• Paulo Vinicius

Resenha: "Engrenagens" de Fabiana Ferraz

Antero é um autômato construído a partir de peças reaproveitadas. Diferente de outros autômatos ele acaba desenvolvendo uma consciência e descobrindo que tem sensações estranhas quando está perto de Íris, a sobrinha de seu criador.



Sinopse:


Viver é melhor que sonhar.


Com peças usadas e longe de ser o melhor que a tecnologia tem a oferecer, a nova criação do professor está apenas começando a conhecer o mundo. Na nova noveleta da coleção ZIGUEZAGUE, Fabiana Ferraz nos permite debruçar sobre os belos e delicados pensamentos de Antero, um autômato ingênuo que tem a curta vida virada de ponta-cabeça pela chegada de Iris. Antero despertou, mas não sabe falar — Antero aprende. Antero está vivo, mas não sabe amar — Antero aprende.




Um autômato que desenvolve sentimentos não é uma temática exatamente nova. Mas, Fabiana Ferraz escreve uma narrativa doce e cálida sobre um ser artificial que se descobre detentor de consciência e sentimentos. Algo que o torna diferente de seus iguais. O que poderia representar um desenvolvimento, se torna uma prisão já que a pessoa pela qual Antero, o autômato, desenvolve sentimentos não pode amá-lo. A sua carcaça de metal é uma prisão em todos os sentidos do termo. Enquanto Antero tenta entender qual o seu papel em um mundo o qual ele desconhece, ele vai desenvolvendo várias nuances de seus sentimentos: da dúvida à incompreensão, passando pelo amor e adoração até os ciúmes. Essa história é uma verdadeira montanha-russa de emoções.


Engrenagens tem uma história envolvente e parte de uma narrativa em primeira pessoa para nos contar a história de Antero. A escolha por esse modelo de narrativa foi inteligente da parte da autora porque cria um vínculo imediato entre leitor e protagonista. O uso também de uma narrativa sensorial onde a autora transporta tudo o que o personagem vê, escuta e sente ajuda nesse vínculo. Torna a narrativa mais palpável. Podemos dividir a narrativa em duas metades: o primeiro trecho na espécie de laboratório onde Antero ficava e depois quando ele sai para o mundo. Essa primeira metade tem um tom claustrofóbico que sufoca o leitor, mostrando o quanto o mundo percebido pelo autômato era limitado. Sair para o mundo inicialmente provoca uma mudança de tom, mas este é rapidamente recuperado quando há a percepção de que pouco irá mudar de fato com essa saída.


No fundo é uma história vem triste. É aquele tipo de amor platônico realmente impossível de ser alcançado. O leitor se dá conta disso quando a situação nos é apresentada, mas a gente tenta se convencer do contrário. Que no fim o amor vencerá. Mas, cada novo desenvolvimento coloca um novo tijolo na parede que sela os sentimentos de Antero para com Íris. A personagem aparece como aquela luz no fim do túnel que ele tanto anseia. Cada vez que ela adentra na sala é como se o universo recebesse cores. Ser encarado como um objeto não só por seu criador como por outros ao seu redor também é cruel. Isso porque o leitor que está acompanhando tudo do alto sabe quando uma frase tem um outro significado diferente daquele que Antero compreende.



Não diria que o autômato fosse inocente. É só que a sua compreensão do mundo era limitada pela falta de dados. Tanto que em alguns momentos ele demonstra os limites do que ele seria capaz de fazer para ficar ao lado de seu amor. A autora consegue retratar bem essa falta de informações que ele tem acesso. Algumas de suas conclusões são completamente desprovidas de malícia ou apenas de profundidade. Ao tentar absorver o máximo de dados possível, Antero vai se dando conta pouco a pouco da falta de esperança de sua condição. É algo que vai acontecendo de forma progressiva e com o desenrolar da história. Se dar conta disso pode ser ainda mais doloroso para o personagem que tinha uma situação mais cômoda quando ele apenas não entendia o que o cercava. A compreensão lhe causa dor.


Meu porém fica na ambientação. Como se trata de uma história curta, algumas situações precisam ser o mais objetivas possíveis. Quando a autora se propõe a apresentar o mundo que o cerca apenas quando Antero é exposto a ele, a narrativa já se encontra no caminho para o seu encerramento. Achei legal que ela nos coloca em um ambiente steampunk, o que torna tudo muito mais curioso. Em um primeiro momento, imaginei que Antero fosse apenas defeituoso. Mas, não era o caso. Seu defeito vem da recauchutagem de suas peças. A apresentação da realidade visível acaba sendo apressada e estranha. Gente, a história se passa em um Rio de Janeiro retrô steampunk. Me dar conta disso me surpreendeu. Mas, assim como o autômato fiquei perdido e sem entender muita coisa. Isso agiu em detrimento da narrativa mais do que ajudou. Talvez especificar demais o contexto e oferecer todo um universo de informações não fosse necessário para o resultado final. Manter uma história intimista e fornecer apenas necessário teria redundado melhor.


De qualquer forma, Engrenagens é uma história linda e emocionante. Uma daquelas narrativas para você devorar em uma tarde de verão enquanto o sol se põe no horizonte. A história de Antero vai mexer com os corações dos leitores e nos fazer perguntar: o quanto um amor pode ser totalmente impossível? O amor é capaz de vencer tudo mesmo? Ou apenas queremos nos enganar com um discurso romântico? Bem, Antero nos mostra que talvez a jornada consiga abrir uma percepção maior sobre o que significa o nosso papel no mundo.











Ficha Técnica:


Nome: Engrenagens

Autora: Fabiana Ferraz

Editora: Plutão Livros

Número de Páginas: 52

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a Plutão Livros