• Paulo Vinicius

Resenha: "Em Algum Lugar nas Estrelas" de Clare Vanderpool

Em uma linda história sobre pessoas que perderam alguma coisa em suas vidas, Clare Vanderpool apresenta uma dupla de protagonista que vai aprontar todas. E no fim, será que eles encontrarão aquilo que buscam?



Sinopse: Em Algum Lugar nas Estrelas, da autora norte-americana Clare Vanderpool, é um romance intenso sobre a difícil arte de crescer em um mundo que nem sempre parece satisfeito com a nossa presença. Pelo menos é desse jeito que as coisas têm acontecido para Jack Baker. A Segunda Guerra Mundial estava no fim, mas ele não tinha motivos para comemorar. Sua mãe morreu e seu pai... bem, seu pai nunca demonstrou se preocupar muito com o filho. Jack é então levado para um internato no Maine (o mesmo estado onde vivem Stephen King e boa parte de seus personagens). O colégio militar, o oceano que ele nunca tinha visto, a indiferença dos outros alunos: tudo aquilo faz Jack se sentir pequeno. Até ele conhecer o enigmático Early Auden. Early, um nome que poderia ser traduzido como precoce, é uma descrição muito adequada para um prodígio como ele, que decifra casas decimais do número Pi como se lesse uma odisseia. Mas, por trás de sua genialidade, há uma enorme dificuldade de se relacionar com o mundo e de lidar com seus sentimentos e com as pessoas ao seu redor. Quando chegam as festas de fim de ano, a escola fica vazia. Todos os alunos voltam para casa, para celebrar com suas famílias. Todos, menos Jack e Early. Os dois aproveitam a solidão involuntária e partem em uma jornada ao encontro do lendário Urso Apalache. Nessa grande aventura, vão encontrar piratas, seres fantásticos e até, quem sabe, uma maneira de trazer os mortos de volta – ainda que talvez do que Jack mais precise seja aprender a deixá-los em paz.




Esse é um livro sobre pessoas que perderam alguma coisa durante suas vidas. Amigos, uma família, um filho, a honra, a dignidade. Em uma história muito bonita e poética, Clare Vanderpool nos fará olhar para as estrelas e buscar o sentido de nossas vidas. Ao mesmo tempo ela desenvolve um personagem brilhante em sua inocência.

Jack é um menino que perdeu sua mãe ainda muito novo. Seu pai, outrora um parceiro de todos os dias, voltou mudado após servir durante a Segunda Guerra Mundial. Aquele homem que o ensinou a ver as constelações no céu agora é um completo estranho. Para tentar dar uma boa educação a Jack, seu pai o matricula em uma escola de fuzileiros no Maine. Precisando se adaptar em uma escola só para meninos, Jack faz uma estranha amizade com Early Auden, um menino muito diferente e com hábitos curiosos: escuta um álbum de música específico por dia e criou uma história sobre o número Pi. Na mente de Auden, Pi é um menino que partiu de sua ilha distante e se perdeu. Um dia, Auden convence Jack a acompanhá-lo em uma jornada para ajudar Pi. E nessa jornada eles tocarão a vida de muitas pessoas.

Uma das coisas que mais chamam a atenção neste livro é a escrita poética da autora. Ela consegue criar descrições absolutamente sensíveis. A maneira como ela conduz a história e relata os pensamentos de Jack demonstram sua habilidade em compor cenas. Às vezes, costumamos reclamar quando um autor passa muito tempo descrevendo cenas e situações. Eu poderia ler por dezenas de páginas uma descrição da Clare sem me cansar.


“Às vezes, é melhor não ver todo o caminho que se estende diante de você. Deixe a vida surpreendê-lo, Jackie. Há mais estrelas por aí do que as que já têm nome. E todas são lindas.”

