• Paulo Vinicius

Resenha: "Jardins da Lua" (O Livro Malazano dos Caídos vol. 1) de Steven Erikson

Atualizado: 22 de Mai de 2019

E vamos falar do monstro? Uma das resenhas mais esperadas por aqueles que gostam do Ficções Humanas e acompanharam nosso trabalho de divulgação do livro.

Sinopse:


Desde pequeno, Ganoes Paran decidiu trocar os privilégios da nobreza malazana por uma vida a serviço do exército imperial. O que o jovem capitão não sabia, porém, era que seu destino acabaria entrelaçado aos desígnios dos deuses, e que ele seria praticamente arremessado ao centro de um dos maiores conflitos que o Império Malazano já tinha visto.

Paran é enviado a Darujhistan, a última entre as Cidades Livres de ¬Genabackis, onde deve assumir o comando dos Queimadores de Pontes, um lendário esquadrão de elite. O local ainda resiste à ocupação malazana e é a joia cobiçada pela imperatriz Laseen, que não está disposta a estancar o derramamento de sangue enquanto não conquistá-lo.

Porém, em pouco tempo fica claro que essa não será uma campanha militar comum: na Cidade do Fogo Azul não está em jogo apenas o futuro do Império Malazano, mas estão envolvidos também deuses ancestrais, criaturas das sombras e uma magia de poder inimaginável.

Em Jardins da lua , Steven Erikson nos apresenta um universo com¬plexo de cenários estonteantes e ações vertiginosas que mostram por que esta é considerada uma das maiores sagas épicas.




Admito ser um cara meio chato na hora de montar as resenhas para o blog. Mesmo com livros que o público gosta bastante, sempre tem algum elemento que acaba não passando. Isso não significa que eu gostei menos ou que eu detestei um livro. Significa apenas que eu procuro ao máximo respeitar os meus leitores, buscando ressaltar os pontos fortes e apontar algumas fraquezas na leitura. Ah, sim, antes de mais nada, o fato de eu ter me envolvido em um esforço coletivo para ajudar a divulgar o lançamento do livro não significa que a minha resenha foi alterada positivamente por conta disto. Outro ponto que eu gostaria de comentar é que eu não gosto de ler livros durante um momento de hype. Nunca é positivo. Expectativa é uma faca de dois gumes: tanto pode ser positiva como pode redundar em algo negativo.

Tendo feito todo este disclaimer, queria dizer que esta foi disparado a melhor leitura do ano. Okay, eu já havia dito isto sobre Atlas de Nuvens. E eu acredito que ainda vou dizer sobre outros livros porque eu me comprometi com um desafio de livros muito elogiados. Mas, aqui em Jardins da Lua eu poucas vezes vi algo tão redondinho e bem escrito. Eu estou até agora tentando encontrar algo para criticar. Um personagem mal trabalhado, uma ponta solta, um erro de escrita. Eu simplesmente não consigo encontrar. Me deparo aqui com um autor que é um mestre na estrutura e composição da narrativa. Nada do que aparece no livro é sem propósito; tudo lhe fornece alguma informação vital que vai ser explorada depois.

"Em uma guerra de paciência, o mortal está sempre em desvantagem.”

Uma das grandes reclamações dos leitores de Jardins da Lua é a dificuldade deste primeiro volume. E eu parti para a leitura sem conhecer quase nada do universo Malazan. Vocês vão me chamar de maluco já que fui eu quem traduziu o Guia para Malazan. Sim, fui eu mesmo. Porém, eu pouco me lembrava do que eu traduzi. O meu processo de tradução é meio insano. Geralmente eu não guardo informações quando estou na tradução; apenas depois quando eu leio o texto. Então minha mente era uma página em branco quando abri o livro pela primeira vez. E quão gratificante foi o fato de o autor me tratar como um adulto. Eu já usei a expressão Síndrome do Primeiro Volume uma série de vezes para comentar a respeito do problema que muitas séries de sci-fi ou de fantasia tem no começo. Existe uma forte necessidade do autor de situar quem está lendo no seu universo, apresentando personagens, características do mundo, sistema de magia (ou tecnologia) e até assentando o leitor em seu modo de escrita. E o Erikson não faz isso. Ele te joga no meio da narrativa e manda você se virar para entender a história. Nada de glossários, nada de excesso de informações, nada de diálogos expositivos. E aí, como é que entendemos o universo e o mundo? Bem, você vai pegando pequenos pedaços de informação que ele vai te jogando e montando um imenso quebra-cabeças. Estamos acostumados com autores que pegam na nossa mão, mandam a gente se sentar no banquinho e começam a explicar a história para a gente. Muito semelhante à famosa cena do Conselho de Elrond em O Senhor dos Anéis que muitos leitores detestam. Mas que este tipo de exposição de informações acabou sendo adaptada pelos autores nos livros contemporâneos. Claro que, este "info dump" é feito de uma maneira mais diluída, mas mesmo assim é responsável por aquela gordurinha a mais que vemos em algumas séries que tanto gostamos. Eu mesmo já comentei o quanto o primeiro volume de O Ciclo das Trevas, de Peter V. Brett, poderia ser um livro estupidamente melhor sem o info dump. Mas o autor precisou apresentar o mundo de acordo com o seu modo de escrita.

