• Paulo Vinicius

Resenha: "Enraizados" de Naomi Novik

A cada dez anos, o Dragão escolhe uma jovem de 17 anos para passar dez anos em sua torre. Um sacrifício para a manutenção da paz e evitar a expansão do mal que vem da Floresta. Neste ano, tudo levava a crer que a talentosa Kasia seria a escolhida. Mas, Agnieszka acaba sendo levada...


Sinopse:


Agnieszka ama seu lar no vale, sua vila tranquila, as florestas e o rio cintilante. Mas a Floresta corrompida fica à espreita na fronteira, cheia de um poder maligno desconhecido. Seu povo depende de um mago frio e ambicioso conhecido apenas como Dragão para apaziguar a ira da Floresta e impedi-la de avançar sobre o vilarejo. Mas ele exige um preço em troca da proteção: a cada dez anos, uma jovem é entregue para servi-lo; um destino quase tão indesejado quanto cair nas garras da Floresta.


A próxima escolha está se aproximando rapidamente, e Agnieszka está com medo. Ela sabe — todo mundo sabe — que o Dragão vai levar Kasia: a bela, graciosa e corajosa Kasia, sua melhor amiga no mundo. E não há como salvá-la. Mas Agnieszka teme as coisas erradas. Porque, quando o Dragão chegar, não é Kasia que ele vai escolher.





A relação entre a fantasia e os contos de fadas sempre foi muito próxima. Desde as fábulas passando pelos contos cautelares até a chegada de Tolkien com seus épicos de proporções universais existia sempre essa interconexão entre os dois gêneros. Em Enraizados, Naomi Novik foi muito inteligente ao explorar essa conexão de uma forma sutil, mas não menos eficiente em uma história que mescla amor, união, respeito à natureza e feridas não cicatrizadas. Tudo isso aliada a uma prosa calma e detentora de uma lírica bem particular que lhe rendeu indicações a várias premiações.


Somos colocados em um continente que possui dois reinos: Polnya e Rosya. Eles são divididos por uma Floresta que possui uma espécie de vontade maligna própria. Nossa protagonista, Agnieszka, vive na pequena cidade de Dvernia em um vale no reino de Polnya. A cada dez anos, um mago conhecido como o Dragão escolhe uma moça de dezessete anos de uma das cidades do vale e a leva até a sua torre. Ao final desse período a moça retorna, mas não mais a mesma e geralmente ela abandona sua vila e segue sua vida para fora do sue lugar de origem. Naquele ano, Agnieszka fez dezessete anos e era uma das candidatas. Mas, por causa do seu jeito rebelde e sem muito recato, ninguém acredita que ela será a escolhida. Por outro lado, Kasia, sua melhor amiga, é considerada a moça mais bonita do Vale, doce, gentil, corajosa. Tudo leva a crer que ela será a escolhida e sua família se prepara psicologicamente para a perda de sua amada filha. Mas, o mundo tem das suas e Agnieszka é quem acaba sendo escolhida. Ela se vê precisando se adaptar a uma nova vida na torre do Dragão onde precisará aprender a conviver com o estranho mago...


"Há uma diferença considerável entre buscar a perfeição e ser irremediavelmente apressado."

É preciso dizer que a estrutura narrativa empregada por Novik se assemelha bastante ao usado nos contos de fada. A gente percebe aquele clima em que a magia está presente por toda a parte e que ela quase não tem limites, bastando a imaginação. O fantástico e o milagroso existe e se encontra por toda a parte. Cavaleiros e reis dividem espaço com camponeses e aldeões. A própria forma como Novik empilha tema por cima de tema se difere do que estamos acostumados a ver em romances de fantasia, o que pode causar um certo estranhamento no leitor. A narrativa emprega uma estrutura em primeira pessoa visto do ponto de vista da Agnieszka. Isso acaba por facilitar o nosso envolvimento com a personagem. Não se preocupem porque a personagem é bastante interessante, não chegando a incomodar em nenhum momento. Ela não é resmungona, ou chata... é aquela personagem tipicamente curiosa e aventureira, ou seja, mais um elemento na nossa listinha de características de contos de fadas.



