• Paulo Vinicius

Resenha: "Elantris" de Brandon Sanderson

Atualizado: 1 de Mai de 2019

Uma cidade que outrora era habitada por deuses com poderes fabulosas, agora se tornou uma ruína decadente onde seres infectados por uma estranha maldição vagueiam pelas ruas com suas aparências disformes. Mas, um príncipe tentará mudar isso... e sofrerá a mesma maldição também.

Sinopse:


Uma obra prima da fantasia! Elantris era a capital de Arelon: colossal, linda, radiante e repleta de seres benevolentes que usavam suas poderosas habilidades mágicas em benefício de todos. Mas, há dez anos, uma maldição misteriosa devastou Elantris e os corpos de seus habitantes - que agora vivem a decrepitude em intensa dor, quase que um bando de leprosos. E a própria Elantris se tornou sombria... Uma grande história de fantasia, mistério, romance, humor, disputa religiosa e conflitos políticos.




Construir um universo fantástico é uma tarefa difícil. Quando um autor se debruça sobre essa tarefa ele precisa imaginar a organização social, as principais cidades, a religião, a existência da magia. Nesse sentido, Elantris é um colosso de construção de mundo. Isso com uma narrativa dinâmica e personagens sólidos o suficiente para sustentar o enredo. Não é à toa que Sanderson é considerado um dos melhores autores de fantasia da atualidade.

Em primeiro lugar é preciso destacar a escrita de Sanderson. Essa foi a minha primeira experiência com a obra do autor e eu estou muito impressionado. O nível de construção de mundo é absurdo e o leitor é capaz de perceber que o autor pensou em vários ângulos diferentes como a política, a religião, a economia, os costumes e até mesmo diferenças sociais. Posso imaginar o trabalho que isso deve ter dado até porque muita coisa deve ter ficado de fora nesse livro. Ao mesmo tempo em que esse volume de detalhes é uma das características mais fascinantes do autor, também é um defeito. Se fosse em uma série, o leitor sentiria menos. Mas, a quantidade de info dump (informações jogadas) é muito grande. Claro, o autor tem uma boa escrita e esse info dump acaba não sendo tão traumático. Prejudica no começo a leitura, tornando-a pesada, mas quando o leito se acostuma ele passa a sentir menos.

O embate entre duas religiões que vieram de uma mais antiga é facilmente associável às diferenças entre o Islã e o cristianismo. E as semelhanças são inúmeras, dadas as devidas proporções. Lembrando que tanto o islamismo e o cristianismo derivam da religião judaica cujos preceitos são mais antigos (não quero entrar em detalhes acerca das três religiões ou perderemos o foco). Uma religião prega o amor enquanto a segunda prega a devoção. Este é o grande conflito entre ambas já que as doutrinas se baseiam nestas duas essências. Uma é mais normativa enquanto a segunda é mais liberal. E essa postura mais liberal incomoda os sacerdotes derethi que veem nos korathi homens fracos e desviantes da verdadeira religião. Sanderson delineia as características de ambas as religiões com bastante precisão. Ao final somos capazes de diferenciar até mesmos as cerimônias de ambas.

Também é preciso destacar as diferenças até mesmo dentro de uma religião. Seja com sacerdotes mais firmes ou até interpretações diferentes de aspectos religiosos. Hrathen vai percebendo alguns problemas na forma como os seus colegas vão desenvolvendo atitudes mais belicosas em relação aos possíveis convertidos. O autor trabalha até mesmo com a manipulação de escrituras. Ele aventa a possibilidade de que a cúpula derethi possa ter alterado algumas escrituras sagradas. Se formos analisar de uma forma mais atenta Hrathi poderia ser associado ao islamismo sunita, enquanto Dilaf ao islamismo xiita. São associações forçadas. Quando chegamos mais para a parte final da trama, essas duas inclinações acabam se colidindo de certa forma.

O sistema de magias criado pelo autor é genial. Em uma entrevista, Sanderson alegou que ele se baseou no sistema de escrita kanji. Mas, tudo tem importância para o funcionamento da magia: a extensão das linhas, a forma como elas são desenhadas e até mesmo alguns acréscimos na formação dos símbolos. Fora que o usuário do AonDor pode mesclar vários símbolos para obter funcionalidades diferentes. Outro elemento que chama a atenção é como o sistema de magias mescla elementos oriundos de diferentes religiões dentro do mesmo mundo. Existe o dôr que é a base e a filosofia do sistema mágico de Elantris. Há também uma conexão com a própria geografia do planeta, o que demonstra a conexão existente entre o próprio mundo e a forma como se pode manipular as forças que existem dentro dele.

