• Paulo Vinicius

Resenha: "Ghost World" de Daniel Clowes

Enid e Becca são amigas inseparáveis. Compartilham suas vivências e suas dúvidas uma com a outra. Mas, o fim da adolescência e a chegada da vida adulta pode colocar uma série de obstáculos para elas. Será que a amizade vai suportar todas as mudanças?



Sinopse:


Ghost World, uma das graphic novels mais vendidas e aclamadas de todos os tempos, conta a história de duas adolescentes incrivelmente irônicas e cheias de si que se veem diante da incômoda incerteza da vida pós ensino médio. Enquanto tentam conduzir sua longa amizade a uma nova era, as estruturas de sua relação são abaladas, e o que parecia ser um futuro de infinitas possibilidades aos poucos se torna uma intrusiva realidade que envolve shoppings, subempregos e memórias dissolventes. Ghost World é também um filme que recebeu, em 2002, indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.


Esta edição especial, com introdução de Daniel Clowes e recheada de extras incríveis, é imprescindível a qualquer estante respeitável de quadrinhos.






No final de 1997, eu terminava o meu ensino médio depois de inúmeros desafios. Foi um período de muito amadurecimento para mim. Após todo o cerimonial de entrega do diploma e as festividades, me vi diante de um problema: o que fazer agora? Muitos de nós quando chegamos ao ensino médio não temos ainda a maturidade de saber o que fazer, quais caminhos trilhar, se vai ou não fazer uma faculdade, um técnico ou entrar direto no mundo do trabalho. Essa é uma dúvida cruel e nem sempre temos essa resposta. Me recordo que eu travei nesse período. Ao longo de três anos, fiquei em um limbo em que não sabia se ia ou se ficava e como lidar com essas transformações. No final desse processo, acabei entrando para o mercado de trabalho e minha vida mudou radicalmente. Algumas de minhas amizades da época do ensino médio foram perdidas enquanto conheci novas pessoas. E essas perdas aconteceram de uma forma tão natural que chega a ser assustador. Os caminhos tomados simplesmente não combinavam. Por mais que nos esforçássemos para manter o contato, as visões de mundo mudaram. Pensando em perspectiva, não é algo do qual me arrependo porque estava fora do meu controle.


Por que fez todo esse preâmbulo doido sobre a minha vida? Porque é justamente disso que Ghost World trata. A história segue a vida cotidiana de Becca e Enid enquanto eles jogam conversa fora, saem juntas falando sobre os mais diversos assuntos e aprontam todas. Só que pequenas mudanças começam a ocorrer ao longo da narrativa que apontam para um momento de ruptura no futuro: o jeito reflexivo de Becca, o teste para uma faculdade de Enid, as escolhas amorosas, e a percepção se um sentimento de perda que parece estar mais próximo. Ghos World é formado por pequenos sketches que juntas compõem uma narrativa maior e junto com essas garotas vamos descobrir o que o futuro reserva para cada uma delas. Ao final nenhuma das duas vai permanecer a mesma; resta saber se a amizade delas vai resistir a essas provações.


Demorei um pouco para pegar Ghost World para ler. Porque eu tinha a convicção de que se trata de um quadrinho diferente de muita coisa que eu já li. E junto dele vem toda uma carga de uma HQ inovadora, porém underground que deixou uma influência duradoura na indústria. E é justamente isso. Se você está acostumado aos comics americanos, talvez mergulhar imediatamente na produção de Daniel Clowes seja assustador. Hoje eu tenho certeza de que fiz o caminho correto e tenho uma maturidade maior para ler essa HQ. Ela exige atenção e sensibilidade para compreender as mensagens deixadas pelo autor. A capacidade de perceber, no mundano, os pequenos detalhes e conexões. O roteiro é inteligente e aprofunda demais os personagens. Os acontecimentos podem parecer despropositados, mas quando juntamos todos eles em um quadro geral, somos capazes de analisar as mudanças, as rupturas e os questionamentos de cada uma das personagens. Ou seja, por trás de um zilhão de situações malucas e milhares de palavrões existem duas mulheres em formação.



Tenho que concordar com todos os que elogiam o trabalho do Clowes: os diálogos são inacreditáveis. E esse elogio vem porque eles são reais. Todos os diálogos de Ghost World são verossímeis. Ele consegue imitar muito bem o jeito como falamos. Até mesmo a forma difusa como os diálogos se sucedem. Um dos grandes desafios para um autor ou um roteirista é como simular um bom diálogo ao mesmo tempo em que a história avança. Quando conversamos com outra pessoa, não seguimos uma ordem lógica. Comentários aleatórios surgem no meio do caminho. Que podem ou não levar uma conversa para uma outra direção. Ler os diálogos do Clowes em Ghost World, a gente consegue observar essa insanidade no diálogo. Parece que as conversas entre Enid e Becca não levam a lugar algum, mas no fundo a gente consegue ver um direcionamento. Pequenas pontas são deixadas aqui ou ali. Às vezes, um assunto iniciado no começo da HQ só é retomado mais adiante quando uma delas puxa o tema de volta. Percebam como um simples detalhe, o enfoque em um diálogo verossímil, consegue ajudar tanto na construção de personagens quanto em dar uma individualidade para a escrita.


