• Paulo Vinicius

Resenha: "Devoradores de Estrelas" de Andy Weir

Em uma missão suicida pelo espaço em outro sistema solar, o dr. Ryland Grace pode ser a única esperança do planeta Terra. O Sol está sendo devorado por seres aos quais a humanidade não consegue entender a lógica. Poderá um homem fazer a diferença?


Sinopse:


Ryland Grace é o único sobrevivente de uma desesperada missão de emergência ― se ele falhar, toda a humanidade e o planeta Terra serão destruídos.


Mas no momento ele não sabe disso. Ryland não se lembra nem do próprio nome, muito menos de sua missão ou de como cumpri-la. Tudo o que ele sabe é que dormiu por muito, muito tempo. E que despertou a milhões de quilômetros de casa, com apenas dois cadáveres como companhia.


Com os colegas de tripulação mortos e as memórias confusas retornando aos poucos, Ryland vai perceber a tarefa impossível que tem nas mãos. Viajando pelo espaço em sua pequena nave, cabe a ele descobrir a resposta para um enorme mistério científico ― e derrotar a ameaça de extinção da nossa espécie.


O tempo está acabando, e o humano mais próximo está a anos-luz de distância, então Ryland terá que fazer tudo isso sozinho.


Ou será que não?






Boas histórias de ficção científica nascem quando queremos brincar com os limites da ciência. Se é assim, Andy Weir parece uma criança em um parquinho. Em seu terceiro romance, ele volta às origens de quando escreveu Perdido em Marte e busca explorar ideias inovadoras a partir de inúmeras pesquisas científicas. O resultado é algo bem divisivo porque pode agradar ou afastar leitores dependendo da relação dos mesmos com a mera pesquisa científica e como um cientista chega a uma conclusão. Embora Weir dê um tom bem leve à narrativa, Devoradores de Estrelas é direcionado a um público bem específico. E isso vai afetar a experiência de leitura.


A bordo da Hail Mary, o dr. Ryland Grace se dirige rumo a Tau Ceti, um sistema solar a anos-luz de distância de seu próprio. Ele acorda desorientado após muito tempo sob animação suspensa e precisa recuperar lentamente as memórias sobre si, sobre sua missão e o que deve fazer a seguir. Com os membros de sua tripulação mortos sem alguma explicação, o dr. Grace precisa juntar os fragmentos de informação rápido antes que ele saia do ponto sem retorno. Indo do passado ao presente, a história nos coloca em um drama bem real de um homem precisando salvar o Sol de seres capazes de sobreviver em condições extremas. Só que ele está sozinho, sem comunicação com a Terra e a anos-luz de qualquer apoio vindo de seu planeta natal. A única certeza que ele tem é que sua missão é só de ida e ela é crucial para o futuro de seu mundo. Só que ele vai contar com uma ajuda bastante inesperada.


Certamente esse não é um livro que vai agradar a todos os leitores. A escrita de Weir, apesar de bem leve e divertida, é bastante voltada para os aspectos científicos da história. Ele vai apontar detalhe por detalhe o que está acontecendo, as teorias científicas, o processo de pesquisa e como o protagonista vai chegar às suas conclusões. Em vários momentos passamos páginas e mais páginas com meras discussões sobre... ciência. Átomos, prótons, neutrinos, força centrífuga, impulsão. Se você é um leitor que quer algo mais direto e voltado para a narrativa (para seu fim) e não para o processo, essa vai ser uma leitura bem tediosa. Me coloco em um meio-termo porque a forma como Weir faz isso me agradou. Nesse sentido, é um livro bastante descritivo, mas ao mesmo tempo o autor é didático, o que facilita a nossa compreensão mesmo acerca de conceitos mais complexos. Embora ele tenha dado uma pintura de que sua história seria voltada para o público em geral, acho difícil alguém de fora do nicho curtir. São muitos detalhes e a história demora bastante a engrenar. Lá pela metade do livro, ele se torna mais palatável, principalmente quando acontecem as mudanças mais bombástico. E até porque se você não desistiu até a metade, a escrita do Weir deve ter agradado nem que seja um pouco. Aliás, kudos para a tradução de Natalie Gerhardt que deixou o texto bem tranquilo para o leitor. Traduzir expressões que fazem parte de um jargão científico poderia dar muito, muito errado. Faço ideia do trabalho de consulta que ela deve ter feito em alguns momentos.

O uso dos flashbacks como instrumento inicial de narrativa serve para dar uma bagunçada na dinâmica geral. Não é nada inovador, mas funciona direitinho. O autor tira o protagonista da sua zona de conforto e vai inserindo informações aos poucos à medida em que gatilhos de memória vão sendo disparados um a um. Pode ser algo intencional ou apenas incidental. Contudo, esses flashbacks nos fornecem as informações necessárias para a compreensão do que está acontecendo. É info dumping? Para caramba. Mas, esse info dumping é a própria raison d'etre da escrita do autor. Andy Weir funciona assim. Se você não gostar, não leia. As alternâncias de temporalidade são bem tranquilas de serem compreendidas e não vão atrapalhar nem um pouco a leitura.


"Eu sou "Grace", então as outras palavras devem ser os nomes das múmias no quarto lá embaixo. Uma pessoa chinesa e uma russa. A lembrança deles surge na minha mente, mas não consigo acessá-la. Acho que deve ser algum mecanismo interno de defesa. Quando eu me lembrar deles, vou sofrer, então meu cérebro se recusa a lembrar. Talvez. Não sei - sou um professor de ciências, não um psicólogo especializado em trauma."

