• Paulo Vinicius

Resenha: "Labirinto" de A.C.H. Smith

Na novelização do clássico de fantasia que contou com a atuação de David Bowie, acompanhamos Sarah, uma adolescente que não gosta de sua madrasta e tem a tarefa de cuidar de seu irmãozinho (que ela não gosta) enquanto seus pais vão jantar. E seu desejo de se livrar de seu irmão pode se tornar realidade... pelo rei dos duendes.


Sinopse:


A DarkSide Books desenterra mais um clássico e traz o livro com a versão romanceada do cult movie de 1986, LABIRINTO. Dizer que Labirinto é o trabalho de um gênio não seria o suficiente para definir essa inesquecível história. O mais correto seria usar o adjetivo no plural: Labirinto, o filme, contou com um verdadeiro time de gênios. E se você pensa que estamos exagerando, que tal conferir sua ficha técnica?DANCE, BABY, DANCE:A história foi idealizada e dirigida por Jim Henson, o criador dos Muppets, Vila Sésamo e Família Dinossauro. Quem assinou o roteiro foi Terry Jones, um dos fundadores do revolucionário grupo de humor inglês Monty Python. George Lucas – ele mesmo! – coproduziu o longa-metragem. E no elenco, dois nomes de peso. A começar pela encantadora Jennifer Connelly, de Hulk, Rocketeer e Uma Mente Brilhante. Jennifer ainda era uma adolescente em Labirinto, mas já começava a brilhar após ter sido recém descoberta pelo mestre Sergio Leone, que a dirigiu na obra-prima Era Uma Vez Na América. Claro que o grande astro do filme foi o imortal David Bowie, em um dos seus papéis mais marcantes no cinema: o de Rei dos Duendes.A história é aquela a que você deve ter assistido um milhão de vezes na Sessão da Tarde, a menos que tenha passado sua infância em Marte ou na Sibéria. E ainda assim, LABIRINTO, o livro, é capaz de lhe surpreender como se fosse a primeira vez.A jovem Sarah não aguenta mais servir de babá para seu meio irmão, o pequeno Toby, e como brincadeira deseja que o bebê chorão desapareça. O que deveria ser apenas uma provocação acaba se tornando real como um pesadelo. O Rei dos Duendes atende prontamente ao seu pedido, e leva o menino para um universo paralelo configurado como um gigantesco labirinto.Agora, Sarah precisa correr contra o tempo se quiser mesmo salvar seu irmão. Ela só tem até a meia-noite para impedir que Toby se transforme de vez em um duende. E, na verdade, Jareth tem outros planos para Sarah: ele está a procura de uma rainha para ficar ao seu lado e ser amada por todos na Cidade dos Duendes. A edição da DarkSide é com aquele padrão de qualidade quase psicopata, do jeito que os fãs já estão acostumados desde o lançamento de Os Goonies, em 2012, o primeiro título da editora. LABIRINTO vem em capa dura, com o design inspirado no livro que a personagem de Jennifer Connelly lê no filme. Atravesse novamente o Labirinto e se emocione com a narrativa fantástica de Jim Henson, transcrita para o papel nas mãos habilidosas do poeta e dramaturgo britânico, A.C.H. Smith. A edição apresenta ainda, pela primeira vez, as ilustrações dos duendes feitas por Brian Froud, que trabalhou no filme, além de trechos inéditos e nunca vistos com 50 páginas do diário de Henson, detalhando a concepção inicial de suas ideias para LABIRINTO, comemorando os 30 anos do filme em grande estilo.






Uma coisa que os fãs de literatura estão mais do que acostumados é com as adaptações de livros para o cinema. E ainda mais nos tempos atuais em que essa prática se tornou tão comum. Ver o processo inverso é divertido porque nos tira do lugar comum e até de um certo "pedestal" que nos colocamos. Labirinto é uma novelização do filme clássico dirigido por Jim Henson e que teve David Bowie interpretando um dos personagens mais icônicos de sua carreira, Jareth, o rei dos duendes. O livro procura trazer para os fãs um pouco da aura do filme ao mesmo tempo em que traz uma série de cenas que acabaram sendo cortadas na edição final. Por isso, ler esse livro é uma experiência bastante diferente do que sentimos com outras adaptações e vai provocar no leitor sensações e memórias. Só uma coisa: você pode ler o livro antes de assistir o filme. Mas, acredito que o livro seja muito mais eficiente como um complemento ao cinema.


A história acompanha Sarah, uma adolescente em uma fase mais rebelde de sua vida. Ela adora teatro e representar papéis. Mora com os pais embora sua mãe tenha se separado e seu pai agora é casado com uma segunda esposa que acabou de ter um filho com ele. Sarah se ressente desse novo casamento e nunca gostou muito de Toby, seu irmão mais novo. Sua relação com sua madrasta é péssima e ela quase a compara a uma bruxa de contos de fadas. Em uma determinada noite, seus pais querem sair para ir jantar fora e Sarah é incumbida pela mãe de tomar conta de seu irmãozinho até eles voltarem. Não preciso dizer que a garota detestou a ideia e ela acaba descobrindo que um de seus bichinhos de pelúcia mais queridos havia ido parar nas mãos dele que o deixou jogado no chão. Isso é o suficiente para que toda a mágoa acumulada por ela venha à tona e ela deseje que seu irmão desapareça de sua vida. Para fazer seu irmão dormir, ela lê para ele uma história chamada Labirinto em que um rei dos duendes rapta uma criança e a leva até seu castelo e o herói da história precisa atravessar uma série de desafios para resgatar a criança. Bem, os desejos de Sarah acabam se tornando realidade com o surgimento de uma misteriosa figura chamada Jareth, o rei dos duendes. Ele leva Toby e transporta Sarah a um mundo fantástico e distorcido onde a percepção das coisas nem sempre é o que parece. Sarah tem treze horas para resgatar seu irmão ou ele se tornará um duende...


