• Paulo Vinicius

Resenha: "Descender vol. 1 - Estrelas de Lata" de Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Depois de um desastre intergaláctico em que seres chamados de Ceifadores dizimaram diversas civilizações, um pequeno menino robô chamado Tim-21 pode ter alguma conexão com eles. Um grupo de indivíduos liderados pela capitã Telsa seguem até a lua onde ele se encontra para tentar encontrá-lo. Mas, outras pessoas parecem estar atrás dele.



Sinopse:


A parceria entre os conceituados Jeff Lemire e Dustin Nguyen, dois dos nomes mais célebres dos quadrinhos, resultou em uma graphic novel incomparável, uma odisseia cósmica eletrizante e soturna que trata de temas complexos, como intolerância, medo, política e a relação muitas vezes conflituosa entre humanos e tecnologia.


O primeiro volume, Descender: Estrelas de lata, reúne os fascículos 1 a 6 da série e nos apresenta a uma realidade desconcertante: robôs gigantes conhecidos como Ceifadores invadiram a galáxia e destruíram planetas e civilizações inteiras, criando nos que restaram uma aversão às máquinas. Desde então, foram implementadas políticas de perseguição e extermínio de robôs. Essa caça implacável põe em risco a vida de Tim-21, um jovem androide de aparência humana que passou uma década num sono profundo, mas que pode conter em seu código vestígios dos assassinos do passado, o que faz dele o ser mais procurado do universo. Por isso, só resta a Tim-21 fugir. Ao lado dos amigos Bandit e Perfurador, ele percorre planetas e galáxias, desviando de inimagináveis perigos com um único objetivo: sobreviver.


Dos vencedores do Eisner Awards, este épico arrebatador e comovente, de cores intensas e vibrantes, narra a trajetória de humanos e máquinas, que ficam frente a frente em uma guerra que traz uma única certeza: não haverá vencedores. Uma história tão impactante que, antes mesmo de ser publicada nos Estados Unidos, teve os direitos de adaptação para o cinema adquiridos pela Sony Pictures.





Ninguém pode acusar Jeff Lemire de não ser prolífico. Tudo o que você pensar ele já escreveu: terror, fantasia, histórias de super-heróis, homenagem a super-heróis, adaptações literárias. Esse é um título que vai explorar uma space opera. E, como sempre, esqueçam de cara a ideia do cenário porque Lemire trabalha pessoas e sentimentos. Solidão, adaptação, incompatibilidade. Descender é uma narrativa que começa muito promissora com ideias que certamente vão agradar aos fãs de boa ficção científica.


Estamos em um mundo no futuro onde as civilizações dos diferentes recantos do espaço se organizaram em uma espécie de Conselho Galáctico. O mundo caminha para uma quantidade absurda de habitantes e novos planetas se fazem necessários para conter essa explosão populacional. Mas, um dia imensas naves espaciais se espalham pelos oito principais mundos da UGC e pairam no espaço. Um conselho de guerra é montado e o Dr. Quon, o maior especialista em robôs da galáxia é convocado para fornecer a sua expertise para deter estes invasores. Quando eles se preparavam para iniciar o conselho, as naves disparam ao mesmo tempo. Mundos inteiros são devastados, eliminando toda a vida biológica existente nestes locais. Sim, vida biológica porque todos os seres robóticos são poupados. Os invasores passam a ser conhecidos como os Ceifadores e os robôs são associados a eles. Inicia-se uma imensa perseguição a todos os robôs e eles são destruídos um por um. A UGC tenta criar algum tipo de meio para protegê-los, mas a maioria é aniquilada. Dez anos mais tarde, um pequeno robô na forma de um menino chamado Tim-21 desperta em uma lua de mineração. Suas memórias estão confusas e ele procura saber o que aconteceu com os seus donos que ele considerava sua família. Enquanto isso o dr. Quon recebe a visita da capitã Tesla que o convoca para ir até uma pequena lua de mineração, pois existe um pequeno robô que pode ser a chave para entender os Ceifadores.


