apenas monstros ocupavam as grandes... pessoas como Walt Simonson, John Buscema, Barry Windsor-Smith, Jim Starlin. Não apenas isso como Perez era responsável pela arte E pelo roteiro em algumas edições (argumentista em outras). Ou seja, ele fazia um trabalho voltado para duas pessoas. Os detalhes nos quadros são absurdos como no Olimpo onde ele usa as linhas arredondadas e as colunas dóricas com clara inspiração nas artes clássicas, ou em como ele consegue detalhar um caça americano ou em como ele alterna o olhar do leitor para nos fazer acreditar que no mundo de Ares nossa concepção sobre eixos pode ser fragmentada. Tudo é muito detalhado. E ele usa tipos corporais diferentes como quando ele precisa desenhar Etta Candy, auxiliar do coronel Trevor que é um pouco mais gordinha do que as esbeltas amazonas. Ou seja, ele não fica preso a copiar modelos corporais, podendo demonstrar flexibilidade. Quando ele precisa entregar uma pessoa comum, ele o faz, mas quando ele precisa oferecer algo mais bizarro e monstruoso, isso fica claro em suas linhas.


Outro ponto que vale destacar na arte de Perez é em sua capacidade de utilização dos quadros. Estamos falando de alguém que trabalha em uma das duas grandes, e ele não tem medo de usar uma quadrinização menos convencional para detalhar sua história. Ele consegue usar uma estrutura de 6 a 9 quadros, mas é tão mais legal quando ele enlouquece e cria grandes estruturas com quadros interpolados. Ou até supermolduras com a ação se passando no interior dela e os quadros servindo como janelas literais para que possamos dirigir nosso olhar. Para mim, me agradam os momentos mais lisérgicos dos seus desenhos lá pelas edições 6 ou 7 quando o leitor já não sabe mais aonde é o eixo X ou Y. Ele usa uma estrutura clássica nas cenas de ação e senti que faltou um pouco de dinamismo nestas cenas até porque conheço o trabalho do Perez de Crise e dos Novos Titãs e sei que ele consegue entregar mais. Não sei se era porque se tratava de um arco de origem e ele se conteve mais. A cena de ação que mais me agradou aconteceu durante o confronto com Deimos em um tipo de outra dimensão onde ele e o irmão habitavam.


Precisamos lembrar também da colorista, Tatjana Wood. É ela quem faz as cenas explodirem em cores por toda a parte. Lembrando que as cores da personagem giram no amarelo, azul e vermelho e a colorista faz um bom uso dessas cores e das adjacentes. Em nenhum momento as cenas pareceram confusas e isso se deve bastante à habilidade da colorista. Em vários momentos consegui associar esse primeiro arco de histórias, no quesito colorização, ao primeiro arco de Superman com o do Último Filho de Krypton. São esquemas de cores muito parecidos principalmente ao representar o mundo real. No caso de Diana, a cidade de Boston; no caso do Clark, Smallville e depois Metropolis. Tatjana entende muito bem aonde o Perez deseja chegar e funciona como um complemento ao nanquim do artista. Ao mesmo tempo, ela dá a personalidade dela às cores.

A primeira edição deste arco é radicalmente diferente em tema das outras. Perez começa a abordar um tema que ele acaba não retomando mais depois aqui neste primeiro volume. Não sei se houve algum tipo de mandato editorial porque estava claro o direcionamento da história que depois pegou outro rumo. Vemos as deusas do Olimpo sendo motivo de piada e até de certa irritação por desejarem criar uma raça de guerreiras para combater Ares. Zeus faz troça alegando que mulheres jamais conseguiriam fazer frente a ameaças muito poderosas. Não é só Zeus, mas vários outros como Apolo que escolhe apenas ignorá-las. Perez tem um discurso bastante feminista pregando a igualdade de gênero e demonstrando a capacidade criativa e inovadora das mulheres. A ideia de usar Ares como antagonista talvez tenha a ver com a própria inclinação do homem de seguir o caminho da guerra. Ares seria então o representante máximo desse ideal bélico e conservador masculino. Ao mesmo tempo Zeus também é representado como um ser reprovável. Em um dado momento, Hera se ressente da criação das amazonas imaginando que seu marido logo iria traí-la com uma delas. Mas, posteriormente nessa primeira edição, Hera se aproxima das outras delas e confessa seus temores. A partir do segundo volume, esse tema acaba não voltando mais sendo substituído por uma trama ligada à guerra e armamentos nucleares.


É aí que precisamos nos focar no quando essa história foi conceitualizada. Era 1987 e estávamos ainda durante a Guerra Fria, com a União Soviética fazendo o outro pólo de um conflito sem guerras explícitas entre eles e os EUA, mas se utilizando de outras localidades para estabelecer sua hegemonia. Havia um forte temor do uso de armas nucleares que poderiam destruir o planeta várias vezes. Claro que em 87 ninguém mais enxergava a URSS como uma ameaça iminente, mas o medo ainda existia. E sempre existe o bélico em qualquer administração. Vamos pensar que ainda estamos sobre a égide dos republicanos no poder com Reagan e depois o Bush Sr em seguida. Perez usar essa narrativa é muito fruto de seu tempo e ele mostrar a banalidade da guerra. O que resta depois que você destruir o mundo quatro vezes? Absolutamente nada. Governar um deserto calcinado não é dominar de verdade. Diana está em um momento em que ela tenta entender o papel do homem no universo e Ares possui esse discurso de destruição extrema. O foco maior está na desconstrução do discurso da guerra e a protagonista ainda não tem o discurso mais solidificado de igualdade e liberdade que conhecemos. Ela tateia ainda por ter sido criada junto a sua mãe Hipólita e as demais amazonas e não conhecer tanto assim do mundo. Aos poucos ela vai percebendo o valor daqueles que a ajudam mesmo que ela não consiga se fazer entender por boa parte da história.


Esse é um ótimo começo para um belo épico, inspirado em uma corrente de histórias tipicamente clássicas. A protagonista é uma personagem ainda em construção que precisa se provar ao leitor para ganhar o seu espaço no panteão de heróis. A maneira como Perez consegue recriá-la é fascinante, além de posicioná-la em um mundo mais moderno. Sua releitura ajuda a tornar algumas de suas alterações como permanentes contribuindo para tornar tudo homogêneo. Sua história deixa pistas de para onde ele deseja seguir e veremos aonde isso vai nos levar. A arte é um desfrute para os olhos, algo que hoje é algo em extinção diante de tantos recursos digitais. Apenas apreciem esse clássico sem moderação.













Ficha Técnica:


Nome: Lendas do Universo DC - Mulher-Maravilha vol. 1

Roteirista: George Perez, Len Wein e Greg Potter

Artista: George Perez

Arte-Final: Bruce Patterson

Colorista: Tatjana Wood

Editora: Panini Comics

Tradutor: Mario Luiz C. Barroso

Número de Páginas: 180

Ano de Publicação: 2015


Outros Volumes:

Vol. 2

Vol. 3

Vol. 4


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