O filme é um clássico da década de 1980 e é um dos meus filmes queridos. Já devo ter perdido a conta de quantas vezes eu o assisti e é também um dos motivos pelo qual curto tanto o David Bowie. O livro em si me preocupa um pouco pelo excesso de descrições. Como ele é uma novelização, o autor precisa ser fiel ao roteiro original. Não só isso como as cenas precisam ser descritas da maneira como foram exibidas. Quando li a novelização, senti a escrita mais pesada e carregada e pensava o porquê disso. Parando para pensar no pós-leitura, minha resposta é justamente o fato de o que faz o livro existir. Como a descrição é obrigatória no livro, não há espaço para o leitor imaginar as cenas. A gente fica preso à estrutura do filme. Mais para o final do livro, os diálogos se tornam melhores e a interação de Sarah com os demais personagens amenizam essa característica. Mas, uns dois terços do livro são bem complicados. A narrativa é em terceira pessoa, com pontos de vista na maior parte do tempo em Sarah, mas ora em Jareth. Bem semelhantes a alguns momentos bem específicos do filme quando Jareth interage com Hoggle ou ele aparece em seu castelo junto dos outros duendes.



Labirinto possui um enredo repleto de metáforas e simbolismos. Então, embora a estrutura básica dele parece ingênua e inocente, existe toda uma segunda leitura entre suas linhas. Essa é uma narrativa de amadurecimento da personagem Sarah enquanto ela busca se assentar com seus sentimentos em relação à sua madrasta e seu irmãozinho. No começo da história, ela é uma personagem bastante egoísta e sua jornada para salvar Toby não passa de uma desculpa para que ela não tome uma bronca de seus pais. Mas, à medida em que a narrativa avança e as apostas ficam mais elevadas, ela entende a necessidade de resgatar o bebê. Ao se relacionar com as criaturas do mundo distorcido, ela vai suavizando o seu jeito de ser. O contato com personalidades tão diversas e necessárias para sua jornada a faz rever algumas de suas atitudes. Talvez isso fique mais cristalizado em como ela se relaciona ao anão Hoggle. No começo ele só queria se livrar dela e evitar ser punido por Jareth, mas pouco a pouco ela vai dando coragem e bravura a ele.


Uma coisa que chama a atenção em Labirinto é o completo caos que são os desafios enfrentados por Sarah. Em nenhum momento, a personagem consegue encontrar uma lógica para superar os obstáculos criados por Jareth. O tempo todo os personagens dizem a ela que ela faz suposições demais. E isso me faz pensar em como a trama é sobre o amadurecimento, mas ao mesmo tempo é também sobre a manutenção de um espírito infantil apesar de tudo. O gênero fantástico tem em sua essência o objetivo de nos fazer escapar, imaginar outros mundos através da criatividade. Essa característica é a base de nossa mentalidade como crianças. A de criar outros mundos e a de que as coisas nem sempre possuem uma lógica interna. Nossas brincadeiras de criança não segue parâmetros e padrões muito sérios, sendo apenas algo para nos divertir. O próprio Jareth procura se divertir com Sarah o tempo todo. Uma das cenas mais para o final da narrativa com múltiplas escadas que se sobrepõem ou estão de cabeça para baixo nos remetem às escolhas que nos são apresentadas pela vida. Dependendo de que caminho escolhermos podemos ter nossas perspectivas e pontos de vista colocados de cabeça para baixo de acordo com nossas experiências.


Os demais personagens são exatamente como vimos no filme. O resmungão Hoggle, sempre covarde no começo da história, mas que lentamente vai se apegando à Sarah. Ele tem medo de ser condenado ao pântano do fedor onde uma simples gota vai te fazer ficar fedendo pelo resto da vida. Ou o brutamontes Ludo, que com todo o seu tamanho e aparência assustadora, não passa de um monstro doce e gentil. Ele possui um enorme coração que vai se afeiçoar ao carinho que Sarah lhe dá. E ela enxerga nele muito mais do que um simples monstro. Ou o bravo e corajoso Sir Didimo e seu valente corcel. Dentro de todas as suas bravatas, existe uma pessoa sempre disposta a ajudar. Mesmo que muitas vezes ele só se atrapalhe com tudo. São os personagens clássicos do filme que ganham espaço através da pena do autor. O livro faz totalmente jus a eles e até apresenta algumas facetas extras de cenas que não chegaram a ser filmadas.


A edição da DarkSide conta ainda com alguns extras bem legais. São desenhos conceituais de Brian Froud que pensou as criaturas que foram usadas no filme. Essas artes nunca haviam sido apresentadas ao grande público tendo permanecido nos arquivos da The Jim Henson Company. Com a morte de Jim Henson e a motivação de dar mais luz à carreira do autor, estes desenhos vieram a público e fazem parte do final do livro. Existe também uma série de rascunhos do roteiro do filme, o que nos permite ver como Jim Henson pensava as cenas. É bastante instrutivo principalmente em uma época em que os efeitos especiais eram bem básicos e Henson trabalhava muito com manequins. A história em si é encantadora e fez parte da infância de muitos de nós. Ter tido contado com ela resgatou memórias de uma época mais simples.









Ficha Técnica:


Nome: Labirinto

Autor: A.C.H. Smith

Editora: DarkSide Books

Tradutora: Giovanna Louise

Número de Páginas: 272

Ano de Publicação: 2016


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