Falando das personagens, Enid é a típica garota que está buscando o seu lugar no mundo. Ela não se conforma com o comum. Seu desejo está em algo mais. Só que nem mesmo ela sabe que algo mais é esse. O jeito brusco de sua personalidade reflete essa dúvida acerca de si mesma. Enid busca a sua identidade e o seu papel no mundo. Para que esse jeito confuso dela não transpareça para sua amiga e aqueles que a cercam, ela criou em torno de si uma aura de rebelde. Ao longo da narrativa, Enid muda a sua aparência diversas vezes seja pintando o cabelo, trocando as roupas ou até usando um chapéu distinto. Há de se diferenciar a busca por sua própria identidade com chamar a atenção. Vemos isso em garotos e garotas dessa idade, que acabam sendo rotulados por pessoas mais velhas dentro do estereótipo do rebelde sem causa. Quando na verdade é apenas uma busca por si mesmo. É não se conformar com um título dado por quem não convive de verdade com eles ou quem apenas julga à primeira vista. Ao mesmo tempo, Enid tenta chamar a atenção para que alguém lhe aconselhe, lhe dê alguma pista do que ela pode fazer a seguir. Como é o caso de ela ir atrás de um astrólogo que ela conheceu em uma lanchonete.


Por outro lado, Becca está mais reflexiva na narrativa. Desde o começo sabemos que algo a incomoda. Ela e Enid são inseparáveis e a percepção da chegada de uma mudança iminente a deixa assustada. Pior, ela quer entender que sentimento é esse que ela sente por Enid. Será só amizade ou será que é algo mais? Em dois ou três momentos, ela se questiona se é lésbica. O que parece ser apenas mais um jeito irônico ou mais um dos diversos palavrões e frases malucas que elas dizem uma para outra, tem um componente real de dúvida. A personagem tenta entender qual é o papel de sua amiga em sua vida. Quando Becca descobre que Enid pretende fazer uma faculdade, ela se desespera porque sente que está sendo deixada para trás. Sua reação é de total revolta, o que balança a amizade entre as duas. Diferentemente de Enid, Becca sabe que não irá sair do lugar onde vive e não é porque existe algo impedindo-a; é mais porque ela não quer mesmo. Essa diferença de visão das personagens é o que vai fiar as suas escolhas.


No meio disso tudo temos outros personagens tão interessantes quanto. O pobre do Josh que é aquele melhor amigo que faz tudo por elas. E que nenhuma delas admite estar caidinha por ele. Mas, é o cara que está sempre ali quando elas mais precisam. Temos o John Ellis que é o típico conhecido da escola que acaba por se tornar um idiota completo. Representa os valores conservadores americanos. O ato de se aproveitar de alguém polêmico como escada para alcançar os seus objetivos. A garota da escola que faz tudo para conseguir uma vaga no mundo do show business. E que não se importa em entregar os seus princípios e chutá-los para o alto para isso. Ou até a do colega que era doidão igual à Enid e acaba sendo vencido pelo capitalismo selvagem e precisa abrir mão da sua rebeldia juvenil. Algo que choca nossa protagonista e mostra como são as regras do mundo.


Fica o meu destaque para a excelente edição da Nemo que é comemorativa do aniversário de 20 anos da HQ. Ela vem recheada de extras (recheada meeeeeeesmo.... com mais de quarenta páginas) repleta de sketches e material inicial de design de personagens e lugares, capas alternativas feitas para algumas comic shops americanas, relações da série com a Eightball (revista de quadrinhos underground onde Clowes era um dos editores), material de divulgação do filme à época do lançamento. Tem um forte material ligado ao quadrinho o que mostra a sua importância para o cenário de produção de HQs independentes. Tem também um ótimo prefácio escrito pelo Clowes em que ele comenta o impacto que Ghost World teve para a sua carreira e a inspiração para os seus personagens. Spoiler: muita coisa é autobiográfica.


O Quadrinho em 1 Quadro:



A arte do Clowes é bem diferente com esses tons de azul e preto. Dá um efeito bacana que mescla reflexão e melancolia. Passa uma impressão de espaços em transição que combina bastante com a história proposta. É uma arte que causa um impacto inicial bem grande por ser diferente de tudo o que estamos acostumados. Aliás, o Clowes foi a minha entrada para esse universo dos quadrinhos underground e não poderia ter começado melhor. Há uma preocupação com todos os aspectos do ambiente onde as cenas acontecem. Seja com pequenos easter eggs deixados aqui ou ali ou com como os cômodos refletem a personalidade e o humor de cada uma das personagens. O design de personagens choca um pouco no começo, mas depois o leitor acaba se acostumando e até gostando do traço. Gosto de como as personagens conseguem ser realistas, mesmo os mais malucos introduzidos por Clowes na história como o casal satanista. O homem me lembrou demais o Bryan Cranston em Breaking Bad. Outra característica importante é o quanto os personagens são expressivos. Sempre conseguimos saber que tipo de reação um personagem teve em determinado momento. Com personagens que escondem tanto os seus reais sentimentos, saber quando algo é uma brincadeira/ironia e quando significa algo mais sério é essencial para a compreensão do todo.



Ficha Técnica:


Nome: Ghost World

Autor: Daniel Clowes

Editora: Nemo

Gênero: Slice of life/Drama

Tradutor: Érico Assis

Número de Páginas: 144

Ano de Publicação: 2017


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