• Paulo Vinicius

Resenha: "Elfos vol. 1" de Jean-Luc Istin e Nicolas Jarry

Neste primeiro volume de Elfos temos duas histórias. Na primeira, Turin e Lanawyn vão investigar a morte de muitos elfos azuis na cidade de Ennlya. Na segunda história, a princesa Llali vai pedir ajuda aos elfos silvestres para defender seu povo contra a ameaça dos orcs.

Sinopse:


Cinco povos. Cinco histórias alternadas. Cinco incríveis equipes criativas. Elfos conta as aventuras de importantes figuras dos cinco povos élficos (azuis, silvestres, brancos, negros e meio-elfos) num mundo compartilhado, cada uma delas elaborada por equipes criativas diferentes. Este primeiro volume pelo selo Gold Edition reúne duas histórias completas da saga: O Cristal dos Elfos Azuis, em que a elfa Lanawyn e seu amigo humano Turin investigam o misterioso massacre de uma vila élfica, enquanto a jovem Vaalann passa por um perigoso teste para portar o Cristal Sagrado, artefato de incrível poder. Em meio a tudo isso, humanos de Yrlan e os elfos das águas estão à beira de uma guerra. A Honra dos Elfos Silvestres fala de um antigo pacto quebrado entre os elfos da floresta e os humanos, e sobre Llali, filha do rei de Eysine, que arrisca a vida para refazer esse acordo frente à ameaça dos orcs. Com a ajuda do elfo Yfass, ela descobre em si um poder capaz de salvar seu reino. Mas poderá essa dupla reatar o laço entre as raças a tempo de impedir uma tragédia?




O projeto pensado pela editora Soleil remonta aos RPGs: pensar um universo compartilhado em que raças clássicas como elfos, orcs e anões atuam. Só que ao invés de termos humanos como protagonistas, são essas raças que ficam no palco. Por enquanto, a Mythos está testando a série Elfos para ver como vai ser a receptividade do público brasileiro. Pelo burburinho que o livro fez no mês de lançamento, acho que a editora deve publicar mais coisas.

Comecemos pela edição brasileira da Mythos. Extremamente luxuosa e seguindo o padrão de capas da Soleil. Achei elegante e se eles mantiverem esse padrão vai dar um destaque legal na estante. Parece que em cada volume é um elfo em destaque; neste primeiro volume é um elfo silvestre e na parte de trás da HQ aparece uma elfa azul. O elfo e o título estão envernizados. O tamanho segue o padrão europeu (relativamente maior que o americano) com 32 x 23. O papel usado é couché de alta gramatura o que dá uma impressão para o leitor de que a HQ tem muitas páginas. Achei legal mesmo. Só vou deixar uma sugestão para a Mythos (que eu não sei se é possível realizar por conta dos direitos de publicação da Soleil): como não tem extras na edição, a Mythos poderia pedir para algumas pessoas ligadas ao universo do RPG que escrevessem matérias sobre os personagens da edição ou curiosidades. Daria um material muito maneiro e bem específico do Brasil. Tipo, pedir a um Leonel Caldela ou a Karen Soarele para escrever algo já que eles são tão ligados à escrita de romances nesses moldes, só para usar um exemplo.

Os roteiros são muito bons, mas devo admitir que gostei mais do primeiro que do segundo. São duas histórias fechadas, ou seja, os leitores podem ler tranquilamente sem medo de continuidade. Na primeira, o autor é bem habilidoso ao mesclar um gênero investigativo com a busca por uma relíquia. Istin constrói bem a tensão na trama e temos um belo plot twist no final. Duas narrativas que correm em paralelo e convergem para um final espetacular. Já na segunda história, Jarry apresenta uma princesa em busca de ajuda para salvar o seu povo. No começo, o autor emprega uma narrativa em flashbacks. Isso para mostrar como Llali chegou ali. Depois temos uma trama com traição e jogo de poder. Achei a história mais fraca e não consegui me envolver muito com o drama de Yfass.

Temos dois artistas distintos e um mesmo colorista nas duas edições. Kyko Duarte tem um traço mais redondo e ressalta mais as curvas dos personagens. Pelo design dos personagens a gente consegue perceber as formas redondas e os traços angulares do artista. Ele consegue passar bem a distinção entre Lanawyn e Turin. Enquanto Lanawyn é uma elfa com traços corporais mais finos, Turin é um humano com aspecto mais sujo. Algumas das cenas com personagens que eu gostei foram os da corte de Rinn. Ele consegue criar um ambiente com vários personagens distintos, com expressões faciais específicas e estruturas corporais diferentes. O mesmo acontece no final quando os elfos azuis se reúnem para uma celebração. Kyko também consegue criar ambientes de fundo incríveis. Logo na segunda página, temos a cidade de Ennlya em um plano aberto muito bonito; Os pilares de Laazas também são deslumbrantes e tem uma clara inspiração nas pedras de Stonehenge. Até o kraken que é colocado como obstáculo para Vaalann. Já na segunda história, Maconi prefere um traço mais expressivo para os personagens. Ele trabalha mais com o gestual e com os olhares para passar as emoções. Gostei de como ele fez o design de personagens e o colorista optou por uma palheta de cores mais puxada para o verde e para o marrom (diferente do primeiro onde predominava o azul). Entretanto, é fato que a primeira história chama mais atenção dada a qualidade do desenhista. Mas, vale destacar as cenas de batalha que são bem feitas (sem passar aquela confusão típica de cenas de luta) e tem alguns detalhes bacanas como o visual do topo das ameias do castelo com os equipamentos de cerco dos orcs à distância.

