• Amanda Barreiro

Resenha: "Entre Gravetos e Ossos" (Crianças Desajustadas #2), de Seanan McGuire

Antes dos eventos ocorridos no Lar de Eleanor West para Crianças Desajustadas, Jack e Jill viviam em seu próprio mundo: as Charnecas. Esta é a história delas.


Sinopse:

As gêmeas Jack e Jill tinham dezessete anos quando encontraram o caminho de casa e foram mandadas para o Lar de Eleanor West para Crianças Desajustadas.

Esta é a história do que aconteceu antes…

Jacqueline era a filha perfeita para sua mãe: educada e silenciosa, sempre vestida como uma princesa. Se às vezes a mãe era um pouco rigorosa é porque esculpir a filha perfeita exige disciplina.

Jillian era a filha perfeita para o seu pai: aventureira e corajosa, com roupas masculinizadas. Na verdade, ele preferiria um menino, mas é preciso trabalhar com o que se tem.

Elas tinham cinco anos quando aprenderam que não se pode confiar nos adultos.

Entre Jack e Jill


Mais uma vez vejo-me surpresa com a qualidade da escrita de Seanan McGuire. No segundo volume da série Crianças Desajustadas - um stand alone que aprofunda as personagens gêmeas Jack e Jill, já apresentadas em De Volta Para Casa - é possível perceber, dentre outras coisas, a evolução de uma autora.


Entre Gravetos e Ossos narra acontecimentos anteriores ao primeiro livro da série e foca sua narrativa na construção psicológica de Jack e Jill. As aventuras vividas pelas meninas nas Charnecas, o mundo que as escolheu e se transformou em seu verdadeiro lar, são exploradas com sensibilidade e abrigam questões humanas ainda mais monstruosas que as criaturas de lá.


Idênticas, mas tão distintas. Uma é corajosa, prática e inteligente; outra, sonhadora, irracional e vaidosa. Cada qual tem sua personalidade intensamente explorada e pormenorizada, denunciando uma infância de grandes ansiedades causadas por pais tóxicos e fúteis. A crítica à paternidade irresponsável volta com bastante força em Entre Gravetos e Ossos, onde entra em questão o quanto é difícil atender às expectativas dos adultos que tentam a todo custo moldar seus filhos e projetam sobre eles futuros, na maior parte das vezes, irreais, inalcançáveis e indesejados por aquelas crianças.


Os pontos mais fortes da narrativa de McGuire residem justamente na desconstrução das relações familiares e nas múltiplas camadas alcançadas por suas histórias, com personagens densos e reais. Nesses pontos, Entre Gravetos e Ossos mostra-se tão primoroso ou até mais imponente que De Volta Para Casa. Jack e Jill, antes superficialmente apresentadas, ganham vida e, ao avançar da história, percebemos as consequências de suas criações tomando forma em traumas e na complexidade do caráter de ambas. O paralelo que a autora traça com a realidade é muito bem construído. O papel social é outra discussão acertada na narrativa: Jack e Jill confundem tanto os demais personagens que as cercam quanto o próprio leitor ao distorcerem padrões e assumirem os estilos de vida que melhor lhe condizem, colocando em cheque o papel que deveriam, supostamente, assumir enquanto meninas perante a sociedade e, inclusive, na relação familiar.

A ambientação das Charnecas também é impecável: o castelo, a vila, o moinho de vento onde se localiza o laboratório e o mundo inóspito controlado pelo Mestre. Todos esses elementos são vívidos, como um filme sendo reproduzido enquanto lemos. McGuire tem um incrível talento de descrever sem se perder em descrições: a introdução ao mundo fantástico é feita da forma mais natural possível, com tanta informação quanto necessário, e nada a mais. Além disso, a própria dinâmica desse universo é muito bem elaborada, sem explicações complexas, valendo-se das referências já consolidadas na fantasia para aproveitar o máximo de tempo de leitura nos eventos narrados e não nas formalidades técnicas da escrita.


Por falar em referências, a autora utiliza-se muito bem do horror gótico e do clássico Drácula para construir os principais pontos de Entre Gravetos e Ossos, mas confere sua própria identidade a esses elementos, sem cair no clichê. É uma ótima estratégia em se tratando de uma novela, ou seja, uma história com menos espaço para desenvolvimento narrativo.


A já elogiadíssima escrita de Seanan McGuire encontra novos caminhos em Entre Gravetos e Ossos, buscando o contato com o leitor e permitindo a identificação deste com a narrativa e com a situação das gêmeas. A leitura é ágil, fácil e instigante. Minha única crítica fica por conta da minha própria expectativa ao esperar mais ação e mais detalhes sobre a vida nas Charnecas. Esse, afinal, não é o objetivo de Entre Gravetos e Ossos e também não chega a ser um defeito.


Assim como em De Volta para Casa, Seanan McGuire consegue, em poucas páginas, criar um universo cativante (a seu próprio modo), personagens vívidas e contextos muito reais. É fácil gostar de pelo menos uma das gêmeas, torcer, sentir raiva, pena, alegria ou tristeza pelos acontecimentos com cada uma delas. E esse é o grande trunfo da autora, que captura seus leitores e os fazem sonhar com mundos impossíveis e personagens incríveis. Entre Gravetos e Ossos merece – precisa! – ser lido.


"Há momentos que mudam tudo e, depois que isso ocorre, nada pode voltar a ser como era. A borboleta nunca mais pode ser uma lagarta."














Ficha técnica:


Título: Entre Gravetos e Ossos

Série: Crianças Desajustadas #2

Autora: Seanan McGuire

Tradução: Cláudia Mello Belhassof

Editora: Morro Branco

Páginas: 192

Ano de lançamento (no Brasil): 2019


Volumes anteriores:

De Volta Para Casa #1


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*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco


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