"Histórias não fazem ninguém sangrar. Histórias não deixam ninguém com fome nem machucam os pés. Quando se é jovem, cheirando a merda de porco, e se está convencido de que não há uma arma em toda a porcaria do mundo que seja capaz de matá-lo, tudo o que as histórias conseguem é fazer você querer se tornar parte delas."

Minha dica nesse momento é: não se preocupem. Erikson vai explicar a vocês eventualmente o que ele está falando. Mesmo que isso aconteça quinhentas ou seiscentas páginas depois e seja em um parágrafo. Sério. Confiem. Eu não senti essa dificuldade que muitos leitores sentiram. Talvez por eu ter lido Atlas de Nuvens um mês antes, que é um livro com informações narrativas difusas, a principal dificuldade de Jardins da Lua não me afetou. Claro, o leitor demora para se acostumar com os personagens e com a narrativa, mas tão logo nos assentamos na história, é uma viagem maravilhosa. Da metade para a frente eu não queria parar de ler. Consegui terminar minha leitura em 9 dias e estamos falando de um livro volumoso e que não é tão simples assim de ler.

A escrita do Erikson é bem precisa. Não vemos muitos preciosismos ou firulas literárias ao longo de Jardins da Lua. Para quem procura algo ritmado e muito poético, este não é o seu cara. Nas linhas do livro o que eu pude sentir é que os capítulos transbordavam majestade. Tudo é muito grandioso e urgente. Não estou vendo uma jornada do Herói. Jardins da Lua não é a história de como Ganoes Paran realiza sua jornada, atravessando por dificuldades, treinando com um mestre e derrotando um vilão. Nada disso. Também não é a história de Piedade e de seu martírio. Nesse sentido, vou traçar uma comparação bem absurda, mas tentem imaginar comigo. Jardins da Lua se assemelha bastante à maneira como Asimov compôs o primeiro volume da série Fundação. Ali a história não é sobre Seldon ou Hardin, mas sobre a própria Fundação. Vemos como a Fundação começa como uma ideia na mente de Hari Seldon até o momento em que a Fundação se torna um mundo desenvolvido com um sistema monetário e até uma religião. Os personagens orbitam em torno da Fundação e vemos como as suas ações interferem na evolução do planeta. Aqui é o mesmo. A história é sobre o Império Malazano e sua ofensiva no continente de Genabackis. Por isso não temos necessariamente um protagonista. Vemos vários pontos de vista que vão nos mostrar acontecimentos diferentes da história. Todos possuem algum envolvimento: a conselheira Lorn, Ganoes Paran, Whiskeyjack e os Queimadores de Pontes, Kruppe e até mesmo o jovem Crokus. Sempre tem algum elemento importante da narrativa a ser contado por eles. E, no entanto, no centro da história sempre vai estar o Império Malazano.

"Por toda a nossa vida nós lutamos por controle, por um meio de moldar o mundo à nossa volta, uma caçada eterna e inútil pelo privilégio de sermos capazes de prever a forma de nossas vidas."

Os personagens são muito bem concebidos. Não consigo encontrar um único personagem que não tenha tido alguma coisa a acrescentar à história. De nada adianta criar um personagem aleatório se os seus momentos são apenas supérfluos. Alguns de vocês vão argumentar que determinados personagens não são tão bem trabalhados. Então, o que eu senti foi que o autor deixou algumas coisas em aberto para trabalhar em livros futuros. Ele não abandona simplesmente os personagens; ele os envia a outras situações a serem trabalhadas posteriormente como com Tattersail. Não vou me alongar nessa explicação ou acabarei dando spoilers, mas o que me agradou muito foi esta noção do autor de que ele precisa de certos personagens para continuar linhas narrativas futuramente. Outro elemento que eu gostei bastante foi o fato de que não existe um maniqueísmo evidente na história. Não temos bons e maus. Temos pessoas com interessantes. Todos possuem algo a alcançar na história e nem sempre seus objetivos passam por meios considerados nobres. A enganação, a traição, o roubo e o assassinato estão evidentes ali. O mundo de Erikson é um mundo como o nosso: cruel em determinados momentos.


“Os labirintos de Magia habitavam o além. Encontre o portal e abra uma fenda.”