O que me preocupou um pouco foi uma impressão (ênfase no impressão) de o autor estar apelando ligeiramente para um deus ex machina. Em alguns momentos da trama, parece que as informações chegam ao Ryland de uma forma conveniente demais. Minha dúvida é saber se gatilhos de memória para pessoas com amnésia funcionam realmente desse jeito. Por isso que não cravo ser um deus ex machina. Okay, ele é um cientista que acabou se transformando em um professor de ensino médio. Mas, caramba, que professor é esse? Tem uma justificativa de que ele foi perseguido por escrever um artigo bizarro demais para a concordância da Academia, mas em diversos momentos ele tem umas sacadas muito fora da casinha. Para determinadas situações, algumas especialidades seriam exigidas dele; especialidades essas que não fazem exatamente parte do que ele alega ter pesquisado. Até entenderia se ele tivesse usado todo o arsenal de dados que ele tem à sua disposição, mas ele tira algumas conclusões do nada. Por isso que vez ou outra a história soa conveniente demais. Além disso, falta aquela sensação de perigo iminente. Ele está sozinho no espaço e não tem nada nem ninguém para auxiliá-lo, porém as situações se desenvolvem de forma natural demais. Por boa parte da trama, não consegui enxergar o personagem em qualquer tipo de perigo. Ele tem uma desorientação que o consome ao longo de toda a história e tem algum nível de dificuldade de compreensão/comunicação. Mas, é só. Por exemplo, o protagonista de Perdido em Marte passa por vários momentos ingratos na trama. O momento inicial em que ele se fere, uma realidade em que ele pode não ter comida para toda a sua estadia, problemas com o ar.


Senti muita falta de um desenvolvimento melhor do personagem. A narrativa é muito orientada para o que está acontecendo. Embora a gente tenha alguns momentos divertidos com a tripulação e com Stratt no meio da história, não vemos lá muitos traços de sua personalidade. Apenas que ele é um cara divertido, meio irônico e que conhece muito sobre ciência. Não sabemos muito sobre o pano de fundo que o levou a se tornar professor ou até outras de suas características. Ou seja, não é isso o que Weir deseja apresenta na sua história e isso torna Ryland um personagem genérico demais (vamos ver como ele será transportado para o cinema). Outro indício disso é o fato de Ryland não ter quaisquer conexões familiares, amigos ou pessoas com quem ele se envolve (algo que vai acontecer durante a narrativa, mas não é uma prioridade da narrativa). Aqueles que leram o livro vão argumentar a respeito de outra interação (que não posso falar qual é), mas ela fica mais em uma amizade nascida de uma situação extrema. Ela não conta o passado do personagem, mas se situa mais naquele momento específico. Não conto como pano de fundo. Essa interação é importante para a história e chega a ser emocionante em algumas situações, mas não preenche as lacunas.


No fundo esta é uma história de primeiro contato. Andy Weir toma algumas decisões do ponto de vista do enredo que são bastante interessantes e eu, como alguém que compartilha suas opiniões neste espaço, recomendo a autores de ficção científica lerem. No momento de montarmos nossas histórias, tomamos alguns pontos como simplesmente óbvios. Por exemplo, os próprios "devoradores de estrelas", os astrofágicos, que movimentam a narrativa, eles são uma forma de vida espacial. Quem disse que uma forma de vida precisa necessariamente estar na superfície de um planeta? A opção por eles estarem no espaço puro e simples muda a maneira como os encaramos. Há vários outros pequenos detalhes simples (até a velocidade orbital, por exemplo) que passam longe da gente. Por conhecer e pesquisar a fundo ciências como um todo, Weir traz uma perspectiva distinta, o que oferece desenvolvimentos bastante originais. Posso reclamar do excesso de explicações didáticas sobre determinados temas, mas é inegável que as escolhas em si são boas. E a escrita mais didática ajuda a entender com mais facilidade, o que pode ser um bom guia de referência para outros autores.


"Tá legal, se eu vou morrer, vai ser por um motivo significativo. Vou descobrir como parar os astrofágicos. E, então, vou mandar as respostas para a Terra. E então... vou morrer. Existem muitas alternativas para um suicídio indolor aqui... desde uma overdose de remédios até uma redução do nível de oxigênio para eu dormir e morrer."

Weir opta por uma construção narrativa cinematográfica. São três atos, com um interregno entre o segundo e terceiro ato. Isso torna o livro como um todo bastante acessível para ser adaptado para o cinema (como de fato será). O leitor consegue ver claramente os momentos de transição, os altos e baixos e todos aqueles mecanismos típicos dessa linguagem. Sai um pouco daquele vício da jornada do herói e nos mostra uma outra forma, que mesmo sendo bem comum, andava meio distante da literatura de gênero. Os atos são bastante balanceados tendo aquele momento inicial explosivo, um desenvolvimento mais calmo e atenuado e um passagem para outro ato bombástico (seja com uma virada narrativa ou um clímax momentâneo). Com tudo isso, posso dizer com tranquilidade que Weir conseguiu escrever um livro bastante divertido (diferente de Artemis que era repleto de problemas) e retomou uma fórmula que ele empregou em Perdido em Marte, mas adaptando a um outro cenário e incorporando novas estratégias. Ainda acho que ele precisa trabalhar mais no personagem e em seu pano de fundo, mas de resto podem ir tranquilamente que serão boas horas de diversão.












Ficha Técnica:


Nome: Devoradores de Estrelas

Autor: Andy Weir

Editora: Suma

Tradutora: Natalie Gerhardt

Número de Páginas: 424

Ano de Publicação: 2021


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