• Paulo Vinicius

Resenha: "Imperiais de Gran Abuelo" de M.R. Terci

Vamos acompanhar a tropa dos Imperiais em uma estranha jornada por um legado macabro deixado por Solano Lopéz após a Guerra do Paraguai. Entrecortando os momentos difíceis da guerra e os anos após ela, acompanhamos estes soldados de coração de aço. 

Sinopse:


Em janeiro de 1880, um grupo de soldados imperiais adentrou pelos pântanos que ladeavam a Vila de Nossa Senhora do Belém de Tebraria, antiga sesmaria de Amador Bueno da Veiga, na Província de São Paulo. Conduziam, por ermos e sendas de custosa passagem, um caixão coberto com a bandeira do Império. A missão legada a seus sabres: dar cumprimento à derradeira ordem de seu Comandante-em-Chefe, Marquês Manuel Luís Osório, o Legendário. Estes imperiais, afamados pela eficiência em combate são os mais temíveis e sanguinários soldados do tal Vale da Sombra da Morte. Festejados por seus feitos e solenizados por suas incontáveis vitórias nas Campanhas das Cordilheiras Paraguaias, em breve, os memoráveis soldados a serviço do Império de Dom Pedro II, encontrarão terríveis e inimagináveis inimigos com muito mais do que podem dar conta. Mais do que uma excelente história de horror penejada por um mestre da narrativa, Imperiais de Gran Abuelo é um livro que se arrisca pelo passado mais negro do país, um relato preciso e visceral da Guerra do Paraguai, onde o leitor estabelece um acordo tácito com o livro ao suspender a descrença, aceitar o faz-de-conta e vestir a farda imperial para viver ao menos mais um dia numa crônica de pólvora e sangue.




A Guerra do Paraguai foi um dos acontecimentos mais dramáticos do período imperial. Milhares de pessoas foram a uma guerra sem sentido envolvendo o domínio sobre uma região importante da bacia do Prata. Uma nação foi devastada pelas forças militares de outras três. É nesse cenário de destruição e de consequências nefastas que M.R. Terci cria uma narrativa de terror envolvendo um grupo de soldados dedicados ao imperador e se veem envolvidos em coisas assustadoras. Antes de falar qualquer coisa sobre o livro, meus parabéns ao Terci por ter empregado um acontecimento de nossa história de uma maneira tão eficaz e interessante. Isso é para calar várias pessoas que dizem ser chato escrever uma narrativa usando a história do nosso país. Ponto para o Terci. E uma aula. 

Acho que um dos pontos mais interessantes de Imperiais de Gran Abuelo são os próprios imperiais. Terci é muito efetivo ao trabalho o sprit de corps do grupo, ou seja, a ligação entre os membros dos Imperiais. Estão a tanto tempo juntos que existe uma cola poderosa que os liga e os transforma quase em uma família. A história não é sobre o Papá, apesar de ser ele quem nos narra a história. A história é também sobre o Esperto, o Medroso, o Sorriso, o Aríete e todos os outros que fazem parte dos Imperiais. É como eles vão sobrevivendo aos desafios mais cruéis que vão aparecendo pelo seu caminho, E em como em um mundo insano, eles conseguem manter um módicum de sanidade amparando-se uns nos outros. O leitor cria uma conexão especial com essas pessoas; a gente se importa, ri, sofre, cria coragem. 

Durante a narrativa, vemos nosso protagonista questionando a necessidade da guerra. Lógico que ele odeia Solano Lopéz e faz questão de demonstrar isso em diversos momentos. Os paraguaios se tornaram odiados pelos membros dos Imperiais. Mas, pouco a pouco, Papá vai percebendo que no fim de tudo a guerra só interessou a pessoas que nada tiveram a ver com o sangue e a lama dos combates no sul do país. Para isso vemos o quanto o capitão Câmara esteve envolvido em episódios asquerosos que incomodaram o alto comando dos Imperiais. E o quanto a corrupção esteve envolvida no final da guerra em que pessoas passaram a tirar lucro da desgraça das pessoas. O final do livro (tirando os momentos de ação) é de uma melancolia profunda quando Papá percebe que muito do que ele e seus homens conquistaram foi completamente em vão. 

Como eu referi no parágrafo acima, a narrativa é em primeira pessoa. Talvez os leitores fiquem um pouco incomodados com o lado erudito da fala do personagem, mas não nos esqueçamos que se trata de uma espécie de diário e que essa era a forma como os indivíduos falavam na época. Muito boa essa transcrição da fala do personagem que realmente deu a entender um lado meio vitoriano à narrativa. Ao mesmo tempo o personagem revela uma série de posturas e comportamentos que ao longo da trajetória vão sendo modificada por conta dos acontecimentos que se sucedem. O personagem repete alguns preconceitos típicos da época, como a compreensão de que negros deveriam ser escravos ou sua postura acerca do republicanismo. E a presença de Sorriso nos Imperiais além de outros fatos acabam fazendo com que o personagem reveja o que pensa a respeito. No final, também vemos uma certa melancolia com o que a burocracia imperial havia se tornado. 

Porém, preciso dizer que os flashbacks constantes me incomodaram um pouco. Isso se considerarmos que essa passagem era feita durante os capítulos. Tiravam o meu foco daquilo que estava acontecendo para algo que ocorreu há muito tempo atrás com Papá e Gran Abuelo. Eu achava que esses flashbacks teriam ficado melhores em capítulos separados. Claro que isso exigiria um reajuste no tamanho dos capítulos, mas isso permitiria ao autor alternar melhor entre as duas temporalidades. Até a metade da narrativa, os flashbacks faziam sentido porque se interligavam com o que o capítulo queria dizer no final. Mas, mais adiante, eram mais fatos que eram colocados para carregar a narrativa adiante e esclarecer pontos da história. Por isso que não havia necessidade de eles estarem juntos. 

A ambientação é muito boa. A associação entre fatos reais e elementos fantasiosos está muito boa e demonstra uma ótima pesquisa da parte do autor. Vários fatos da Guerra do Paraguai estão presentes ali e dá bem para mostrar como foi o cotidiano daqueles que estiveram no front. O quanto a guerra era ingrata e cruel com os soldados que voltavam para casa ao final dela e não sabia o que iria encontrar. A distribuição de títulos acabou criando uma estranha classe social formada por alguns destes sobreviventes. Por outro lado, os negros acabam retornando a um país que ainda não desejava libertá-los por conta dos interesses dos cafeicultores. Mas, achei que em determinados momentos o autor exagerou com a inserção de tantos acontecimentos históricos. A contextualização não precisava ser tamanha. Bastava apenas fornecer informações suficientes para que o leitor pudesse se situar no cenário. De toda a forma, achei muito corajoso do autor usar uma ambientação que não me recordo de ter sido usada em outro material brasileiro. 

Imperiais de Gran Abuelo é uma obra muito boa, apresentando como que a história do Brasil possui ótimos momentos para serem aproveitados em uma narrativa fantástica. Terci criou um grupo de personagens fascinantes, trabalhando bem como eles se relacionam e como passam por várias dificuldades juntos ao mesmo tempo em que reforçam seus laços de amizade e companheirismo. 


Ficha Técnica:

Nome: Imperiais de Gran Abuelo Autor: M.R. Terci Editora: Pandorga Gênero: Terror Número de Páginas: 208 Ano de Publicação: 2018

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