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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "House of Chains" (O Livro Malazano dos Caídos vol. 4) de Steven Erikson

Na cidade de Aren, Tavore lida com as consequências dos acontecimentos que culminaram na morte de Coltaine. Com um exército inexperiente e sem motivação para lutar, ela precisa destruir os exércitos do Furacão, liderados pela misteriosa Sha'ik. Mal sabe Tavore que Sha'ik é, na verdade, sua irmã desaparecida Felisin. Neste sangrento volume, teremos uma guerra de irmã contra irmã que definirá o destino do Império Malazano.


Sinopse:


Na parte norte de Genabackis, um grupo de pilhagem formado por guerreiros tribais selvagens descem das montanhas rumo às planícies do sul. Seu objetivo é levar o caos rumo aos odiados habitantes das planícies, mas para aquele chamado Karsa Orlong isto marca o início do que irá se provar ser um destino extraordinário.


Alguns anos depois, nos deparamos com as consequências com o que ficou conhecido como a Corrente de Cães. Tavore, a adjunta da Imperatriz chegou no último bastião dos territórios das Sete Cidades em Genabackis. Nova no comando, ela deve aprimorar e treinar doze mil soldados, muitos deles recrutas ainda crus embora tenha um grupo de veteranos da lendária marcha de Coltaine, e torná-los uma força capaz de desafiar as horadas maciças do Furacão de Sha'ik que está à espera no coração do Deserto Sagrado de Raraku.


Mas, esperar nunca é fácil. Os chefes da guerra da profeta estão envolvidos em uma disputa de poder que ameaça a própria alma da rebelião, enquanto a própria Sha'ik sofre, assombrada pela sombra de sua nêmese: sua própria irmã, Tavore. E assim começa mais um novo capítulo do Livro Malazano dos Caídos, de Steve Erikson...



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Tem spoilers de volumes anteriores!!!!





Visão Geral do Volume:


Neste quarto volume, Erikson começa sua narrativa de uma maneira diferente. Ele costuma nos colocar no meio da ação, em algum acontecimento caótico para depois ampliar a lupa e construir aquele momento a partir dos acontecimentos que o tornaram realidade. Isso é feito através de algum personagem-orelha que atua como observador e apenas nos descreve o momento específico e depois ele nos passa para os personagens que serão realmente importantes para a narrativa. Em House of Chains, Erikson decide nos confinar a um pequeno espaço com um elenco pequeno de personagens e a partir dessa abordagem micro, ele vai nos dando uma noção aproximada do que ele pretende construir neste volume. Vamos ficar quase um quarto deste livro com estes personagens, algo também inédito até então. Particularmente, gostei dessa maneira de nos fazer imergir neste volume, porque nos faz criar laços com alguns personagens como Karsa, Torvald e até mesmo os traficantes de escravos.


Chegamos em um momento da série em que é importante saber dos acontecimentos anteriores que vão moldar boa parte do que acontece aqui. Sugiro que quem deu um espaço grande entre os volumes, busque na internet um resumo do que aconteceu para não ficar perdido. Só vou dar alguns toques que serão importantes:


  • Antes de mais nada, esse volume acontece alguns anos depois da Corrente de Cães. Foi uma marcha liderada por um homem chamado Coltaine que buscava resistir à invasão dos Malazanos ao continente de Genabackis. Era uma corrente formada por pessoas simples que acabaram pegando em armas e lutando contra os invasores apenas para se defender. A marcha seria apenas para escoltar inocentes de Genabackis até Aren. A perseguição aos refugiados é um golpe contra as intenções dos malazanos de ficarem em Genabackis já que isso acaba por alimentar a rebelião de Sha'ik. Tavore acaba sendo enviada para lá para cuidar da invasão malazana.

  • É importante sabermos quem Icarium é, porque ele tem participação importante nesse quarto volume. Ele tinha perdido a memória e aos poucos descobre que ele é um Jhag e fez parte da luta terrível entre Soletaken e D'ivers no segundo volume. A gente descobre alguns segredos importantes que envolveram os Tlan Imass e os Teblor.