A arte do Dustin Nguyen não me agradou tanto assim. Apesar de ele ter uma arte sensacional quando ele trabalha planos abertos, boa parte da ação se passa dentro de localidades. Sua arte meio estilizada parecendo embaçada contrasta com os personagens presentes na tela. Entendi que o foco vai se dar nos personagens e em suas expressões, mas me preocupo se isso é feito em detrimento do cenário que acaba recebendo menos detalhes. Aos poucos a arte parece ir melhorando à medida em que o roteiro parece ter sido absorvido pelo artista, mas mesmo assim isso acabou por me incomodar ao longo de toda a leitura. Porém, é preciso dizer que o artista sabe lidar muito bem com a quadrinização e suas escolhas por página parecem estar sempre precisas. Quando a cena exige um detalhe mais intimista, ele emprega um esquema com oito quadros, quando se trata de Tim-21 acessando bancos de memória é uma splash page com vários pequenos quadros contendo vislumbres do passado. Outra coisa que eu curti foi quando acontece algo com Tim-21 e ele vai parar em um tipo de "outro mundo". Para diferenciar o que acontecia ali para o que acontecia no mundo real, Nguyen usa uma palheta alaranjada.



Esta é uma história que ainda está em construção aqui no volume 1. Então dá para tirarmos algumas coisas, mas Lemire mantém bastante em um véu de mistério. No geral eu gostei da forma como ele consegue nos entregar todas as informações de uma maneira bem sutil. Tudo o que eu escrevi dois parágrafos acima acontece em poucas páginas do primeiro capítulo. Quando você o termina parece que o leitor fez uma longa jornada junto do roteirista. Ou seja, a forma como Lemire comprime as informações supera os problemas de info dumping tão comuns em cenários tão fora da caixinha. Gostei de como os personagens vão sendo construídos e desenvolvidos, cada um com seus dilemas que vão se revelando aos poucos para o público. O plot twist do dr. Quon lá no capítulo 6 é de cair o queixo. É um cenário complexo, mas Lemire deixa ele bem simples para o leitor compreender aquilo que está se passando.


Temos a narrativa de um jovem menino chamado Tim-21. A escolha por um menino é proposital da parte do Lemire principalmente porque o leitor percebe lá pela metade da história que o robô é o ser mais humano de toda a narrativa. Enquanto todos os outros estão preocupados com seus próprios interesses, Tim só quer ver sua "família". Mesmo tendo a capacidade de ferir outros indivíduos ele evita isso ao máximo a ponto de ser quase destruído por causa disso. É tocante ver a narrativa das lembranças dele. Lemire trabalha com o velho tema de será que um robô pode ter sentimentos humanos? Na história, o dr. Quon programou toda a série Tim para ser capaz de sentir empatia pelos seus donos. Ficamos em dúvida de se aquilo que o personagem revela ao longo da narrativa são sentimentos reais ou se apenas faz parte da programação.


Outra personagem que recebe bastante atenção é a capitã Tesla. Descobrimos que ela tem alguém que faz parte da UGC e que ela foi até a lua mineradora por algum motivo específico que ela não revelou ainda. Sabemos através dela como o mundo ficou depois do ataque dos Ceifadores. Boa parte da população morreu, restando poucos bilhões de habitantes e que surgiu um movimento antirrobôs da parte dos gnishianos. Eles até são os primeiros antagonistas deste primeiro volume. Mas, como eu disse, algumas coisas não batem no comportamento da personagem. O mesmo podemos dizer sobre o dr. Quon, mas descobrimos a resposta disso no final deste primeiro volume.



Para mim, este é aquele tipo de história que toca em todas as coisas que eu gosto: histórias complexas, desenvolvimento de personagens, mistérios e boa ficção científica. Quero continuar a acompanhar a história deste pequeno robô e ver se ele vai conseguir ou não encontrar sua família ou uma família. E isso porque ainda tem os Ceifadores se escondendo em algum lugar do universo. É esperar para ver aonde o roteirista vai nos levar.













Ficha Técnica:


Nome: Descender vol. 1 - Estrelas de Lata

Autor: Jeff Lemire

Artista: Dustin Nguyen

Editora: Intrínseca

Tradutor: Fernando Scheibe

Número de Páginas: 144

Ano de Publicação: 2019


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