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O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.

  • Paulo Vinicius

Resenha: "Estrela Imperial" de Samuel R. Delany

Cometa Jo cai com sua espaçonave em um planeta e é incumbido de levar uma mensagem (que ele não sabe o que é) até Estrela Imperial. O que veremos será uma jornada de autodescoberta e amadurecimento em uma história fascinante e repleta de mensagens importantes.



Sinopse:


A vida do jovem Cometa Jo muda com a queda de uma nave espacial. Seu moribundo ocupante entrega a ele uma joia e uma missão: levar uma mensagem para Estrela Imperial.


Mesmo sem saber qual a mensagem nem como chegar ao seu destino, Jo não recusa esta multiplexa jornada – e suas consequências mudarão o Tempo e o Espaço como o conhecemos.




Message in a Bottle



Deixa eu respirar antes de fazer esta resenha. Porque ela é difícil de se colocar em palavras. Estrela Imperial é um belo exemplo de como compor uma história que se autorreferencia. Escrever histórias cíclicas não é algo fácil. Desde a era dos grandes livros sagrados, muitos autores tentaram compor este tipo de narrativa. Mas, sempre ficam furos ou problemas de coerência narrativa. Isso faz com que a história tenha contradições ou situações internas fazendo o leitor entender a existência de algo não batendo. Delany consegue criar uma narrativa estruturalmente perfeita. A gente pode reclamar que a narrativa não é tão boa ou os personagens não são tão interessantes, mas a escrita é PER-FEI-TA.


Antes de mais nada, vamos tirar o elefante da sala. A narrativa é em primeira pessoa. E não é contada por Cometa Jo, mas por Joia, uma espécie de dispositivo inteligente que fica no bolso de Jo. Mas, como tudo nessa narrativa, nada é tão simples quanto parece. Isso porque Delany usa uma série de metáforas e prosopopeias ao longo da história. Coisas podem ter vida, objetos podem ser narradores. Assim como Babel-17, é uma leitura que vai exigir maturidade do leitor. Mas, no caso de Estrela Imperial o problema é mais grave porque estamos diante de uma escrita mais poética. Existe um cuidado do autor com o que ele está apresentando nas páginas. Cada parágrafo tem mais de uma interpretação possível. Os temas não estão claramente delineados. O tempo funciona até de forma diferente nessa narrativa. Lendo um artigo de Jo Walton sobre o tema (matéria em inglês, link aqui) ela chama essa dobra no espaço de tempo helicoidal. Basta eu dizer que assim que você terminar de ler, você vai querer reler para entender melhor determinados acontecimentos de um ponto de vista de eles já terem acontecido.


"Tenho uma consciência multiplexa, o que significa que vejo as coisas de diferentes pontos de vista. É uma função da série sobretônica no padrão harmônico de minha estruturação interna. Então, vou contar uma boa parte da história do ponto de vista que, nos círculos literários, é chamado de observador onisciente."

O narrador é totalmente não confiável. Isso porque Joia não vai te dar todas as informações naquele instante. E muita coisa vai ficar realmente incompreensível simplesmente porque o leitor não dispõe de todas as informações. E, tudo bem! Confie em Delany. Ele vai te dar as respostas assim que elas forem necessárias. Assim como Joia vai fornecer as informações para Jo quando achar que precisa. Esse tempo helicoidal provoca uma espécie de leitura de trás para frente. Por esse motivo, a primeira leitura vai parecer truncada e estranha. Esse é um livro que te obriga a relê-lo para esclarecer os pontos. E Delany faz isso de uma forma sensacional.

Cometa Jo vai passar por uma jornada de amadurecimento por toda a narrativa. Vamos ver que o personagem tem dificuldades para aceitar a si mesmo e qual é o seu papel no universo. Quando ele recebe a missão de levar uma mensagem até Estrela Imperial, ele sente que se tornou uma pessoa especial. Mas, com o passar do tempo, os acontecimentos vão colocando o personagem em perspectiva e fazendo com que ele ponha os pés no chão. Ou seja, esta não é uma jornada do herói, não temos um escolhido pelo destino. Delany quebra esse clichê ao nos colocar diante de um personagem que é comum. Sua mensagem vai ser importante a partir das lições que ele vai aprendendo. São as pessoas com quem ele interage é que vão lhe fornecendo pistas daquilo que ele deve realizar. Jo vai deixar uma marca indelével na vida dessas pessoas, não porque ele é sensacional, mas porque ele aprende algo com cada um. Se pararmos para refletir é quase como nossas vidas. Nenhum de nós é um escolhido; somos pessoas que vivem existências comuns. Mas, quando nos empenhamos em uma tarefa podemos deixar marcas na vida dos outros.


"Você é você, Jo. Você é você e tudo que absorveu, desde o jeito de você sentar por horas e olhar Ga'd quando quer pensar até o jeito que se vira um décimo de segundo mais rápido em reação a uma coisa azul do que a uma coisa vermelha. Você é tudo que já pensou, tudo que já esperou e tudo que já odiou também. E tudo que aprendeu. Você tem aprendido um monte de coisas, Jo."

Temos que falar sobre os LLL. São alienígenas responsáveis por terraformar planetas. Representam um recurso imprescindível para os seres que habitam a galáxia. Mas, para isso, se torna necessário escravizar os LLL. É curioso pensar que em nenhum momento Delany usa de violência ou tortura para representar a situação destes seres. Apenas que eles se tornam objetos e que os donos ficam tristes ao empregá-los. O autor está demonstrando que a escravidão vai além do fato de alguém ser violado e violentado. Afinal, escravidão é a perda da capacidade de ir e vir. E é isso o que estes seres deixam de ter: liberdade. Jo vai se ver envolvido na tarefa de libertá-los. Se ele vai conseguir ou não, aí já se trata de um outro assunto.



Senti que faltou um momento climático na narrativa. Não temos um grande acontecimento marcando o final, apenas as revelações sendo feitas. De um ponto de vista prático é como se a narrativa seguisse um ritmo suave e constante por todo o livro, o que é algo ruim. Normalmente, histórias costumam ter picos estruturais, com momentos de ápice e outros de declínio. Aqui não temos isso. A estrutura segue uma série de idas e vindas em que Jo chega até os lugares, conhece pessoas, descobre algumas coisas e depois segue em frente. Os personagens também não são cativantes. Eles são um meio para nos entregar a mensagem, como é a missão de Jo.


" [...] os únicos elementos importantes em qualquer sociedade são o artístico e o criminoso, porque apenas eles, ao questionarem os valores da sociedade, podem forçá-la a mudar."

Estrela Distante é uma narrativa mais madura de Samuel R. Delany. Ele dá uma aula de escrita para autores que buscam entender determinadas ferramentas mais avançadas. Temos um personagem desejando descobrir a si mesmo e o quanto ele pode fazer para mudar o mundo. Ele vai se ver envolvido em uma trama para libertar uma raça alienígena com a capacidade de terraformar planetas. Mas, no final da jornada, ele vai descobrir o quanto de si mesmo restou e o quanto ele evoluiu como pessoa.



Ficha Técnica:


Nome: Estrela Imperial

Autora: Samuel R. Delany

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Petê Rissatti

Número de Páginas: 114 (+279 de Babel-17)

Ano de Publicação: 2019


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*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco


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