  • No terceiro volume de Malazan, vimos o verdadeiro inimigo que está movendo suas peças pelo tabuleiro: o Deus Aleijado. Ele era um deus poderoso nos tempos antigos que, graças à interferência dos demais deuses, perdeu seu posto no panteão e passou a ser usado pelos humanos como fonte de poder. Afastado do panteão, seu espírito foi se tornando corrompido e ele consegue retornar ao Panteão graças a um jogo perigoso que envolveu o Pannion Domin, Ben Ligeiro e Ganoes Paran. O Deus Aleijado corrompeu os Labirintos, veículos de magia usados pelos feiticeiros, e estes ameaçavam destruir a própria existência. Sem mencionar que ele vinha pressionando a deusa adormecida Burn, essência da própria terra. Paran usa seus novos poderes como Mestre do Baralho, para devolver o Deus Aleijado ao Panteão e obrigá-lo a seguir as regras dos demais deuses.

  • O Deus Aleijado assumiu o Domínio Fragmentado e escolheu como rei do Domínio o imortal Kallor. Agora, seu novo Domínio parece estar se reestruturando e este vem acumulando mais e mais autoridade.

  • No último volume, todos os Queimadores de Pontes que integraram a campanha contra Darujhistan fizeram parte do exército do Punho e enfrentaram as forças do Pannion Domin e seus Tenescowri. Quase todos morreram com exceção de alguns poucos. Em Genabackis, sobraram Kalam e Apsalar.



Aspectos específicos:


"Quantos de nós se ajoelham perante um deus em uma esperança desesperada de que nós podemos mudar nosso destino? Rezar para aquele rosto familiar afasta nosso terror do desconhecido - o desconhecido sendo o futuro."

Somos apresentados no livro 1 deste quarto volume a Karsa Orlong, um Teblor. Os Teblors são um grupo de selvagens nômades, bastante inspirados nas tribos mongóis da Idade Média, que habitam as montanhas. São gigantes com um físico avantajado, uma alta resistência a magia e empregam o óleo de sangue, uma substância que eles passam em suas rudimentares espadas de cabo de madeira, mas que dão a elas um poder destrutivo incrível. O óleo serve também para dar ao guerreiro a loucura capaz de atravessar um combate com poderes brutais. Os Teblors são divididos em várias pequenos tribos como os Sunyd, os Rathyd e os Uryd (sendo que Karsa pertence aos Uryd). Existe toda uma rivalidade entre esses povos e eles são adeptos de incursões onde eles atacam os pequenos assentamentos, destroem tudo e depois saem com suas pilhagens. Os Teblors acreditam nas Faces da Rocha, um panteão formado por sete deuses primitivos que os estimulam a verter sangue para honrá-los. Karsa é adepto de Urugal, considerado um dos mais sanguinários do panteão. Dentro de sua comunidade, o avô de Karsa, Pahllk é venerado como um chefe guerreiro poderoso que conseguiu levar a força dos Teblors até a Lagoa de Prata onde vivem os homens das planícies, seres que os Teblors encaram como inferiores. Mas, a tribo dos Uryd parece ter estabilizado no tempo, já que o pai de Karsa, Synyg, não se interessa por guerras e tem uma visão mais pragmática sobre o desenvolvimento da tribo.


Começamos com Karsa e seus companheiros Bairoth e Dellum alegando que irão mais longe do que Pahllk. Eles desejam recuperar a glória da força dos Uryd, levando o terror aos rivais Rathyd e Sunyd. Karsa parte em sua incursão, mesmo contra a vontade de seu pai. Mas, vamos ver que o mundo que Karsa conhece é muito pequeno comparado ao que ele irá vivenciar. Parece que as Faces na Rocha tem um plano para Karsa e isso irá envolver todo um comprometimento do guerreiro de despejar sangue por toda a parte. Mesmo com a força absurda de Karsa e de seus companheiros, veremos que isso só parece fácil. Os habitantes da planície que eram considerados crianças pelos Teblors, agora são mais organizados e chegaram a escravizar uma das tribos. Karsa se depara com uma força estranha que alega que os Teblors foram isolados nas montanhas por muito tempo graças a uma outra raça que não queria que eles se multiplicassem. E Karsa é feito escravo durante um ataque insensato na Lagoa Prateada. O mundo do personagem cai de cabeça para baixo e ele segue cegamente a voz de Urugal, a quem ele antes confiava, mas agora possui muitas dúvidas.


