• Paulo Vinicius

Resenha: "Dracula" de Roy Thomas e Mike Mignola

A adaptação do filme de Francis Ford Coppola feita por dois mestres dos quadrinhos: roteiros de Roy Thomas e o desenho inacreditável de Mike Mignola. Isso cria uma das melhores adaptações de cinema para quadrinhos. 

Sinopse:


No início dos anos 1990, a aclamada releitura cinematográfica de Francis Ford Coppola para o clássico Drácula de Bram Stoker também foi levada aos quadrinhos. Reinterpretado pelo veterano roteirista Roy Thomas e pela então estrela em ascensão Mike Mignola, Drácula foi recebido com entusiasmo pelos fãs em seu lançamento. Mesmo fora de catálogo nos Estados Unidos por 20 anos, a cultuada obra continuou a crescer em reputação e status. Agora, esta edição apresenta sua versão original em preto e branco, oferecendo uma visão única da arte de Mignola e seus característicos jogos de luz e sombra tão marcantes e sofisticados, que ilustram com maestria a lenda do mais célebre vampiro da história.




Esta HQ é uma adaptação para quadrinhos da versão de Drácula imaginada pelo diretor Francis Ford Coppola. Coppola manteve a fidelidade e a essência da obra de Bram Stoker. Por sua vez, Roy Thomas e Mike Mignola mantiveram a fidelidade à fonte cinematográfica. O resultado é uma HQ magnífica que possui um clima gótico transbordando de suas páginas. Roy Thomas foi muito feliz ao ser capaz de transportar muito bem o roteiro do filme para os quadrinhos; já os desenhos do Mignola dispensam apresentações. 

A edição da Mino está lindíssima. Um tamanho bem acima do padrão para HQs, manteve a qualidade da edição da IDW. A opção foi pela edição em preto e branco que era a que estava sendo reeditada nos últimos tempos. Houve algumas supressões como a narração do Van Helsing no início dos capítulos, mas nada que vá prejudicar a compreensão da narrativa. A edição está em capa dura e um papel couché que ressalta toda a qualidade do traço de Mignola. Os extras do final incluem uma série de sketches sem arte-final do Mignola. Só isso já vale demais o material à parte da HQ: poder visualizar o traço dele em seu estado cru é sensacional. Mais para o final temos também algumas artes de capa. 

Essa possivelmente é uma das HQs de maior qualidade do autor. Dizer que o Mignola é um artista de mão cheia é pouco para ele. Mas, aqui em Drácula ele alcança o seu estágio máximo. Ele foi capaz de copiar os traços corporais e faciais dos artistas que participaram do filme. O Jonathan Harker da HQ tem muitas semelhanças com um Keanu Reeves ainda jovem fazendo seu papel no filme. Ou as expressões severas de Gary Oldman e seu Drácula foram capturadas com uma precisão assustadora. Os cenários são compostos com uma brincadeira de preto e branco que somente uma mente como a de Mignola poderia conceber. Ele não só sabe preencher os cenários, como esvaziá-los para criar majestade às cenas. Alguns de seus quadros são obras de arte como Drácula voltando para casa e encontrando Elizabeta morta, ou a aproximação de Drácula e Mina ou mais para a frente no espaço sagrado dentro de seu castelo. Cada página é uma obra de arte. Aqui temos o gótico elevado a um outro nível de qualidade. 

Sinceramente eu não conhecia o trabalho de Mignola e Drácula foi minha primeira aventura em seus traços. E eu estou de queixo caído. Não é à toa que ele é um artista reverenciado. Percebam na imagem acima a dor e a angústia vividas por Drácula ao retornar para casa e encontrar tudo o que ele mais ama destruído. Ou a loucura de Renfield mais tarde em que ele implora pela presença de seu mestre. Ou toda a luxúria das noivas de Drácula seduzindo um inocente Harker para a sua noite de prazeres malditos. Só tenho elogios a fazer a esse trabalho. 

Já os roteiros de Roy Thomas me são conhecidos por conta da minha leitura de A Espada Selvagem de Conan. Não poderia esperar outra coisa além do primor de sua pena. Ele foi capaz de dar vida ao roteiro e mesmo em uma HQ somos capazes de perceber a mão dele interferindo aonde ia o que e de que forma. Não apenas isso como Thomas é capaz de dar espaço para o artista trabalhar. Ele sabe quando não carregar demais textualmente e deixar a arte falar por si só. Tem alguns momentos da HQ em que temos pouquíssimos diálogos, mas o nível de tensão projetado nas cenas é completamente palpável. A perda de Lucy representando uma dor no coração de Arthur ou o desespero de Harker para voltar à sua noiva. Uma combinação perfeita de arte e roteiro. 

"Um príncipe romeno da região da Transilvânia - Vlad Drácula, gênio militar notório em toda a Europa Oriental por seus métodos sanguinários - lidera sete mil de seus compatriotas em um ousado ataque furtivo contra mil turcos... como última e heroica tentativa de salvar sua terra natal. O ataque surpresa de Drácula arrasa os turcos. E sua vingança é rápida e impiedosa. Mas, mesmo em meio ao triunfo por uma causa sagrada pode haver perda."

Temos aqui a longa jornada de um homem cuja mulher deixou este mundo após pensar que ele havia morrido. Sua existência se tornou uma dor terrível o qual ele não consegue suportar sem descontar no resto do mundo. Drácula é um homem angustiado que busca seu amor nas mulheres do mundo. Isso até ele encontrar Mina que possui uma enorme semelhança física com Elizabeta. Ele tenta de todas as formas possuí-la para si. Esta obsessão o coloca em confronto direto com Harker e seus aliados. A forma como ele subjuga Mina aos seus prazeres é inevitável. Vou falar um pouco mais disso no parágrafo que segue, mas basta saber que, para mim, ele é o verdadeiro protagonista da história. No final o leitor acaba sentindo uma empatia maior por sua dor do que pela perda dos demais personagens. 

Thomas conseguiu dar vida à toda luxúria e sedução dos vampiros. A história transborda isso pelas páginas. O mais curioso é que Thomas e Mignola conseguem fazer isso sem apelar para cenas explícitas. A HQ é muito sensual e cada gesto ou movimento dos personagens reflete isso. Lucy é uma mulher muito sedutora e somente quando ela é ameaçada por conta das proteções contra os vampiros é que ela revela o seu lado bestial. Algumas cenas protagonizadas por Mina e Drácula são como uma dança sedutora à luz do luar: Drácula toca delicadamente as mãos de Mina enquanto ela coloca suas garras no peito do vampiro. Não sei se consigo dizer se Mina se submete mesmo à vontade de Drácula ou se não passa de um fascínio por um homem gentil e misterioso. 

A ira de Drácula contra a Igreja vem de sua percepção que ela nada fez para ele em seu momento de necessidade. O padre usa frases ocas para demonstrar o seu pesar diante de tamanha tragédia. O casamento que ele propõe às suas vítimas é um de sangue onde a alma é perdida para dar lugar aos desejos mais secretos da carne. Porém, curiosamente, Drácula inicia uma regressão da metade para o final em que ele abraça o seu lado guerreiro. Isso até culminar naquele vitral belíssimo da última página que não posso comentar o que é. Só posso dizer a vocês que adquiram esta belíssima HQ, não apenas para desfrutar de uma história clássica como de uma arte magnífica. 


Ficha Técnica:

Nome: Drácula Autor: Roy Thomas Artista: Mike Mignola Arte-Final: John Nyberg Editora: Mino Gênero: Terror Tradutora: Dandara Palankof Número de Páginas: 136 Ano de Publicação: 2018

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