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Resenha: "Francis" de Loputyn

Prestes a fazer uma importante prova contra sua melhor amiga, Melina não consegue se concentrar para treinar e fazer seus preparos. Ela prefere beber e curtir e quando se dá conta está às vésperas do dia fatídico. Em um ato de desespero, ela invoca um espírito chamado Francis para ajudá-la. Mas, a raposa não parece estar nem um pouco interessada em ajudar.


Sinopse:


Uma bruxa e uma raposa sobrevoam uma floresta. Lá do alto, pouco antes de traçarem seu destino inevitável, elas admiram os contornos do Monte Orfano, uma montanha verdejante que esconde mistérios em cada canto. Juntos, elas criam caos e liberdade, mas até onde podem ir antes da escuridão as alcançar? Reserve um canto especial na estante e separe os melhores ingredientes na bancada. Ao lado da talentosa quadrinista italiana Jessica Cioffi, que atende pelo nome mágico Loputyn, prepararemos uma poção que vai abrir os caminhos mais sombrios dos corações dos leitores da DarkSide Books. E tudo começa com uma raposa. Anote aí para não esquecer: seu nome é Francis. Espírito traiçoeiro que reside em cada átomo da montanha, Francis vive em completa solidão. Ao ser conjurado pelos poderes latentes da bruxa Melina, em uma união favorável do destino (ou não), Francis ganha um corpo físico na forma de uma raposa despenteada e uma missão: ajudar a garota na prova mais importante de sua vida para que ela não fracasse. Não demora muito para que Francis questione seus desejos e escolhas, e logo as personalidades mesquinhas e egoístas de ambas entram em sintonia. E, de repente, quebrar mais um pouquinho as regras não parece algo tão errado assim para Melina… Francis é uma fábula encantada em que doçura e escuridão existem lado a lado. Com seu traço aquarelado, rico em tons pastéis, Loputyn apresenta uma aventura fascinante com elementos mágicos e mostra que todos temos luz e trevas dentro de nós. Com um estilo que referencia a moda lolita e faz o leitor mergulhar em um sonho quase etéreo, Francis é uma história sobre entender que sua trajetória pode não ser aquela que você imaginava, e como descobrir sua identidade é um processo tão íntimo que magia alguma pode acelerar ou alterar. Francis é o quadrinho perfeito para os fãs da série Sabrina, da saudosa revista W.i.t.c.h, mangás da CLAMP e os livros da linha DarkLove. E Loputyn, um talento para admirar e acompanhar. Uma fábula para folhear muitas e muitas vezes, apenas para ter mais um gostinho desse mundo de sonhos, pois cada quadro é um espetáculo à parte. Uma verdadeira conjuração da DarkSide Books diretamente para você. Pronto para mergulhar no mundo sombrio de Francis e beber suas poderosas poções?






Já se sentiu incomodado com os rumos que sua vida está levando? Aquela necessidade de não se encaixar dentro de um grupo, em suas normas e convenções? Pois é, Loputyn nos traz uma história com alguns tons de contos de fadas só que em suas vertentes mais sombrias, e nos traz a história de Melina, uma jovem bruxa que precisa fazer uma prova que a colocará frente a frente com Camélia, sua melhor amiga e uma aluna exemplar. Só que Melina é qualquer coisa menos exemplar. Gosta de farrear, beber e curtir a vida do seu jeito. Não é muito ligada em relações sociais e prefere ficar curtindo sua própria vibe. A prova é daqui a algum tempo e, mesmo após o apoio de Camélia, que deseja o melhor para ela, Melina decide adiar sua preparação e estudos. O dia da prova se aproxima perigosamente e nada de Melina estar pronta e o desespero finalmente bate depois de uma noite de ressaca. Ela decide então invocar um espírito para poder ajudá-la e conhece então Francis, um espírito inconstante que se fixa em uma raposa. Melina comemora seu sucesso, mas suas preocupações retornam bem rápido quando ela se dá conta de que a raposa não deseja ajudá-la nem um pouco.


Esse é o roteiro dessa bela história escrita por Loputyn e publicada no Brasil em uma edição bem luxuosa pela DarkSide Books. Simplesmente amei essa edição com uma capa que remete aos contos de fadas, mas um toque meio sombrio na fotografia de Melina. É um quadrinho em capa dura com as bordas arredondadas, o que dá todo um charme à parte para a edição que é em tamanho americano. Quanto ao papel, posso estar enganado porque não há nenhum indicativo na HQ, mas me parece ser um off-white. Mas, a textura dele é tão gostosa e as páginas preenchidas com as cores da Loputyn, que, por um minuto, eu não iria me referir a ele como papel linho (que só me lembro de ter visto uma vez em uma HQ chamada Luz que Fenece). Tive que passar a mão no papel e ver se as partes rugosas que apareciam nas páginas existiam mesmo. Mas, não. Creio ser só um off-white mesmo e a arte ser tão bela que passa essa impressão. A tradução foi feita por Maria Clara Carneiro e está bem legal. As frases estão tranquilas de serem lidas e a HQ nem tem tanto texto assim. De toda forma não peguei erros ou problemas nesse sentido. No final tem uma minibio da autora contando um pouco sobre a carreira desta desconhecida, até então, personalidade do mundo dos quadrinhos.