"Forme uma opinião, repita-a com frequência e logo todos estarão falando-a de volta para você e então ela se torna uma convicção, alimentada por uma ira sem razão e defendida com armas saídas do medo. Até certo ponto quando as palavras se tornam vazias e você é deixado com uma luta até a morte."

Nesse primeiro livro vamos conhecer os Teblors. E eles servem para mostrar mais duas novas raças do mundo de Malazan que ainda não havíamos tido contato. O mais próximo de Karsa é Toblakai, que faz parte do grupo que protege Sha'ik (aliás... guardem essa informação porque ela é importante). Karsa é um jovem que quer resolver todos os seus problemas através da força. Por ele ser tão impressionante, se torna um chefe guerreiro, liderando seus dois companheiros em incursões. Acreditem... só 3 Teblors fazem um estrago danado. À medida em que ele vai aumentando o seu conhecimento de mundo, isso vai fazendo-o entender mais qual é o seu lugar neste contexto estranho que ele se vê envolvido. Mais do que isso: ele vai descobrir que muito do que ele sabia sobre a incursão anterior à Lagoa Prateada não passava de mentiras e exageros. Seu objetivo se quebra a partir do momento em que seu pai tinha mais razão do que seu avô. Esse amadurecimento de Karsa vai se dando com suas perdas e frustrações. Mesmo seu grande poder não é capaz de o tirar das diversas adversidades nas quais ele se vê tragado. Ser aprisionado por humanos comuns que eram antes considerados crianças é humilhante para ele.


A amizade que Karsa vai desenvolver com Torvald Nom, um daru que tinha sido capturado pelos traficantes, é que vai fazer Karsa repensar muito do que ele considerava como certo em sua vida. Torvald vai fornecer ao Teblor a visão de mundo necessária para ele amadurecer e se tornar o guerreiro que ele mesmo desejava ser. Para isso, o Teblor vai precisar mudar suas concepções. Ser menos impulsivo em suas ações. Entender que nem tudo pode ser resolvido com o fio de uma espada. Se um Teblor é perigoso sendo o berserker que é, imagine se Karsa ganhar a habilidade de ponderar sobre seus problemas, entender quais batalhas lutar e com quem se aliar. Até porque Karsa não desistiu de levar o caos ao mundo, ele apenas percebeu que é preciso ser mais inteligente e escolher melhor as suas batalhas. No fundo disso, Karsa e Torvald foram parar no Domínio Fragmentado e causaram algum tipo de efeito lá que vai ter consequências para os planos do Deus Aleijado.


É no segundo livro que voltamos à narrativa nos tempos atuais da trama. Somos transportados a um cenário bem diferente daquele do segundo livro. Lá atrás tivemos a morte de Coltaine e sua corrente de refugiados sofrendo com traições, deserções e todo o tipo de atrocidades na cidade de Aren. Os acontecimentos de Memories of Ice deixaram o Império Malazano ainda mais enfraquecido no continente. Poucas cidades se encontram sob o domínio de Laseen, sendo Aren uma delas. Tavore se torna a comandante-chefe das forças malazanas e precisa encontrar uma maneira de destruir o exército do Furacão e Sha'ik. Tavore contava com o auxílio das tropas do Punho Dujek que viria apoiá-los pelo norte. Só que a perda maciça de homens da tropa de Dujek e a morte de quase todos os Queimadores de Pontes (incluindo Whiskeyjack) cai como uma bomba no colo de Tavore. Subitamente ela perdeu as tropas mais experientes do Império. Tudo o que ela tem são os homens de Aren que são formados pela sobre das tropas de Coltaine e alguns recrutas conseguidos na cidade. Uma perspectiva péssima para uma comandante que também é inexperiente. Tavore ostenta um ar analítico e calculista que pode vir a ajudar nos momentos mais difíceis e ela procura se controlar em boa parte do tempo. Mesmo em situações bem estressantes, a personagem sempre aparenta tranquilidade. Isso vai ser colocado à prova o tempo inteiro. O seu envolvimento com uma concubina que é basicamente sua esposa vez ou outra é colocado em questão pelas tropas, o que ela retruca com uma acidez terrível. Lembrando ainda que Tavore não sabe que Sha'ik, líder do exército revolucionário e avatar do Furacão, é nada mais, nada menos do que Felisin, sua irmã mais nova. Então, o grande núcleo deste quarto volume é uma guerra violenta entre duas irmãs. A única pessoa que poderia impedir algo terrível acontecendo entre elas, Paran, o irmão mais velho, está desaparecido desde Memories of Ice. Agora ele é o mestre do Deck do Dragão.


