• Paulo Vinicius

Resenha: "Johnny Mnemonic" de William Gibson

Atualizado: 7 de Mar de 2019

O que representa a memória em uma sociedade futurista? Imagine que esta memória possa ser usada como um tipo de economia ou mercadoria que pode ser comprada, vendida ou leiloada. Esse é o cerne da questão neste que é o terceiro conto publicado por Gibson em sua longa carreira.



Admito que não sou dos maiores fãs do autor. Leio seus livros e respeito sua importância para o mundo da ficção científica, mas eu separo o joio do trigo. Sua escrita sofre de uma série de problemas que acabam por tornar a experiência final de leitura muito truncada. Vou discutir em outro artigo algumas afirmações feitas por ele em uma entrevista incorporada à edição de 30 anos do livro feita pele Editora Aleph. Ali a gente consegue entender um pouco mais da mente de Gibson e o que a faz funcionar.


Sou direto ao afirmar que Johnny Mnemonic me incomodou muito menos do que Neuromancer. Talvez contida no formato de um conto, a escrita de Gibson seja mais suave e coerente. Mesmo suas descrições, das quais reclamo do excesso de referências pop culture, neste conto não me incomodou. Em Reconhecimento de Padrões Gibson já havia mostrado um pouco de amadurecimento neste sentido. Claro, para ele esse tipo de referência é uma forma de mostrar um cenário underground, de mostrar atos de rebeldia quanto à ordem vigente. Tudo isso faz parte da ideologia cyberpunk, da qual ele considera ser mais hype do que uma vontade consciente dele de criar uma “ideologia”.

Na história, Johnny é um traficante. Mas não um traficante qualquer: um traficante de memórias. Em seu cérebro está instalado um dispositivo que permite ao comprador inserir uma série de memórias que podem ser acessadas apenas se for dita uma palavra de comando. Desse jeito, Johnny levaria essas memórias até o destinatário que seria o responsável por acessar ou retirar essas memórias de Johnny.

Só que após muitos anos de trabalho, Johnny se olha no espelho e já não sabe mais quem é. São tantas memórias inseridas no soquete que é como se ele fosse várias pessoas. Um dia Johnny se vê envolvido em uma situação perigosa: seu empregador roubou informações da Hosaka, uma das grandes corporações do mundo de Gibson. Quando Johnny tenta sair, seu empregador o ameaça avisando que daria cabo de sua vida. É aí que aparece uma das mais famosas personagens da prosa de Gibson, Molly Millions. Sim, Johnny Mnemonic é o conto onde a personagem aparece pela primeira vez.


O protagonista é um oportunista. Não é um mocinho ou um bandido, mas um homem que sobrevive no Sprawl. Neste conto conhecemos um pouco mais dos subterrâneos do Sprawl onde os Lo Teks governam, seres que possuem próteses bizarras, como Dog que possui dentes de cachorro. Gibson queria mostrar o terror do mundo onde as pessoas sem posse viviam. Como estas pessoas “invisíveis” ao resto do mundo são capazes de sobreviver mesmo em espaços apertados. Não entendi muito bem o motivo dos Lo Teks atacarem Johnny, mas provavelmente é alguma coisa que deixei passar durante minha leitura. Gibson sai de um ambiente de prostituição, bebida e drogas e entra em um mundo de ruínas e decadência. Aqui conseguimos ver um pouco da mentalidade do autor: experimente ler Johnny Mnemonic ouvindo Sex Pistols para você ver a semelhança entre música e história. A banda de rock define muito bem esse mundo arruinado de Gibson. Na introdução à edição de 30 anos, Gibson comentou sobre sua inspiração para escrever suas histórias. Segundo ele, em Neuromancer, ele imagina como a tecnologia pode interferir na vida do homem, para o bem ou para o mal. Aliás, neste mundo, que às vezes eu vejo quase como um punk style, Gibson não dicotomiza fazendo um manifesto a favor ou contra a tecnologia. Sua descrição do ciberespaço em Neuromancer, por exemplo, é carregado de uma noção de deslumbramento. Aqui não; o mundo é feito, torto e distorcido. Poucas vezes eu vi uma história do Gibson tão suja e malvada. E Molly representa toda essa rebeldia do autor. Ela aparece na história para tentar ganhar uma grana. Motivo? Sei lá... não precisa. Neste mundo, todos querem se dar bem. Molly não ajuda Johnny pelos seus belos olhos, mas pela possibilidade de ganhar dinheiro através de chantagem. Usar as memórias de Johnny para ganhar muito dinheiro.

Uma coisa que preciso dizer sobre os contos de Gibson é que ele conhece muito bem o terreno onde pisa. Seu worldbuilding (construção de mundo) é coerente; localidades e personagens compartilham de um universo. O autor já afirmou que nunca passou pela sua cabeça criar uma série de histórias como um autor de fantasia. Mas, todas as sementes estão ali presentes. Basta ele assim desejar. Para mim, Gibson continua sendo um autor que eu tenho uma opinião muito dividida. Apesar disso, Johnny Mnemonic é uma boa historia. Só um adendo: este conto se tornou um filme de mesmo nome cujo protagonista é interpretado por Keanu Reeves. Se o filme é bom? Não vi... deixem suas opiniões nos comentários.



Avaliação:



Ficha Técnica:


Nome: Johnny Mnemonic

Autor: William Gibson

Conto presente na edição especial de 30 anos de Neuromancer

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Fábio Fernandes

Ano de Publicação: 2014


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