A construção de personagens também é muito boa. A autora não cria personagens sagazes e capazes de se livrar de qualquer situação. Nada disso... eles são meninos. E algumas de suas conclusões são típicas de um menino da idade deles. Jack é um garoto machucado pela vida e que quer distância de outros meninos. Seu comportamento mais distante reflete essa disposição. Auden é um garoto introvertido por causa de sua condição mental. Ele se revela um recluso, mas extremamente inteligente. A autora não diz que ele é um autista até porque o autismo não era considerado uma condição especial naquele momento. Meninos como Auden eram apenas afastados. Gostei muito da maneira como a autora apresenta as complexidades do pensamento de Auden. Em muitas oportunidades é ele quem ajuda o protagonista. Normalmente pessoas com condições mentais especiais são apresentados como pobres coitados. E não é isso que vemos aqui.

Não sei se isso foi impressão minha, mas achei a dinâmica entre Jack e Auden e as aventuras que eles vivem muito parecida com a de outros dois personagens clássicos da literatura norte-americana: Tom Saywer e Huckleberry Finn. A disposição para se aventurar, a jornada do crescimento e até mesmo a mentalidade ainda inocente e não formada por completo, reminiscentes da escrita de Mark Twain. Não sei se foi intencional ou até se estou imaginando coisas, mas esse foi o feeling que eu tive.



Outros personagens apresentados na trama são riquíssimos. O nórdico que se mete em batalhas e tudo o que ele deseja é rever o seu grande amor; o pirata que assassinou seu melhor amigo por acaso e agora não se perdoa pelo que aconteceu; e a senhora idosa já prestes a morrer que espera seu filho voltar para jantar uma última vez. É simplesmente emocionante a maneira como cada um desses personagens é representado na história. De uma sensibilidade que eu vi poucas vezes. O leitor se emociona com os problemas vividos por cada um deles. Todos perderam alguma coisa em suas vidas assim como os protagonistas. Apenas quando eles conseguirem encontrar aquilo que procuram é que eles serão capazes de ter alguma paz ou poderem seguir com suas vidas.


O enredo é simples e rápido. Não achei a história cansativa em nenhum momento. A autora sabe conduzir a história muito bem e um destaque vai para a história de Pi criada por Auden. Fascinante como esta metahistória se entrelaça com a jornada dos protagonistas. Os cortes na história acontecem nos momentos certos sem que a harmonia da história seja rompida. A ambientação também é muito boa; ver o Maine descrito por outra autora (umas férias do Maine de Stephen King) nos apresenta um lugar mais aconchegante e repleto de mistérios.

A edição feita pela DarkSide está primorosa. Segundo alguns fãs, a edição norte-americana não tem todos os detalhes da brasileira. O marcador de livros vem no formato de uma roda mostrando as músicas ouvidas por Auden. A folha de guarda está muito bonita também com detalhes dos símbolos das constelações. E a cada capítulo tem uma marcação desenhada das estrelas que compõem uma constelação específica. No final do livro tem uma entrevista feita com a autora e em seus agradecimentos ela explica como foi compor um personagem tão complexo quanto Auden. Além disso, a editora criou uma playlist no Spotify contendo as músicas ouvidas pelo menino. Descobri em pouco tempo que não conseguia mais ler sem ouvir a playlist.

Em Algum Lugar nas Estrelas é uma história muito bonita. Pode não agradar aqueles que esperam uma fantasia mais pesada ou um livro de terror. Aqui eu encontrei dois amigos dos quais eu gostaria de estar. Em uma escrita sutil e poética, Clare Vanderpool nos faz refletir se o que deixamos para trás deve realmente atrapalhar ou modificar quem somos nos dias de hoje. E até mesmo que, às vezes, devemos olhar para as estrelas para nos encontrarmos no universo.




Ficha Técnica:


Nome: Em Algum Lugar nas Estrelas

Autora: Clare Vanderpool

Editora: DarkSide Books

Gênero: Drama/Fantasia

Tradutora: Débora Isidoro

Número de Páginas: 288

Ano de Publicação: 2016


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