"Os habitantes das planícies se espalharam pelo mundo como vermes [...] e estava claro que eles se odiavam. Enquanto isso era um sentimento que Karsa conseguia entender - pois tribos deveriam odiar umas às outras - era óbvio que, entre os habitantes da planície, não havia nenhum senso de lealdade. Karsa era Uryd, mas também era Teblor. Os habitantes das planícies pareciam tão obcecados com suas diferenças que não conseguiam compreender o que os unia."

Mas, algumas coisas podem estar conspirando a favor de Tavore. Primeiro é que ela não sabe que um dos sargentos de seu exército é Violinista, um dos Queimadores de Pontes, que agora se apresenta com outro nome, Cordas. Segundo é que Cotillion, a Corda, parece estar muito interessado na presença dos malazanos no subcontinente das Sete Cidades. Vamos entender um pouco do que Cotillion planeja no final deste volume, mas a Corda começa a agir pontualmente para dar algumas vantagens para Tavore. Primeiro ele envia Kalam (outro dos Queimadores de Pontes remanescentes) para reunir algumas tropas para auxiliar os malazanos. Justo Kalam, o assassino entre os Queimadores e que detesta comandar tropas. Aliás, Kalam vai dispor da ajuda de um ser bem estranho ao longo deste volume. Estranho e mortífero. A Corda também envia Cutter (antes conhecido como Crokus) para uma ilha nômade que servia de lar para os Tiste Andii. Lá Cutter tem a missão de auxiliar jovens Tiste Andii a derrotar seus rivais Tiste Edur. Só que este grupo de Andii é bem diferente dos homens de Anomander Rake. Então os planos de Cotillion vão permear todo este volume. Além de uma certa mudança na personalidade do Ascendente. No volume anterior, Cotillion tomou algumas decisões horrorosas e que levaram a todo o desastre no confronto com o Pannion Domin. Não preciso nem dizer que o conselho de Cotillion para confiar em Kallor foi péssimo. Principalmente porque a pessoa a quem ele disse para confiar foi morta pelo próprio Kallor. Então temos um deus mais reflexivo e compassivo.



Por falar em Crokus, agora Cutter, este agora serve em missões para Cotillion. Tudo para estar ao lado de sua amada Apsalar. Só que essa vontade de estar ao lado de seu amor não foi algo que lhe deu muitos benefícios. Primeiro porque de um simples ladrão e malandro, ele foi obrigado a se tornar um assassino. Isso fez com que ele precisasse realizar várias missões das quais ele se arrepende profundamente. Sem mencionar que Apsalar se tornou algo diferente da garota simples que ele conheceu no passado. Apsalar contém as memórias e parte da personalidade do próprio Cotillion. Isso fez dela uma pessoa fria e cruel, que vê os humanos como seres passíveis de serem mortos se estiverem no caminho de seus planos. Cutter não vê nem sombra de um mínimo de bondade e sentimentos em seu coração. Sabe que seu amor não será correspondido. É então que Cotillion busca a ele para enviar para a ilha nômade. Ele e não Apsalar. As respostas do motivo que levou Cotillion a pedir justamente a Cutter não são algo que ele vai gostar de saber. Nesse sentido vamos ver que Cutter está tentando entender o que ele está fazendo e qual o seu papel no plano geral das coisas. Com o seu coração e sua vontade perdidas, ele segue meio que para onde o vento o leva. E em uma situação que exige atenção e cuidado das partes envolvidas em algo muito maior do que a compreensão humana, isso pode levar à morte certa.