"Se pudesse escutar a energia viva do mundo se dissipando e as vozes da terra ressoando em sua alma, você perceberia a ilusão em que seu povo vive... E se compartilhasse essa visão com os demais eles não teriam mais necessidades destrutivas para satisfazer. A natureza é poderosa. Ela se regenera... Mas, para isso os feljs [humanos] precisam reaprender a ouvir e preservá-la."

Começando a falar sobre a primeira história, temos uma investigação que se sucede ao longo de toda a narrativa. Gostei de como a tensão é construída ao longo de toda a narrativa. Acompanhamos Lanawyn pelas cenas do crime e ela conduz alguns interrogatórios. A parte dela serve para mostrar como estão frágeis as relações entre humanos e elfos (algo que é reforçado na segunda história). Existe uma trama de vingança aí no meio que a protagonista não consegue saber de onde vem. Rinn, um nobre humano de uma província local quer se livrar dos elfos azuis da região a qualquer custo. Forças ocultas vão se aproveitar da insanidade momentânea do nobre para colocar planos malignos em ação. Muito bacana a construção da parceria entre Turin e Lanawyn. Parece saída de uma série policial em que uma dupla improvável se une para resolver um mistério.

Vaalann parece ser a escolhida para adquirir um cristal azul, uma relíquia muito poderosa para os elfos azuis e que permite o controle dos mares. Tudo encaminha para uma história típica de um escolhido que precisa passar por uma série de testes para provar o seu valor. Mas, algo começa a desandar quando o kraken, um dos guardiões, diz que a personagem não é a escolhida. Ela se questiona o motivo naquele momento, e o leitor fica com uma pulga atrás da orelha. Achei a construção para o final muito interessante e pouco previsível. Até porque depois que o plot twist acontece, o leitor começa a reparar em pequenos detalhes nas histórias de Lanawyn e de Vaalann que permitem chegar ao raciocínio do final.

A segunda história acho que pecou por colocar várias tramas em paralelo. Por um lado temos o presente onde Llalis está caída na floresta e é resgatada por Yfass. Enquanto acontece esse resgate, o autor coloca alguns flashbacks de por que Llalis saiu do castelo de seu pai e seguiu para uma jornada perigosa na floresta em busca de ajuda. E como ela e seu protetor foram emboscadas por um grupo de orcs. E temos uma terceira trama que mostra o pai de Llalis precisando resistir a um cerco de orcs às portas da cidade. Acho que todas essas tramas em paralelo serviram para tirar um pouco da harmonia da história. A parte do flashback foi mais um luxo do que uma necessidade. Todo esse trecho poderia ter sido apresentado no formato tradicional que não faria diferença e deixaria a história menos confusa.


Fica aqui também o fato de as personagens femininas serem muito bem apresentadas. Vou usar Llalis como exemplo, mas isso vale para as outras personagens. Llalis é uma mulher frágil, porém decidida. Ela consegue se virar bem em uma luta, apesar de não ser uma guerreira. A personagem sabe que nas suas costas está o destino do reino e que talvez seja necessário tomar algumas decisões difíceis. Ela não titubeia diante das adversidades. É por essa razão que Yfass começou a respeitá-la (não só por causa de suas habilidades).

Não vou falar sobre a trama de Yfass porque eu posso acabar revelando detalhes sobre a história que podem vir a dar spoilers. Mas, Elfos volume 1 é uma bela HQ com duas histórias que me remetem imediatamente a um RPG. Mesmo o nível das narrativas sendo desiguais, as histórias são muito boas e apresentam técnicas de escrita bem avançadas. Os artistas fizeram também um trabalho muito competente apesar de eu ter gostado mais do trabalho de Kyko Duarte. A HQ é uma excelente pedida não só para fãs de fantasia em geral, mas para qualquer amante de boas histórias.


Ficha Técnica:

Nome: Elfos vol. 1 Autores: Jean-Luc Istin (capítulo 1) e Nicolas Jarry (capítulo 2) Artistas: Kyko Duarte (capítulo 1), Nicolas Saito (capítulos 1 e 2) e Gianluca Maconi (capítulo 2) Editora: Mythos Gênero: Fantasia Tradutores: Octávio Aragão e Hélcio de Carvalho Número de Páginas: 116 Ano de Publicação: 2018


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