• Amanda Barreiro

Resenha: "Encarcerados", de John Scalzi

Uma pandemia mundial afetou milhões de pessoas, deixando boa parte dos indivíduos encarcerados em suas próprias mentes. Uma investigação criminal pode reacender discussões sobre os encarcerados e seu lugar na sociedade.



Sinopse


Um vírus altamente contagioso, indivíduos encarcerados em suas mentes ativas e saudáveis, robôs inseridos na sociedade, um estranho assassinato em um quarto de hotel que vai revelar grandes conspirações políticas.


ENCARCERADOS, escrito por John Scalzi, é excitante, divertido, tem bons personagens, traz um universo cyberpunk e distópico bem construído e verossímil, que nos transporta para um futuro assustadoramente próximo. (E a gente achou que o Scalzi não conseguiria nos impressionar tanto depois de Guerra do Velho...).



Os Encarcerados e a Pandemia


Em tempos de pandemia mundial, nada mais que natural nos voltarmos para atividades contemplativos e introspectivos, como a leitura. A humanidade sempre se questionou sobre sua própria condição e questões como vida e morte, o sentido da vida, os mistérios do pós-morte e a fragilidade do corpo não são de hoje. Aliás, esta sequer é a primeira pandemia que o mundo precisa enfrentar, e dificilmente será a última. Extrapolar a realidade na arte para repensá-la pode não ser uma tarefa fácil, especialmente em um momento tão delicado, mas certamente pode lançar luz a tantos pormenores da nossa essência humana e da nossa relação com o mundo, com a natureza e com o outro.


Encarcerados não fala sobre a Covid-19, de certo, mas sobre a Síndrome de Haden. Uma síndrome consiste em vários sintomas sistêmicos observados em processos patológicos, que, na ficção de Scalzi, inicia-se com um leve resfriado e evolui rapidamente para um quadro respiratório comprometido seguido de meningite e, por fim, o encarceramento - ou aprisionamento - da mente do enfermo. Muitos não resistem ao processo e alguns poucos nunca chegam à fase do encarceramento - são os Integradores. Com um vírus tão contagioso, a Haden conseguiu se alastrar pela população mundial muito rapidamente, debilitando uma parte muito significativa desses indivíduos e causando enormes danos à toda a estrutura social que se conhecia.


Ainda que Scalzi não se detenha em demasia às consequências da Haden na problemática socioeconômica, não é difícil de se imaginar o que esse vírus seria capaz de causar. Os Hadens, como são chamados os portadores da síndrome, representam uma porção muito frágil da população, completamente dependente de cuidados médicos constantes, já que eles não têm mais acesso ao próprio corpo, e inaptos para o trabalho em muitas funções. Eles ainda conseguem socializar e trabalhar, sim, caso tenham condições de bancar um "robô" que se conecte à mente deles, mas o que dizer dos Hadens pobres?


Encarcerados segue o formato de thriller policial aliado à ficção científica, mas nem por isso deixa o pensamento crítico de lado. O que fazer com pessoas que dependem de ações sociais e do auxílio do governo para serem integradas à sociedade e, consequentemente, para que possam viver com dignidade? Scalzi fala de Hadens, mas poderíamos falar sobre os enfermos, os portadores de necessidades especiais e até mesmo sobre aquele grupo de risco que foi prontamente condenado à Covid-19.


Os Encarcerados de Scalzi


Não preciso nem falar muito sobre o autor. Seu mais proeminente trabalho publicado no Brasil é A Guerra do Velho, que o ascendeu rapidamente a um status de autor querido por aqui. A questão é que a escrita e a narrativa do Scalzi funcionam. Para ser mais clara: em Encarcerados, a proposta poderia assumir diferentes contornos, a depender da abordagem, e o direcionamento dado foi fundamental para garantir a agilidade da leitura e uma atmosfera positiva, bem-humorada, sem se deixar abalar pelo conteúdo perturbador e estranhamente próximo do nosso atual momento.


A trama de Encarcerados se inicia por uma nota explicativa sobre a Síndrome de Haden e já se movimenta para colocar o leitor no mesmo cenário que o agente Shane em seu primeiro dia de trabalho no FBI. A narrativa é feita em primeira pessoa na visão de Shane, e logo percebemos que ele é um Haden. As personagens principais não são muitas, mas todas são bem trabalhadas e lançam luz a alguma questão problemática a ser enfatizada ao longo do livro.


“Fazer as pessoas mudarem porque você não pode lidar com quem elas são não é o caminho. O que precisa ser feito é que as pessoas parem de olhar apenas o próprio rabo. Você diz “Cura”. Eu ouço “Você não é humano o bastante”.

Shane é um detetive iniciante, preocupado demais com a impressão que passa, mas disposto e otimista, ainda não contaminado pelo cinismo das autoridades de segurança. Já sua parceira, Vann, é uma veterana durona, impaciente e pouco apegada aos procedimentos. A dupla funciona muito bem e as acentuadas diferenças abrem um grande leque de atuação para os dois. Essa dinâmica fala muito sobre o diferente, o estranho, e a aceitação, a parceria, a cooperação independentemente de aparências, estilos de vida ou crenças. Mas, mais do que tudo, a dupla é divertida, carismática e eficiente.


As demais personagens que vão sendo incorporados à história e à missão principal de Shane fazem um excelente suporte e impulsionam a velocidade e o bom humor da narrativa. O trabalho de Scalzi em tornar os elementos o mais humanos e plausíveis possível é notado e muito bem-vindo.


A trama se move em torno de um estranho caso de assassinato envolvendo uma pessoa não identificada e, supostamente, um integrador. Mas nada parece certo e a investigação se enche de lacunas e pontos de interrogação. Ao mesmo tempo, o FBI tem que lidar com a maior onda de protestos de Hadens já vista, em razão do cancelamento do programa social do governo para apoio à inclusão dessas pessoas na sociedade. Sem o apoio, os Hadens não conseguiriam bancar seus transportes pessoais (os robôs) e poderiam, inclusive, perder acesso à Ágora (uma espécie de rede que conecta todos os Hadens para promover a socialização). Em resumo, é um péssimo momento para o agente Shane entrar na corporação.


Apesar de toda a questão tecnológica, Encarcerados é ambientado em um Estados Unidos muito próximo da nossa realidade, não tão high-tech assim, e centra-se principalmente em Washington D.C. Devido à própria natureza da história contada, Scalzi utiliza um vocabulário denso em programação e tecnologia, mas não o suficiente para afastar um leitor mais leigo na matéria (como eu), então é plenamente possível passar por cima disso e ter um ritmo avançado de leitura. Isso é muito propiciado, como já falei, pela dinâmica narrativa e leveza de escrita.


"Não é um protesto eficaz se não tirar as pessoas do sério."

Encarcerados tem uma proposta diferente e cativante, além de tocar em temas muito atuais e relevantes. É crítico, mas leve, e segue um posicionamento bastante sério e consciente enquanto procura aproveitar um humor sagaz para dar sentido a uma mensagem que reafirma a todo o momento o quão humanos nós somos e o quão iguais somos na nossa humanidade.






Ficha técnica:


Título: Encarcerados

Autor: John Scalzi

Tradução: Petê Rissati

Editora: Aleph

Páginas: 328

Ano de lançamento (no Brasil): 2018


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