"A Ascensão era mais um entre os diversos mistérios do mundo, um mundo onde a incerteza governava a todos - deuses e mortais - e suas regras eram impenetráveis. Mas, parecia a ele, que ascender era também se render. Abraçar o que, para todos os propósitos, poderia ser chamado de imortalidade era, ele começou a acreditar, pressagiado por um dar de costas. Não era o destino de um mortal - destino, ele sabia, era a palavra errada para isso, mas ele não conseguia pensar em outra - abraçar sua própria vida, como se fosse uma amante? A vida, com toda a sua fragilidade, era uma fragilidade momentânea."

Algo que Erikson sempre faz e que acho legal é nos colocar no meio das coisas. Um dos personagens que nos guiam durante a narrativa é o Violinista que está no sétimo batalhão malazano. E lá nós vamos conhecer a galerinha da pesada que está lidando com um exército desfalcado. E com Tavore se mantendo bem distante de tudo. Conhecemos o conselheiro Gamet, um homem leal à família Ganoes e que de um simples guarda de honra se transforma no novo Alto Punho. Gamet é um homem acostumado com números, com tarefas burocráticas. Se ver no meio de uma guerra ao lado de Tavore, que está tateando sua habilidade como comandante, é algo completamente acima da alçada dele. Violinista começa a liderar alguns homens bem interessantes: Bottle, um mago cujo Labirinto ele prefere não revelar qual usa; Smiles, uma garota completamente maluca e que sempre cai na porrada com alguém; o preguiçoso Cuttle que se revela um soldado multi-talentoso; Koryk, que parece ser um dos poucos com miolos no lugar e Truth, que não sabe por que está ali. É como se o Violinista estivesse experimentando os sentimentos que Whiskeyjack teve quando liderava os Queimadores de Pontes. E o apego que ele tinha aos seus homens. Vamos acompanhar também como Tavore vai lidar com as pequenas picuinhas entre os comandantes como com Blistig, Tene Baralta e o sortudo capitão Keneb.


Se Tavore está tendo suas dificuldades, Sha'ik não fica atrás. Se preparando para um futuro ataque contra os malazanos, Felisin precisa entender o funcionamento das políticas e rivalidades perigosas entre seus capitães. Se Tavore tem a inexperiência como problema principal, Felisin tem a traição e um possível assassinato (dela) no horizonte. Kamist Reloe e Korbolo Dom são os homens mais perigosos de seu acampamento. Korbolo tem pretensões muito acima de sua posição. Sua ambição consiste em usar o exército de Sha'ik como moeda de troca para conseguir se aproximar de Laseen e assassiná-la para se tornar o futuro imperador. Kamist Reloe é um mago extremamente cauteloso em suas ações, que desconfia até de sua própria sombra. A aliança tênue entre Reloe e Dom é o que vai colocar boa parte das tensões no deserto sagrado. Mas, existem outros problemas. Por exemplo, Bidithal é um mago poderoso e provavelmente o mais poderoso por ali. Mas, suas peculiaridades e preferências sexuais (por jovens meninas... jovens de verdade mesmo) o fazem ser repudiado. Principalmente porque ele "caça" dentro do próprio acampamento de Sha'ik. Heboric das Mãos Fantasmagóricas teme que Bidithal se volte para a filha adotiva de Sha'ik e isso cause um tremendo alvoroço. Só que Heboric também tem suas preocupações. Lembrando que ele é um clérigo decaído de Fener e que não tinha mais suas mãos. Mas, por conta dos acontecimentos no segundo volume, ele conseguiu mãos fantasmas que estão ligadas ao tempo em que ele e Felisin estavam nas minas de otataral. A ele é aconselhado retornar às minas e à estátua de jade que lhe deu as mãos fantasmas porque estas parecem estar ligadas a alguma estranha força mística que pode atentar contra a vida de todos. Ah... e eu já disse que o deus-javali Fener perdeu a sua divindade e teve os seus domínios tomados pelo Tigre Treach? Pois é. As complicações não param e Heboric subitamente precisa se ajoelhar perante um estranho deus cujos objetivos são bem diferentes dos de Fener.


"Pedras, mares, florestas, cidades - e todas as criaturas que já viveram - todas compartilham a mesma luta. A existência resiste à não existência. A ordem guerreia contra o caos da dissolução, da desordem. Karsa Orlong, esta é a única verdade, a maior delas. O que os próprios deuses veneram, se não a perfeição? A vitória absoluta sobre a natureza, contra a incerteza da natureza. Existem muitas palavras para esta disputa. Ordem contra caos, estrutura contra dissolução, luz contra trevas, vida contra morte. Mas todas elas significam a mesma coisa."