Como é bom ver quando um autor é capaz de traçar uma personagem feminina com tanta naturalidade. Todas elas são distintas entre si e temos duas personagens em posição de poder na história: Laseen e Lorn. Nenhuma delas é uma badass, chutadora de bundas a la Rambo. No caso, podemos falar mais de Lorn que possui uma aura carismática ao mesmo tempo em que possui suas fragilidades. Ela não é um robô que segue cegamente as ordens da imperatriz. Existem momentos de questionamentos, mas ela compreende que as necessidades do império estão acima das suas. E Tattersail que possui um caráter extremamente interessante. Busca redenção por alguns erros que ela cometeu no passado. Mas, nem por isso ela chora litros de lágrimas por causa disso. O que aconteceu, aconteceu. Temos mulheres poderosas, feiticeiras incríveis, nobres mulheres que usam sua sedução para conquistar seu espaço e sábias. Todas muito distintas entre si. Podemos dizer que elas estão empoderadas? Sim, podemos. Mas, o leitor sente que a construção delas foi muito natural na mente do autor. Ele não planejou uma cota de mulheres para a sua história. Elas estão ali porque sim.

Outra coisa que muito me agradou é que mesmo os personagens secundários possuem alguma trama paralela que se une à história central. E quando você lê o livro pela segunda vez percebe a teia de histórias que se entrelaçam criada pelo autor. Até mesmo a trama de Crokus e Challice estoura no final em algum momento de importância para o leitor. Ou a beberagem de Coll, ou as falas sem nexo de Kruppe. Posso imaginar a dificuldade que deve ter sido entrelaçar toda essa gama de personagens em uma história coerente e que não pesasse na mente do leitor. Aplausos para o autor.

Quanto aos temas, temos muita variedade dos mesmos. Por exemplo, a vingança é muito bem trabalhada pelo autor. Temos um personagem que busca vingança por algo que lhe acontece durante a narrativa. E isso o leva a tomar escolhas erradas e a se arrepender posteriormente. Mas, o que mais se destaca é o livre-arbítrio. A capacidade dos indivíduos de escolher aquilo que eles vão fazer de suas próprias vidas e como os deuses podem ou não interferir em nossas decisões. Em algumas ocasiões vemos que os personagens se sentem peões em um jogo maior. Vemos alguns personagens sendo influenciados de maneira direta enquanto outros tendo suas escolhas reduzidas e sendo "guiados" por aquilo que os deuses querem. Chega a ser interessante que no epílogo da história voltamos a esse tema.

"Todo deus cai pelas mãos de um mortal. Esse é o único fim para a imortalidade." 

Me recordo de que li em algum blog uma observação muito interessante sobre a narrativa: a magia não é um instrumento da história, mas sim uma parte essencial da mesma. E isso é totalmente verdade. Entender o funcionamento dos Labirintos e de como os personagens são capazes de utilizá-los a seu bel prazer também é essencial para o andamento da narrativa. Quando chegamos no confronto final lá nos capítulos finais, o autor pega aquilo que ele trabalhou ao longo da narrativa e dá o seu twist ao nos apresentar complicadores. Ao mesmo tempo o autor deixa transparecer que existem outros elementos mágicos espalhados pelo mundo. Ou seja, existe um lastro para desenvolver outras ideias em futuros volumes. Ao mesmo tempo que eu digo que entendi o elemento mágico da história, algumas coisas ainda me fogem. Novamente me parece que o autor planejou trabalhar isso em futuras histórias.

A cidade de Darujhistan é um grande coração pulsante da história. E o autor faz esta passagem muito bem. Apesar de nem toda a história se passar na cidade, mas uma boa parte dela acontece dentro de seus muros. E a própria cidade respira. Os personagens são bem detalhados e as localidades também. Você fica com vontade de ver mais eventos acontecendo ali dentro e parece que o passado da cidade também é muito interessante. Vale lembrar que as séries de Malazan acontecem em momentos diferentes da história do mundo. Noite das Facas, publicado por Ian C. Esslemont se passa muitos anos antes dos eventos de Jardins da Lua e não interferem de maneira direta com este último.

"Da imensa extensão do aglomerado de tendas e abrigos dos seguidores do acampamento veio um pranto lamentoso, um coro de milhares de vozes. O som era um lembrete aterrorizante de que a guerra sempre causava amargura. "

Enfim, considero o livro excepcional. O livro não é apenas hype; ele é realmente uma leitura muito boa. Porém, se trata de uma leitura desafiadora. Existe um momento de estranhamento natural porque o autor trata o seu leitor como um adulto. Ele quer que você, leitor, monte as informações a partir daquilo que ele te apresenta na narrativa. Os personagens são um elemento essencial também. Todos eles tem um propósito, uma razão para existirem. Mesmo os mais secundários contribuem de alguma maneira para a narrativa de Jardins da Lua. Ou seja, não existem personagens jogados apenas para cumprir espaço. As personagens femininas também são apresentadas de forma muito natural. Na minha opinião, eu estou diante de uma das melhores leituras de fantasia da minha vida. Então, corram e comprem o de vocês.


Ficha Técnica:


Nome: Jardins da Lua

Autor: Steven Erikson

Série: O Livro Malazano dos Caídos vol. 1

Editora: Arqueiro

Gênero: Fantasia

Tradutora: Carol Chiovatto

Número de Páginas: 608

Ano de Publicação: 2017


Outros volumes:

Portais da Casa dos Mortos (vol. 2)

Memories of Ice (vol. 3)


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