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Resenha: "Jogos de Guerra" de J.M. Beraldo

Em uma Terra que descobriu não estar sozinha no universo, os interesses de vários países parecem comprometer uma aliança global. Mas, e se a humanidade perceber que na verdade não passa de peões em um jogo de guerra intergaláctica?

Sinopse:


Ano 2143 - Kinshasa, antiga República Democrática do Congo.

Guerrilheiros armados com tecnologia alienígena ultra avançada usam uma revolta popular para atacar a cidade corporativa de Kinshasa, acendendo um barril de pólvora que pode imergir a África em um conflito sem precedentes.

Sabendo dos riscos para seus aliados, o governo do Brasil e a Aliança do Sul decidem enviar uma força expedicionária multinacional para conter o problema. É formado um esquadrão de pilotos latinos e africanos sob o comando do Major Ferreira, herói da Batalha da Amazônia, sobrevivente, pai.

Ferreira precisará lidar com os conflitos entre seus novos pilotos e seu próprio trauma de guerra enquanto tenta desvendar quem está armando aos guerrilheiros antes que a União Europeia resolva intervir com força extrema.

Jogos de Guerra é uma space opera militar cheia de aventura, bom humor e ação, parte do universo multimídia Véu da Verdade, que já conta com livros, contos, RPGs e video games.

O livro é uma história independente que pode ser lida sem conhecimento prévio das outras obras.




Que o João Beraldo é um daqueles autores que sempre que publicam algo, inovam, não é novidade. Sua série de fantasia com os títulos O Império de Diamante e Último Refúgio é um sucesso total. Mas, poucos sabem que além de escritor, ele trabalha com desenvolvimento de jogos de computador. Taikodom é um jogo com naves espaciais e um impressionante background (eu cheguei a vender várias unidades dele na época em que eu trabalhava com jogos de PC). Jogos de Guerra faz parte de uma série de ficção científica (Véu da Verdade), mas é uma história totalmente independente. Possui um clima de intriga política ao mesmo tempo em que nos apresenta uma narrativa muito semelhante a de Tropas Estelares. 

Peões em um jogo perigoso

Somos colocados diante de um pelotão composto pelo major Pereira (o PH), o capitão Anderson, a caliente Catalina, o grandalhão Oleks, o talentoso Martín, e os dois alienígenas: o naboriano Rekhysa e o celoniano Go-i Ty. Fica claro no começo que o autor vai se focar na dinâmica dessa equipe. Alguns já se conhecem de aventuras passadas, mas a entrada dos dois alienígenas é o que vai apimentar essa relação. De um lado temos o honrado Rekhysa, com sua visão de guerreiro e seu tabu de tentar se manter natural (sem implantes cibernéticos ou nanorobôs). Do outro temos o celoniano Go-i Ty que enxerga os seres humanos como formigas. Um dos primeiros temas abordados é o da xenofobia. Anderson é o representante dessa visão, não entendendo a necessidade de ter seres de outros planetas fazendo parte de sua equipe. Essa visão vai se manter por boa parte do livro, mudando mais por conta dos combates que vão acontecer mais tarde. O aspecto mais curioso é o autor ter trabalhado a xenofobia sendo percebida também do lado alienígena. 

O que destaca essa série é perceber o quanto a Terra está em um estágio muito abaixo dos outros planetas. Não temos nenhuma vantagem sobre estes povos e o que nos é repassado de tecnologia são as sobras dos outros planetas ou materiais contrabandeados. É interessante estar do lado dos colonizados e não dos colonizadores. Dá para fazermos uma ótima associação entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Na maior parte das vezes, tecnologias não são compartilhadas de forma a manter estes locais submissos àqueles que detém o real poder. Não se pretende acabar com essa distância tecnológica. E quem está de fora percebe o outro como um bárbaro qualquer que pode servir a alguma coisa em algum momento. 

O background criado pelo autor é muito rico e bem desenvolvido. Não senti em nenhum momento uma ausência de informações necessárias para eu poder curtir a narrativa por completo. Por ser parte de uma série, fiquei receoso de isso poder acontecer. Tal não é o caso. Acho que o leitor sequer vai precisar do apêndice ao final com algumas informações. Podem pegar a narrativa e se embrenhar na história porque a escrita do autor é muito dinâmica e veloz. Tem muito espaço para outras histórias aqui e por envolver um número enorme de players (entre os celonianos, a Aliança dos Mundos ou mesmo as corponações ou países da Terra) é possível ampliar e muito o escopo do que pode ser entregue no futuro. Ao final, ficamos com um gosto amargo na boca, e acaba por abrir todo um leque de possibilidades. 