Uma das coisas mais legais em Enraizados é a química que existe entre Sarkan e Nieshka. É muito divertido vê-los se cutucando o tempo todo. Eu até gostaria que a autora tivesse explorado um pouco mais esse lado já que a partir da metade da narrativa, ela acaba deixando isso para lá em prol de temas sérios. Não é preciso forçar o romance entre os dois na narrativa; muito pelo contrário, a gente acaba desejando que ele se desenrole logo. Afinal eles representam pólos tão opostos que só poderiam ser complementares. Por um lado Nieshka representa a imaginação e a rebeldia; por outro, Sarkan é a polidez e o estoicismo. As situações vão acontecendo de forma natural e se vai redundar em algo ou não você vai precisar ler o livro.


Os personagens de apoio também são importantes para a trama. Por exemplo, Kasia é o apelo da amizade de Nieshka. Ela começa como uma espécie de espelho/rival para ela. Representa tudo o que ela poderia ser e acabou não sendo. A perfeita, a prendada, a corajosa. Mas, a nossa protagonista enxerga depois outras qualidades na personagem tirando-a de um pedestal que ela mesma a colocou. Nesse sentido, Kasia ganha camadas que serão importantes com o passar da trama. Vai ser com ela que Nieshka vai desabafar. Ela será o porto seguro, a ligação da protagonista com sua pequena casa no vale.


"O poder da Floresta não é uma criatura cega com ódio; ela pode pensar, planejar e trabalhar em prol de seus próprios fins. Ela consegue ver dentro do coração dos homens e envenená-los."

Já o príncipe Marek vai nos apresentar o núcleo do reino de Polnya. Um filho cuja obsessão é resgatar sua mãe das garras da Floresta. A lendária rainha Hanna que fugiu com um príncipe e caiu vítima do local amaldiçoado e nunca mais foi encontrada. Dada como morta, embora seu corpo nunca tenha sido encontrado, Marek tem a obsessão de entrar na Floresta e resgatá-la, custe o que custar. Tendo se tornado um herói em diversas batalhas nas guerras de Polnya contra Rosya, Marek conquistou o respeito dos soldados e é o principal sucessor para o trono do rei. Embora muitos prefiram que seu irmão mais velho, com um temperamento mais ponderado, herde o trono. Quando determinados acontecimentos voltarem o olhar de Marek para a torre do Dragão, Marek encontrará uma possibilidade de conseguir aquilo que tanto almeja.



A magia funciona de uma forma bem livre no mundo de Enraizados. Ela depende muito da capacidade mental de seu invocador. O único empecilho é o desgaste físico que ela causa em seu corpo. E temos variações de como ela pode ser empregadas. Vou usar os exemplos apenas do Dragão e de Nieshka para não estragar as surpresas que o livro nos proporciona. O Dragão entoa seus encantamentos de uma forma bela e perfeita produzindo acordes magníficos. Isso é representado pelas suas vestimentas cerimoniais, criadas através de magia. Já Nieshka é um poder mais rebelde, como uma aventureira explorando a floresta. Sua magia é mais intuitiva e não segue regras ou manuais, podendo resultar em consequências imprevisíveis. Ou seja, nesse mundo a imaginação é a regra o que produz variações infinitas de como um feiticeiro pode ser e o que ele pode fazer.


A Floresta, o grande antagonista da narrativa, é uma enorme força natural. Aqui eu entro em um terreno perigoso porque posso acabar dando spoilers. Mas, basta pensarmos que o livro nada mais é do que a velha história do homem contra a natureza. Nós nunca imaginamos nos vegetais como uma força senciente. Sempre achamos que as árvores e as plantas estão ali paradas apenas pegando luz e produzindo energia. Mas, e se isso não fosse verdade? E se elas tivessem vontade própria? E se elas tivessem um desejo de vingança contra todos os males perpetrados pelo homem? Seríamos capazes de resistir? No fim, essa é a pergunta que Novik nos deixa em Enraizados, um livro que eu recomendo fortemente a todos.


"Era uma vez uma princesa dourada, que amava um simples artista; o rei lhes deu um casamento esplêndido, e a história acaba aí! Era uma vez a velha Baba Jaga, casa feita de manteiga; e naquela casa havia tantas maravilhas - tsc! A faísca foi embora, agora."










Ficha Técnica;


Nome: Enraizados

Autora: Naomi Novik

Editora: Rocco

Tradutora: Cláudia Mello Belhassof

Número de Páginas: 443

Ano de Publicação: 2017


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