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Resenha: "Fruto Estranho" de J.G. Jones e Mark Waid

Em 1927, na cidade de Chatterlee, os ânimos entre brancos e negros estão acirrados. Um dique está prestes a se romper e a cidade pode ser completamente destruída. Em um momento crítico da história dos EUA, a chegada de um homem vindo do espaço vai fazer com que a cidade seja sacudida. Um alienígena negro com incríveis poderes. O Colosso. O Fruto Estranho.


Sinopse:


Na pequena cidade de Chatterlee, Mississippi, a Grande Enchente de 1927 não foi apenas a mais catastrófica enchente fluvial na história dos Estados Unidos. Foi a precursora da mudança. Enquanto o rio transbordante e as barreiras quebradas resultavam na devastação da antiga cidade agrícola por fora, tensões raciais e sociais a rasgavam por dentro. Mas quando um ser de outro mundo cai do céu e desafia tudo que essas pessoas divididas sabiam, as coisas se modificam para sempre. J.G. Jones (Procurado) e Mark Waid (Império, Reino do Amanhã) tecem uma poderosa e literária peça de ficção histórica com arte pintada que examina o mito heroico ao mesmo tempo que explora temas como racismo, legado cultural e a natureza humana.






Falar sobre preconceito nos EUA é um assunto bastante espinhoso. Conforme já vimos em filmes ou séries, a situação era complicada e algo que já vinha de séculos de colonização e de tráfico de escravos. Até hoje existem inúmeros problemas relacionados a assédio moral, bullying, preconceito escancarado que levou a movimentos como o Black Lives Matter. Neste quadrinho, J.G. Jones tocam na ferida, vão fundo nessa discussão. O resultado é uma história impactante, que parte de um tema real que foi a Grande Enchente do Mississipi de 1927 e cria um tema fantasioso em cima. Não esperava muita coisa do quadrinho e fiquei surpreso com o quanto ele não teve uma divulgação maior no Brasil na época em que foi lançado. Um bom roteiro com uma arte maravilhosa e um tema pertinente para o Brasil. Vamos falar um pouco mais dessa HQ aqui.


A história se passa em Chatterlee, às margens do rio Mississipi. Como qualquer estado do Sul dos EUA, a tensão entre brancos e negros é alta e os senhores de terra locais empregam compulsoriamente todos eles. Seus salários são bem ruins com péssimas condições de trabalho. A violência é varrida para debaixo do tapete já que não importa muito se negros morrem ou se machucam. O administrador local, um senador, mesmo sendo alguém progressista, é refém dos donos de terra locais além de seus próprios interesses políticos. A situação começa a complicar quando um agrônomo negro é enviado pela União e informa que o dique se segura as cheias do Mississipi está prestes a se romper. Justamente por ser negro, ele é ignorado e começa a despertar uma atenção ruim dos fazendeiros. Quando a coisa começa a estourar, alguns fazendeiros, que são membros da Ku Klux Klan, sobem em uma picape para arrastar os negros para colocar sacos de areia no dique. Muitos se recusam e Sonny, uma espécie de líder deles, os encara, gerando toda uma confusão que o leva a ser procurado implacavelmente pelos fazendeiros. Em uma terrível noite chuvosa, Sonny corre por sua vida, uma criança desaparece misteriosamente às margens do rio enquanto procurava seu cãozinho e um meteoro destrói o dique. Desse meteoro desperta um ser colossal, negro da cor do ébano e detentor de uma poderosa força. Esse furacão de acontecimentos irá despertar situações explosivas na cidade.


Parece muita coisa que mencionei no parágrafo anterior, mas isso se trata de apenas parte do primeiro capítulo. É para demonstrar o quanto o roteiro do Mark Waid é rico em detalhes. É possível contar muito a partir de pouca coisa. A ideia de pegar um acontecimento real e criar algo em cima que pode ou não ter vias de realidade foi genial da parte do autor. O efeito disso é um realismo maior. E aí é preciso pontuar que a história não é sobre o Colosso Negro, mas sobre a própria comunidade de Chatterlee, sendo que Sonny é o personagem que mais aparece. Vamos enxergar os problemas a partir dos olhos de Sonny. A narrativa consegue dar bastante espaço para que os núcleos de personagem sejam desenvolvidos e entendemos a motivação de cada um deles. Seja Sonny que só deseja viver uma vida decente, a herdeira da fazenda que é uma pessoa que trata adequadamente seus funcionários, o senador interesseiro ou os donos de terra violentos. Todos possuem algum papel na narrativa. Nada é deixado ao acaso. Achei só que algumas coisas a respeito do Colosso foram mal explicadas e a gente apenas consegue supor. Determinadas situações pela qual ele passa, Waid parece sacar um deus ex machina para cuidar de uma situação complicada, como o aparecimento de uma tecnologia curativa do nada. Curiosamente é mais o aspecto alienígena da história que às vezes parece... alienígena à história.