O roteiro da Loputyn bebe bastante dos contos de fadas cautelares de outrora. Nada da versão light a qual estamos acostumados, mas aquelas histórias que envolviam bruxaria, maldições, paganismo. A história é contada em três atos que são bem amarrados e entregam a história de ponta a ponta. Meu único problema é que o final da narrativa dá uma impressão muito sólida de que haveria uma continuação e não há nenhum indicativo da autora nesse sentido. Sabe quando o final é tão aberto que chega a gritar continuação? É esse o caso. Acho que dava para dar um desfecho para a história, encerrando um ciclo sem fechar as portas para uma continuação. A história é sobre a Melina, e não sobre o resto do coven de bruxas que ela vive. Portanto, realmente não faz sentido investir tempo contando sobre a história de outras bruxas ou de como é a convivência. A opção da Loputyn em centralizar o roteiro em uma personagem foi acertada. Porém, preciso pontuar que ela poderia ter explorado melhor a relação entre Melina e Camélia. Ela é abordada no primeiro capítulo, mas depois se torna só uma personagem no ar, a rival a ser abatida. Por isso que o clímax foi menos emocionante do que deveria ser, na minha visão.


A arte da Loputyn é bastante elegante. Não se enganem pela fofura das personagens: elas conseguem ser bem sensuais quando assim desejam. Esta é uma história de bruxas, então há uma mistura de ingenuidade, mistério e sedução no meio. Isso é representado bem pelo lápis da autora. Há uma clara influência da arte japonesa dos mangás, na maneira como os rostos e as expressões são empregadas. Até uma certa simplicidade nos traços, aliado à arte europeia de linha clara, visando ilustrar sensações e sentimentos a cada quadro. A quadrinização gira entre dois e cinco quadros, com algumas páginas contendo imagens cheias como a do quadro acima. Percebo que a autora usa os quadros como uma representação de momentos da história em seu sentido mais básico. Muitas vezes pensamos os quadros como sequenciais, mas Loputyn os pensa como fotografias no espaço. Existe uma sensação de movimentação sim, mas ao que me parece, é como se esses momentos dissessem alguma coisa ao leitor. Seja a movimentação do espírito da raposa, um momento em que Melina olha para o céu ou um close da estufa de Camélia. Aliado a isso, a autora é bastante econômica nos diálogos, tendo diversas páginas sem balões. Isso permite à arte respirar com mais intensidade e contribui para passar essas sensações ao leitor.


Apesar de ter toda essa aura de bruxaria e fantasia, o roteiro básico não poderia ser mais comum: uma garota que não se encaixa no lugar em que se encontra. Ela não se adequa às regras, às necessidades e aos padrões e, com isso, se sente uma pessoa excluída. Seu comportamento sequer combina com o de suas colegas. Isso faz com que ela represe muitos de seus sentimentos. Esse acúmulo a torna uma pessoa insegura a respeito de si mesma. Enquanto sua amiga Camélia está toda empenhada em passar na prova, Melina não vê sentido naquilo tudo. A gente pode falar que ela procrastinou suas tarefas e por isso não teria o necessário para passar na prova, mas será que ela sequer cogitou em se empenhar para isso? Ou era só mais uma maneira de buscar se encaixar naquele grupo. Quando ela invoca a raposa para ajudá-la, o espírito ancestral logo percebe que quem não quer passar na prova é a própria Melina. Por isso que ele não acha importante ajudá-la. Com essa insegurança, vem a síndrome do impostor, já que a bruxinha se sente incapaz frente à sua amiga, tão mais competente. Só que o que a raposa tenta passar para ela é que Melina esconde sim um grande poder, mas isso é limitado pelo que ela acha sobre si mesma.


O que significa realmente ser livre? Essa é uma outra discussão que é um desdobramento do que mencionei no parágrafo anterior. Melina se sente presa por regras e atribuições que ela não deseja. Por outro lado, Francis é um espírito que foi aprisionado pelo receio de outra bruxa. E aí está a questão: ele foi aprisionado por ser uma criatura capaz de realizar atos malignos bastante perigosos. Só que Francis é apenas alguém honesto consigo mesmo. Ele faz aquilo que o seu instinto diz que deseja. Pode ser algo bom ou mal, austero ou egoísta. Quando Melina sofria por suas falhas, sentada na floresta, Francis aproveitava para brincar e caçar insetos. Esse grau de autenticidade é o que faz de Francis alguém bem resolvido e capaz de compreender Melina. Somente quando Melina decide pôr seus reais sentimentos para fora, há uma sensação de alívio. Ao mesmo tempo, isso faz dela alguém incapaz de viver junto daquelas pessoas, dado o grau de volatilidade dela. A gente até pode argumentar que Camélia, com seu jeito doce e gentil demais, tenha contribuído para que Melina se limitasse e retraísse. Para Camélia seu ato era honesto, mas sua amiga poderia compreender como condescendência. Tudo é uma questão de ponto de vista.

Francis é uma boa HQ que coloca em questão noções como amizade, liberdade e auto-estima. Nos faz pensar o que nos leva a nos adaptarmos dentro de um grupo social e se realmente vale a pena nos limitarmos em prol da convivência. Não é que ela incentive essa busca hedonista, mas nos coloca para pensar a respeito. Esse questionamento sobre liberdade e livre-arbítrio é algo que passamos a vida inteira tentando responder para nós mesmos. A arte da Loputyn é belíssima e reflete a globalização que existe hoje acerca da arte empregada pelos autores de quadrinhos. É possível ser um produto de várias influências distintas sem perder aquele toque de identidade própria que faz com que um artista entregue um trabalho que merece ser analisado. Espero poder ver mais trabalhos dessa autora no futuro.












Ficha Técnica:


Nome: Francis

Autora: Loputyn

Editora: DarkSide Books

Tradutora: Maria Clara Carneiro

Número de Páginas: 96

Ano de Publicação: 2019


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