Nesse volume temos mais algumas respostas sobre o que são os labirintos e como eles funcionam. Para quem imaginava que eles eram apenas combustíveis para que os feiticeiros usassem magias ou lugares de domínio dos deuses, bem... também são. Mas, muito mais. Existem relações intrínsecas entre os labirintos, além da possibilidade de serem invadidos por outros deuses, sejam eles ativos ou dormentes. Vimos um pouco disso no volume anterior quando Treach, o Tigre do Verão, invadiu o Domínio das Feras, controlado por Fener, o Javali e este perdeu o seu controle sobre o labirinto. Treach tomou os sacerdotes de Fener e se tornou o novo deus das feras. Algo que vemos nesse volume com Heboric precisando se ajoelhar para um novo deus. E tendo suas características físicas alteradas por conta de sua influência. Em House of Chains, um dos temas que ficam no fundo é a relação entre luz, trevas e sombras; ou Kurald Thyrllan, Kurald Galain e Kurald Emurlahn, os três labirintos respectivos. Conhecemos as raças representantes destes labirintos anciãos, os Tiste Liosan, os Tiste Andii e os Tiste Edur. E a visão que cada uma destas raças tem sobre o domínio do mundo material. Os Andii como seres das trevas assustadores e poderosos personificados na figura de Anomander Rake. Ou os ordeiros Tiste Liosan, com sua arrogância infinita e a visão de superioridade sobre as outras raças. Os os guerreiros Edur que veem na conquista a razão de suas vidas. Estamos nos referindo a apenas três labirintos e a como este volume da série dá uma nova visão sobre como entendê-los. Embora Erikson explique muito sobre o poder dos deuses e de seus domínios saímos com ainda mais dúvidas. Ou melhor, novas. E isso é ótimo porque abre todo um leque de possibilidades.


"Não é incomum ver os labirintos de Meanas e de Rashan como próximos. Ainda assim os jogos de sombras e ilusão não seriam jogos de luz? Em algum momento, portanto, a noção de distinções entre estes labirintos parou de fazer sentido. Meanas, Rashan e Thyr. Apenas o mais fanático dos praticantes entre seus praticantes iria se opor a isso. O aspecto destes três compartilha uma certa ambivalência; seus jogos são jogos de ambiguidade. Todos são enganadores, tudo é engodo. Entre eles, nada - nada mesmo - é o que parece."

Este quarto volume é um pouco diferente dos anteriores por ser um volume mais calmo e ritmado. Ele é denso de informações e se o leitor não tomar cuidado pode se perder bastante. Recomendo voltar capítulos quando algo não ficar claro e até buscar informações em volumes anteriores. Tem muito aqui reunido dos três volumes anteriores, principalmente do segundo. Lembrando que House of Chains é uma continuação direta de Portões da Casa dos Mortos por se passar no mesmo continente das Sete Cidades embora os acontecimentos de Memories of Ice tenham empurrado os acontecimentos, ou pelo menos acelerado muito. Existe toda uma confluência de narrativas, o que considero algo de extrema habilidade do autor. Erikson dá um sentido para que os vários núcleos narrativos estejam no mesmo lugar e nada disso parece forçado. A noite dos fantasmas em Raraku vai parecer um acontecimento pequeno agora, mas terá uma enorme influência no futuro. As maquinações do Deus Aleijado renderam alguns desenvolvimentos embora algumas de suas escolhas venham para morder o traseiro dele depois (Karsa Orlong). E a presença de Onrack e Trull Sengar não é voltada para este volume, mas para o próximo. Até porque... pasmem... Erikson vai nos levar para outro ponto do mundo... com personagens completamente diferentes e com conexões bem tênues com TODOS os personagens que ele apresentou até agora. Midnight Tides, o quinto volume, é um adorável mundo novo. E iremos falar dele em breve.










Ficha Técnica:


Nome: House of Chains

Autor: Steven Erikson

Série: O Livro Malazano dos Caídos vol. 4

Editora: Tor Books

Número de Páginas: 1044

Ano de Publicação: 2006


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