A arte de Jones é maravilhosa. Toda baseada em um fotorrealismo de cair o queixo, Jones entrega paisagens vivas e repletas de dinamismo. Tudo brilha e isso vem muito do emprego de uma palheta de cores clara, puxada para tons terrosos. É curioso Jones usar esse tipo de tonalização se pensarmos que parte da HQ acontece em momentos de chuva, com trovões e tempestades. Ou seja, tem vários momentos nos quais a narrativa acontece em cenários escuros. A quadrinização segue o padrão com 6 ou 8 quadros por página, mas Jones dá uma variada de vez em quando, seja mudando a orientação ou colocando cenas de página inteira. A impressão que dá é que ele nunca perde a atenção do leitor porque quando começamos a nos acostumar com os quadros de página, ele altera alguma coisa momentaneamente. As páginas são carregadas de intensidade e emoção, perceptíveis na expressão dos personagens ou em sua posição em tela. Por vezes algumas cenas na cidade me fizeram pensar na arte de Alex Ross em Marvels. Tem uma cena específica com o Colosso passeando pelo centro da cidade e indo em direção à biblioteca com várias pessoas olhando que me lembrou o capítulo de Marvels em que Ross mostra o deslumbramento dos seres humanos diante de seres magníficos. A intenção de Jones é mostrar esse deslumbramento ao contrário, denotando assombro e medo diante do desconhecido.


É impossível não mencionar as tensões locais na cidade. Esse é um país diferente daquilo que vai ser daqui a alguns anos durante os momentos mais quentes da luta pela igualdade racial. Estamos na década de 1920 com uma sequência de presidentes republicanos e conservadores, sendo o que aparece na HQ Hoover, responsável por levar os EUA à crise de 29. Um momento de intensa especulação imobiliária onde terras valiam ouro e todos queriam valorizar as suas para obter um alto preço de venda. No sul, as tensões raciais continuavam e a existência de uma entidade como a Ku Klux Klan tida como normal. Seus membros eram pessoas com grande poder aquisitivo e chegavam a mandar em prefeituras locais. Mesmo com alguns membros da comunidade ficando incomodados, sua penetração nas políticas locais era evidente. Dá para perceber o quanto o senhor Pinkster tinha um grande poder local, mesmo quando o senador, que era para ter mais poder do que ele, se sentia claramente afetado por suas loucuras. No meio de tudo isso temos uma população negra que começava a despertar como grupo e desejava melhores condições de vida. Isso provocava enfrentamentos sérios com mortes acontecendo. Aquela cena de Pinkster e seus amigos entrando armados em um "bar para negros" era mais comum do que se imaginava. Restava a eles apenas resistir e sofrerem algum tipo de violência mais séria ou capitularem e fazerem o que lhes era mandado. As condições de trabalho eram de fato ruins e não havia uma legislação trabalhista clara neste momento. Vamos pensar que se tratava de um trabalho perigoso que envolvia estar em um local ameaçado de enchente.


O aparecimento do Colosso é uma clara referência ao surgimento do Superman, descendo em uma nave vinda do planeta Krypton e sendo recebido pelos homens como um ser "maravilhoso". Aqui Jones provoca com uma espécie de "superman negro", só que alguém que não consegue se comunicar com os seres humanos, usando de uma linguagem matemática para tentar passar suas ideias. Os negros de Chatterlee o enxergam como um símbolo, mas também não conseguem compreendê-lo. Suas ações estranhas acabam entrando em consonância com aquilo que eles desejam. Os homens brancos enxergam no Colosso uma ameaça aos seus interesses. Ninguém consegue saber qual o propósito da vinda do alienígena para a Terra. Ele apenas acaba sendo usado por algum dos lados da questão. Se pararmos para pensar, nem mesmo aqueles que deveriam estar junto do Colosso não foram capazes de decifrar suas reais motivações. Me pego pensando que mesmo entre aqueles que compartilhavam de sua representação étnica, o Colosso era uma ferramenta e não uma pessoa; um símbolo e não um indivíduo. Não sei se isso foi algo proposital na prosa de Waid.

Mesmo com o Colosso representando uma ferramenta de luta da comunidade negra, é Sonny o seu líder. Sendo um agitador, ele tirava as pessoas do lugar comum e as fazia pensar no que realmente queriam para si. É claro que ele mesmo não era a pessoa mais corajosa até porque seu objetivo final era mais egoísta do que comunitário. Ele se transformou depois nesse líder, principalmente quando precisa lidar com uma escolha moral importante que define o seu caráter. Um dos diálogos mais contundentes da HQ é o que ele tem com a herdeira. Ela ajuda os seus empregados porque tem um bom caráter ou apenas para salvar sua consciência? Todas as suas terras foram construídas com o suor do trabalho de empregados negros, então se torna complicado ter uma visão condescende. É muito semelhante à velha discussão sobre cotas raciais no Brasil. O que não se compreende em muitos casos é que existe uma dívida histórica a ser paga além das imensas dificuldades para que um homem ou uma mulher negra possam ocupar espaços de trabalho. Existe toda uma distorção social que, por melhor que sejam as intenções, existe um desgosto que é reforçado diariamente.


Fruto Estranho é uma bela história com um roteiro bastante provocativo. Waid foi fundo na temática racial e conseguiu puxar algumas reflexões existentes até os dias de hoje. Usar um desastre natural importante na história americana como mote para uma história fantástica foi inteligente e produziu um resultado bem interessante. Os personagens e as situações remetem a questões como o preconceito e a violência que estão nas raias da sociedade ainda hoje e que, através de uma história como essa, podem ser levadas ao alcance de todos. A arte de J.G. Jones está magnífica com detalhes fotorrealista e uma arte brilhante que encanta os leitores. Uma quadrinização bem executada também constrói um todo bastante coerente. Quadrinho altamente recomendado.











Ficha Técnica:


Nome: Fruto Estranho

Autor: Mark Waid e J.G. Jones

Artista: J.G. Jones

Editora: Mythos

Tradutor: Bernardo Santana

Número de Páginas: 132

Ano de Publicação: 2018


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