• Amanda Barreiro

Resenha: "Everless - Prisioneiros do Tempo e do Sangue" (Everless vol. 1), de Sara Holland

Com o pai cada vez mais debilitado, Jules se vê obrigada a buscar meios para a sobrevivência de ambos. Servir em Everless parece ser sua melhor opção.



Sinopse


No reino de Sempera, os ricos controlam tudo – até o tempo. Desde a era da alquimia e da magia, horas, dias e anos são extraídos do sangue e vinculados a moedas de ferro. Agora, aristocratas como a família Gerling prosperam por séculos, enquanto os pobres sangram até morrer.

E ninguém guarda mais rancor deles do que Jules Ember. Uma década atrás, ela e seu pai eram serviçais em Everless, a propriedade feudal dos Gerling, até que um fatídico acidente os obrigou a fugir. Agora, desesperada para ganhar mais tempo, Jules precisa retornar a Everless em meio às preparações para o casamento de Roan, o mais jovem Lorde Gerling, com a filha da Rainha.

Entre a inesperada bondade de Roan, a crueldade de seu irmão Liam e os terríveis rumores que rondam a Rainha, Everless traz mais tentações – e perigos – do que Jules jamais imaginou. As histórias de sua infância começam a ganhar outro significado, revelando um passado que ela mal reconhece e uma rede de nefastos segredos que podem mudar o seu futuro – e o curso do próprio tempo – para sempre.

Fãs de Victoria Aveyard, Kendare Blake, Stephanie Garber e Sarah J. Maas vão se surpreender com a ação, o romance e as intrigas dessa deslumbrante narrativa.



Everless - Prisioneiros do Tempo e do Sangue


No reino de Sempera, uma antiga lenda sobre a Feiticeira e o Alquimista é passada de geração em geração, sempre mencionando como o Alquimista enganou a Feiticeira e a transformou em um ser mortal ao ligar o sangue ao ferro e ao tempo. Assim surgiram as moedas de ferro-sanguíneo e toda a mitologia de Everless.


O jargão “tempo é dinheiro” nunca foi tão literal: Sara Holland abusa do clichê para criar uma trama angustiante onde todo segundo pode significar um momento decisivo nas vidas de pessoas que trabalham para ter tempo de vida, e gastam tempo de vida para trabalhar. O sangue é a moeda de troca mais cruel. Por conta disso, um dos principais pontos positivos da história é a agilidade da leitura. A escrita é fácil, leve e aposta em narrar os diversos acontecimentos divididos em capítulos escritos em um fôlego só, poupando tempo ao deixar de lado detalhes e grandes explicações. As informações necessárias ao leitor vão sendo apresentadas ao longo da trama por conta das descobertas feitas pela própria protagonista, Jules.


A crítica ao modo de vida selvagem imposto pelo capitalismo, nesse caso com a metáfora do sangue, ou tempo de vida, é muito boa e bem afiada. Nos faz questionar, durante a leitura, a rotina exaustiva de trabalhar para sobreviver, sem descanso, sem lazer, sem conseguir ter tempo para desfrutar dos diversos prazeres acessíveis só aos mais privilegiados. Não seria essa uma forma de “sangrar tempo” também?


A narrativa se dá em primeira pessoa, então a visão do leitor é bastante limitada quanto ao world building. É possível entender a existência de outros reinos, mas, como os habitantes de Sempera são proibidos de sair do território (recurso bastante providencial para que não haja a necessidade de uma construção muito profunda do cenário), o leitor fica apenas com aquelas poucas informações reveladas gradualmente. Jules também desconhece muita coisa, tendo sido criada numa espécie de bolha de proteção pelo amor e devoção de seu pai, mais um motivo para o pouco acesso a qualquer informação sobre Sempera, sobre a Rainha, sobre Everless ou até mesmo sobre a lenda da Feiticeira e do Alquimista.


Tantas limitações, ao mesmo tempo se provando úteis à fluidez do texto, também acabam por confundir o leitor e deixam a impressão de estarmos lidando com uma protagonista ingênua demais, até mesmo boba. Não posso deixar de mencionar também a falta de informações deixando lacunas na história e revelando alguns furos no roteiro e situações pouco plausíveis. No entanto, esses problemas não chegam a prejudicar completamente a narrativa, que se salva, sobretudo, pela capacidade da autora em criar uma atmosfera instigante e em conseguir manipular o leitor em alguns momentos. Muita coisa é previsível, até mesmo pela quantidade de clichês utilizados, mas mesmo assim o leitor é levado a ler avidamente apenas para confirmar teorias e fazer algumas descobertas realmente inesperadas.


Com relação às personagens, Jules é forte e faz o necessário para sua sobrevivência e para ajudar aqueles que ama. Mas é também muito influenciável, teimosa e inconsequente, ao ponto de irritar o leitor por suas atitudes levianas e desmedidas. O maior problema de Jules, na verdade, reside no príncipe de Everless, Roan Gerling. É impressionante como na maior parte do livro absolutamente todos os pensamentos de Jules convergem para o quanto ela o venera, o quanto ela anseia para ter um momento com ele. Se esse romance bobo tivesse sido deixado de lado, com certeza a história seria muito mais interessante e proveitosa. Me parece um desperdício de tempo – perdoem-me pelo trocadilho – e de páginas um enfoque tão sem sentido, quando a personagem está sempre correndo contra o relógio. E não é que eu seja contra romances! Apenas contra aqueles que não somam nada à narrativa.


Algumas das demais personagens são interessantes, na medida do possível, com algumas surpresas aqui e ali, mas a maior parte delas é bastante linear e previsível. Não houve um grande cuidado na construção delas. Outro problema é que muitas questões referentes a essas personagens são deixadas em aberto, sem pistas sobre o porquê de tal atitude ou sequer um destino para elas após aqueles acontecimentos. Imagino que o segundo livro tenha bastante coisa a esclarecer.


Everless, afinal, entrega o que promete: um entretenimento rápido, não muito profundo, mas certamente divertido, interessante e com uma mitologia muito boa, embora não tão trabalhada. Apesar dos defeitos, é fácil esquecê-los em face de uma escrita gostosa de se acompanhar. É um ótimo livro para sair de uma ressaca literária ou para voltar a ganhar ritmo de leitura.












Ficha Técnica:


Título: Everless - Prisioneiros do Tempo e do Sangue

Série: Everless vol. 1

Autora: Sara Holland

Tradução: Isadora Prospero

Editora: Morro Branco

Páginas: 368

Ano de lançamento (no Brasil): 2019


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Este livro foi cedido em parceria com a Editora Morro Branco.


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