A economia também é importante para o funcionamento do mundo. Sanderson detalha os momentos de plantio e colheita além de detalhes da venda de produtos agrícolas no mercado. Pode parecer bobagem, mas demonstra a maturidade do autor ao conceber o mundo. E Elantris é o seu primeiro trabalho. A economia interfere na política arelena. Isso porque o sistema de governo é baseado na riqueza dos indivíduos. Algo original que pode ser uma amálgama entre vários elementos: o absolutismo monárquico e o sistema mercantilista do Período Moderno. A estrutura social de Arelon é bem sofisticada e o comércio é importante para a manutenção de títulos entre os nobres. Ou seja, saber o que vender e quando vender é importante. Ao mesmo tempo o transporte das mercadorias também é essencial já que o seu produto pode naufragar, caso o seu navio seja atacado. E esse tema será importante em um momento da trama.

Os personagens são bem construídos e possuem suas próprias subtramas. Sarene acaba tomando conta da maior parte da trama (apesar de Raoden ser o protagonista aparente). Ou seja, o autor optou pelo emprego de uma narrativa em terceira pessoa com Pontos de Vista. No POV da Sarene o que vemos são as manipulações políticas acontecendo e um pouco do conflito entre Fjorden e Arelon e as consequências das ações de Hrathen. Gostei que Sarene é uma personagem ativa e não necessariamente a donzela em perigo. Só achei que o autor exagerou um pouco ao dar um protagonismo dela no grupo conspiratório de maneira muito rápida. Para um grupo de nobres que conspira contra o rei, se aliar à princesa é algo arriscado. O primeiro momento dela não me convenceu. Já Raoden vai ter em sua parte da narrativa aspectos mais globais do mundo. Será através de seus olhos que conheceremos aspectos mais sobrenaturais do mundo. Achei que em determinados momentos, a narrativa de Raoden é maçante porque ele precisa ficar explicando demais. É o problema com o info dump. São muitas informações que o leitor precisa ficar absorvendo. Ao mesmo tempo a relação de Raoden com Galladon é fantástica. Elas fornecem os momentos mais bacanas ao longo do livro. Já Hrathen eu achei que foi pouco explorado. E ele tinha uma história muito rica a ser explorada. O nível de profundidade que ficamos vendo no final da trama justifica até uma história-solo para o personagem contando o seu treinamento e sua passagem por Dula.

A trama é muito boa, porém previsível. O leitor sabe o que vai acontecer ao final. Um livro não vive de plot twists o tempo inteiro, mas eu quero ser surpreendido. Lógico que se você faz algo básico com perfeição, vai surgir algo que desperta a atenção dos leitores. O livro ganha muita velocidade na segunda e na quarta partes. São momentos em que eu não consegui parar enquanto que nas partes 1 e 3 achei a trama um pouco mais arrastada. Admito não ter gostado do final. Senti que faltou algo explosivo para acontecer no final e aquela parte em Teod não foi o suficiente. Senti que foram muitas pontas soltas deixadas pelo autor. Ele alegou que iria retornar à trama em algum momento, mas Elantris foi apresentado como um livro stand-alone inicialmente. Somente no ano passado o autor afirmou que pretendia continuar a história. Se formos entender o livro como um stand-alone o final é ruim.

Elantris é um livro cuja concepção deve ter sido algo inacreditável. O volume de informações que o autor deve ter sobre ele é incrível. Mas, ao mesmo tempo esse é um calcanhar de Aquiles da obra. Recomendo a qualquer fã de fantasia, pois o autor tem um estilo clássico de escrita. As influências de Tolkien e Robert Jordan estão ali em cada linha. Não se trata de uma cópia, gente, por favor. Mas de uma escola de escrita que ele adota. O final é meio questionável por deixar muitas pontas soltas. Entendo que hoje ele é parte de uma série, mas na época em que foi publicado, ele foi apresentado como um stand-alone.



Ficha Técnica:


Nome: Elantris

Autor: Brandon Sanderson

Editora: Leya

Gênero: Fantasia

Tradutora: Marcia Blasques

Número de Páginas: 576

Ano de Publicação: 2012


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