Uma equipe em busca de união

Está claro na primeira parte da história que o objetivo da narrativa era explorar a relação entre estes personagens e como eles enfrentariam o perigo juntos. As dinâmicas são interessantes e a maneira como o celoniano é trabalhado é ilustrativo de como o planeta não é privilegiado de forma alguma. Se tomarmos como trabalho de personagens, Go-i Ty funciona bem como uma espécie de espaço cinza entre o antagonista e o personagem de apoio. Ele faz a história se mover em muitos momentos. Assim, eu achei que a história poderia ter trabalhado mais a relação da equipe. Mais ou menos depois de um terço da narrativa, o autor se foca mais nas intrigas e nas relações políticas que vão encaminhar a história para a frente. A gente só volta a ver os personagens de forma mais intimista quase no final da narrativa. Eu curti esse aspecto geopolítico (e deu uma riqueza incrível a todo o conjunto), mas o ouro do romance é, sem dúvida, o trabalho com os personagens, fossem eles da equipe ou os coadjuvantes.

Para quem curte scifi com elementos militares, Jogos de Guerra é um prato cheio. As descrições feitas pelo João Beraldo são excelentes e ele é uma pessoa muito detalhista. Asas, movimento de voo, as armas empregadas. Eu me senti lendo Tropas Estelares. Só que com um adendo: como o autor também é designer de jogos, ele consegue fazer as situações parecerem muito fluidas. Os combates são bem conduzidos, com o leitor conseguindo imaginar como as peças se movem no tabuleiro. Os movimentos são realistas e mesmo o que pertence ao campo de ficção científica possui toda uma lógica interna. Algumas pessoas mais velhas vão se lembrar de um jogo da década passada para PCs chamado Homeworld, que recebia inúmeros elogios pelo fato do designer ter pensado a ação quadrimensionalmente. As coisas tinham uma percepção de profundidade e até de tempo. Isso pode ser visto aqui numa boa com as formações adotadas pelos grupos militares ou com como cada nave se comporta em um campo de batalha. A longa sequência final é de o leitor devorar em pouco tempo porque a gente quer saber como as coisas vão acontecer. 

Senti que a escrita perde um pouco de fôlego mais ou menos na metade. Como se trata de um momento em que o autor precisa posicionar suas peças e tomar decisões sobre que rumo seguir, é ali que a velocidade cai e o leitor chega a perder um pouco daquele interesse inicial. Me pareceu que o João inseriu plots demais naquele momento de uma vez só. Ali tínhamos a participação da LeBell, a presença de Camparelli, o envolvimento de Go-i Ty, o aparecimento da Ashton Liefeld, o papel da União Europeia. Em determinado momento eu tive que voltar alguns capítulos para entender o que estava acontecendo e separar os diversos plots. Eles são resolvidos em partes (até porque eu acho que o autor deixou alguns ganchos propositais), mas isso acabou por comprometer o desenvolvimento de personagens secundários. Por exemplo, eu adorei o estilo meio desregrado do Camparelli, mas eu não consegui me apegar demais ao personagem e entender exatamente as suas motivações. Outra personagem importante que eu achei que merecia mais espaço era a Raisa Krinova. A gente sente que ela tem poder, mas acabam que as suas ações parecem estranhas e fora de lugar. Imaginei a personagem como sendo aquela que manipula por trás das cortinas, entendendo o jogo de poder. Mas, isso ficou mais na aparência do que em ações mesmo, porque quando ela acabou servindo para a história, já era tarde e a narrativa se encaminhava para o seu encerramento. 

Jogos de Guerra é um belo exemplo de space opera com scifi militar. Sentia falta de ver algum autor nacional explorar esse cenário. Lembro que a última coisa que eu li nessa vibe foi Azul Cobalto do Gerson Lodi-Ribeiro e já tem um tempo desde então que não sou encantado por uma história deste tipo. Tenho certeza que os leitores vão curtir demais os personagens e a dinâmica estranha inicial entre eles. Pouco a pouco vamos conhecendo-os e entendendo como cada um funciona. A própria Terra é um imenso campo de batalha que ainda vai render muitas histórias no futuro. Jogos de Guerra não deixa nada a desejar a séries como The Expanse.


Ficha Técnica:

Nome: Jogos de Guerra Autor: J.M. Beraldo Editora: Eridanus Books Gênero: Ficção Científica Número de Páginas: 372 Ano de Publicação: 2019

*Material enviado em parceria com o autor





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