• Paulo Vinicius

Resenha: "Guerra Justa" de Carlos Orsi

Estão à procura de uma boa história cyberpunk? Que tal embarcar nesta sensacional história que mescla com habilidade tecnologia, religião e uma protagonista que se envolverá em uma conspiração assustadora? Conheçam Guerra Justa, de Carlos Orsi.





Sinopse: Abalada por uma catástrofe natural de proporções cósmicas, a humanidade e reinventa sua religião e se unifica sob o culto do Pontífice – um homem que demonstra ser capaz de prever novas tragédias. Mas há quem duvide do bom uso desse poder e acredite que ele poderia evitar muita morte e sofrimento. Duas irmãs, a freira Rebeca e a cientista Rafaela, veem-se envolvidas em um perigoso jogo de manipulação da realidade e são transformadas em agentes de uma conspiração que busca minar a influência do culto e desvendar o segredo de suas profecias. Mas se o culto for destruído, quem protegerá a humanidade de uma natureza cada vez mais descontrolada? Como a conspiração poderá vencer um inimigo capaz de prever cada um de seus passos? E afinal, o que define uma guerra justa?



Imaginar o futuro é umas das principais premissas da ficção científica. O gênero cyberpunk surgiu no final dos anos 70 e início dos anos 80 para nos alertar sobre a possibilidade de um futuro pessimista a partir das escolhas feitas pela humanidade. Neste livro, Carlos Orsi apresenta um mundo que depois de sofrer uma catástrofe, se volta para a religião em busca de respostas para restaurar o mundo.

No começo da história, as cidades de Roma, Meca e Jerusalém são destruídas por um meteoro. Subitamente o centro das principais religiões monoteístas do mundo desaparece e deixa os homens sem respostas sobre o porquê disso ter acontecido. No meio disso tudo surge um homem chamado O Pontífice que alega ter tido uma visão meses antes sobre este acontecimento. Na época da catástrofe ele não foi capaz de prever tais acontecimentos, mas agora ele se diz ser o enviado do verdadeiro Deus e se mostra capaz de prever novas calamidades. Surge uma nova ordem internacional a partir do que passa a ser conhecido como A Quinta Revelação. Após esta introdução somos apresentados a uma freira interessante chamada Rebeca que segue em direção a uma estação espacial com o intuito de causar danos ao Pontífice. Por que? O que se esconde por trás das revelações do Pontífice e de sua esposa? A irmã de Rebeca, Rafaela, uma cientista, acaba se envolvendo com uma organização terrorista que a convoca para continuar o trabalho de sua irmã que morre logo após atacar a estação espacial.

Além de escritor, Carlos Orsi faz divulgação científica. Então não é estranho quando ao nos depararmos com os detalhes científicos da história, eles são plausíveis. É assustador pensar que isto pode acontecer em nosso mundo. Basta uma catástrofe no mesmo nível da que acontece na história. O público entra em pânico e o surgimento do Pontífice acaba suprindo as pessoas com a necessidade de encontrar explicações. Se falamos quase sempre em religião e ciência em lados opostos, aqui a religião é usada para encobrir a ciência. O debate sobre a fé presente no livro me levou a refletir sobre o funcionamento da religião na nossa sociedade contemporânea. Em um capítulo do livro, ao conversar com a esposa, o Pontífice desdenha da fé e justifica sua importância ao fornecer às pessoas o bem-estar. Para a sua lógica desviada, é uma troca justa: controlar o mundo para fornecer a paz de espírito.


Uma bela história do gênero cyberpunk

Lembro que quando eu passei da página 40, eu exprimi um "PORRA... ISSO É CYBERPUNK". Eu estava esperando algo do gênero: uma história que me apresentasse algo pelo qual refletir. Fiquei curioso porque as reações ao livro foram bem distintas. No Skoob, o livro não tem uma nota espetacular, ficando apenas na média. Sinceramente, este foi um dos melhores livros com temática cyberpunk que eu li no ano passado. Essa temática visa a reflexão... se você não é capaz de retirar nada da leitura, ele não se prestou ao seu intuito. Mesmo Neuromancer que eu tanto critico, foi capaz de me oferecer elementos para o questionamento do status quo. Talvez o que tenha desagradado ao público foi a opção de Orsi em se focar na temática e não nos personagens. Ou seja, temos uma narrativa guiada pelas ideias em que os personagens são a forma usada pelo autor para fazer os seus questionamentos. As metáforas apresentadas na história são fascinantes: um computador avançado utilizando o cérebro humano, uma religião cujo chefe religioso é um louco sedento por poder e influência.

Somos apresentados a vários personagens ao longo da história. Aquele que podemos considerar o protagonista é a cientista Rafaela. Achei que ela acreditou muito facilmente em Donato. Apesar de ele impor uma personalidade carismática, não sei se teria me deixado manipular daquela forma. Okay, perdoável. A história é curta e o autor não poderia perder tempo em minúcias da personalidade do seu elenco de personagens. Talvez esta possa ser a única crítica que eu posso fazer na história: a ausência de um aprofundamento maior nos personagens. Isso passa pela opção narrativa do autor e o fato de a história ser muito dinâmica e passar muito rapidamente.

O mundo é bem explorado por Orsi. Nada acontece sem algum tipo de consequência global. Em alguns autores que escrevem romances no gênero eu sinto que existe uma falta da terceira lei de Newton. Ou seja, para toda ação existe uma reação em igual intensidade. Cansei de ver situações onde os personagens realizam alguma grande ação e o universo literário não reage de nenhuma maneira. Aqui a geopolítica reina dominante. Um dos primeiros capítulos do livro serve para nos apresentar a reação de diversos povos do mundo diante da catástrofe e os dias que se seguem. Só assim somos capazes de entrar naquele universo e compartilhar o terror de um meteoro caindo nos lugares sagrados do mundo.

Enfim, adorei a história. Sei que muitos não gostaram justamente por ele ser um livro de ideias. Na minha opinião, o universo é tão rico que ele merece novas histórias dentro dele. Sei lá, pequenos contos ou uma novela. Apesar disso, os leitores podem abraçar a história tranquilamente porque ela é fechada em si. Até existem ganchos a serem aproveitados posteriormente, mas a história tem começo, meio e fim.




Ficha Técnica:


Nome: Guerra Justa

Autor: Carlos Orsi

Editora: Draco

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 152

Ano de Publicação: 2010


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