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O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.

  • Paulo Vinicius

Resenha: "Helter Skelter" de Kyoko Okazaki

Lilico é uma modelo de sucesso. Em um mundo regado a luxo onde a beleza e o pecado se confundem, a nossa protagonista vai se ver vítima de seu próprio investimento em si.

Sinopse:


Ganhador do “Prêmio Cultural Osamu Tezuka” de 2004, Helter Skelter é uma história de volume único da controversa Kyoko Okazaki. Após várias plásticas extensivas e manutenção vigorosa, Lilico se tornou a beleza em pessoa, se tornando uma modelo, atriz e cantora de enorme sucesso. No entanto, logo seu corpo começa a reagir mal às tantas cirurgias e ela se vê em decadência física. Agora ela é obrigada a encarar as consequências do que fez e o inevitável fim.




Alguns quadrinhos ou mangás a gente acaba pegando no bolo junto com outros objetos de desejo. Helter Skelter entrou na minha wishlist há vários meses e por lá ficou por muito tempo. Em uma dessas compras grandes, acabei pegando o mangá junto e ele novamente entrou na pilha de leituras futuras. Um dia desses decidi pegar alguma coisa diferente para ler. E qual não foi a surpresa de o mangá ser absolutamente arrepiante...

Deixa eu tirar de cara o único ponto negativo de Helter Skelter para tecer só elogios depois. O traço. Para quem está atrás de um desenho bacana ou traços incríveis, saia fora. Helter Skelter não é para você. Apesar de a Naoko caprichar em alguns capítulos, no geral se trata de um mangá bem experimental e de vanguarda. Então os traços são estranhos em várias partes parecendo até rascunhado de vez em quando. Parece ter sido uma jogada proposital da autora de forma a demonstrar a decadência da personagem de ídolo pop a um ser horrível no final da história. Outra coisa para reclamar: a tradução. Não posso dizer muita coisa a respeito já que é apenas o segundo trabalho da New Pop que eu resenho, mas o pessoal da internet sempre tece alguma reclamação nesse sentido. Aqui tem vários problemas de tradução e até de ideogramas que constituem onomatopéias que não foram traduzidos. Tá... estou sendo fresco com onomatopéias? Olha... não sei não. Tem outras editoras que tem uma preocupação maior com isso. E tradução é tradução. Não importa se é um texto complexo ou um som no formato de palavra.

Mais um aviso: este é um mangá pesado, mais voltado para maiores. Tem cenas de sexo bem explícitas, a personagem faz diversas insinuações e tem emprego de medicação ilegal (tudo isso faz parte do contexto da história). Então não recomendo isso para menores. Se bem que no mundo de hoje, né...

Vou começar falando sobre a Lilico. E que protagonista desagradável. E como a Naoko consegue escrever uma protagonista repleta de defeitos ser tão fascinante. Quem imagina que a Lilico é apenas uma idol burra e manipulável, vai se enganar feio. Ela é dona de uma inteligência incrível e maliciosa e sabe empregar as pessoas para aquilo que ela deseja. No começo ela só incomoda um pouco, mas com o passar dos capítulos a gente vai desenvolvendo um asco terrível pela personagem. À medida em que ela vai montando os esquemas dela para continuar no topo, vamos vendo o quanto ela vai decaindo junto com o corpo dela. Ao mesmo tempo ela é uma personagem feminina incrível. Lilico sabe seduzir homens e mulheres e colocá-los a seus pés. O que ela quer, ela vai correr atrás e persistir até conseguir. Assim foi com a noiva de Nanbu e até quando ela quis apenas se divertir. Tem algumas frases dela que são impactantes.

"O motivo de as pessoas acharem os famosos interessantes é porque eles são uma anomalia como o câncer."

Ou essa outra aqui:

"Quero só me divertir arruinando os outros. Fazer o quê? Afinal, também estou sendo arruinada pelas outros."

Naoko nos introduz ao mundo cruel da moda e dos famosos. O quanto alguém pode chegar para obter o máximo de beleza. Mama é a empresária de Lilico e tenta tornar sua contratada em uma réplica de si. Para isso ela faz a protagonista se submeter a uma série de cirurgias plásticas de caráter extremamente duvidoso. Com isso, Mama precisa lidar com uma pessoa que se torna instável à medida em que seu corpo vai se deteriorando. Em diversos momentos na história, Lilico faz uma série de ações absurdamente irrepreensíveis apenas porque sim. E ela assume completamente a autoria de suas ações. Quando chega um ponto crítico, Mama parte para outra. E esse é o mundo da moda. Em um dia, uma modelo está no topo, participando de campanhas, comerciais, pôsteres. No outro ela precisa pagar o preço do investimento que ela fez em si mesma. A vida de uma modelo é curta. De certa forma quando Lilico reclama que Hada teve uma vida muito fácil, ela está usando a si mesma como espelho.

E aí chegamos no casal formado por Hada e seu namorado. Inicialmente Hada é apenas a assistente de Lilico, mas conforme a história vai se passando ela se torna a marionete de Lilico. Temos aqui o desenvolvimento de uma trama altamente sexual e suja porque Hada vai desenvolvendo um lado obscuro ao ser submissa à protagonista. A gente enxerga uma relação abusiva no começo entre patrão e empregado, mas depois somos levados a um outro lado: Hada gosta disso. Ao ser uma pessoa insegura e incerta, ela vê no abuso uma saída para a sua vida medíocre. E ela vai fazer todo o possível e imaginável para agradar Lilico. E isso vai levá-la a extremos. No final, a relação bacana entre Hada e seu namorado se degradou a algo completamente absurdo. Se podemos ver algum personagem que percorre uma trajetória semelhante à protagonista, são esses dois.

Temos que falar também sobre a indústria de cosméticos e cirurgias plásticas profundamente criticada pela autora. Tem um subplot de investigação feita por um promotor público que busca denunciar práticas como o emprego de fetos para a confecção de produtos de beleza ou a transformação do uso de remédios para manter os resultados de uma cirurgia em um vício. Aqui o leitor percebe o quanto essa indústria é perniciosa, porque ela acaba se escorando em empresários milionários e estendendo os seus tentáculos pela sociedade. A maneira como essa indústria não pode ser tocada caso contrário encostamos nos interesses de pessoas muito influentes.

Helter Skelter é um caldeirão de temas interessantes. Uma personagem desprezível e fascinante pega na nossa mão e nos guia através de uma jornada de autodestruição no mundo da moda e dos famosos. Com uma escrita direta e crua, Naoko nos apresenta uma história incrível e difícil de engolir em vários momentos. Fica aqui a minha recomendação para esse mangá que merece ser lido. Mas, é preciso ter estômago para tal.


Ficha Técnica:

Nome: Helter Skelter Autora: Naoko Okazaki Editora: New Pop Gênero: Drama

Tradutor: Não Informado Número de Páginas: 320 Ano de Publicação: 2016


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