• Paulo Vinicius

Resenha: "Dampyr vol. 2" de Mauro Boselli, Maurizio Colombo, Luca Rossi e Dotti

Neste segundo volume, temos três histórias emocionantes com Harlan Draka. Na primeira delas, Harlan é convidado pelo enigmático Caleb Lost a visitar o Teatro dos Passos Perdidos. Mas, ele também precisará sobreviver a um perigo terrível na costa dos esqueletos, na Namíbia em uma aventura em duas partes. E precisará se tornar um professor universitário para encontrar um grimório demoníaco.


Sinopse:


Em Praga, sob a antiga Ponte de Pedra, dorme uma ilha... mas há noites em que o sonho acaba, a ilha acorda... e seu verdadeiro rosto aparece! Este volume republica no Brasil Dampyr italiano 5 a 8 em 388 páginas.






Agora eu posso dizer que os fumetti realmente me encantaram. Tinha tido poucas experiências quando adulto com as revistas, sendo minhas experiências mais ligadas à minha adolescência quando eu curtia ler Tex e Zagor. Mas, fiquei bastante tempo afastado e mesmo quando voltava a ler quadrinhos, eram mais Marvel e DC. De alguns meses para cá venho me permitindo variar mais e ler Dragonero, Dylan Dog (que eu darei mais uma chance), Diabolik e agora Dampyr. Curti demais o ritmo das histórias que sempre se mantém alto e a arte que tem uma alta qualidade.


Este segundo volume trazido pela editora 85 nos traz quatro histórias, sendo duas delas edições simples e uma história que se desdobra em duas edições. São quase quatrocentas páginas de ação e mistério e Mauro Boselli não deixa a peteca cair em nenhum momento. Vou falar um pouco sobre as quatro histórias e mencionar um pouco da arte. A primeira delas chama-se Sob a Ponte de Pedra e tem arte de Luca Rossi. Nela, Draka é atraído para a ilha Kampa que fica em Praga, na República Tcheca. Um bilhete deixado em seu quarto assinado por um tal de Caleb Lost o faz crer que essa pessoa tem mais informações sobre o paradeiro de seu pai. Só que quando ele chega na ilha se depara com inúmeros acontecimentos estranhos como lugares que aparecem e desaparecem e as pessoas do local que dizem não ter nenhum teatro lá. Ao mesmo tempo, um homem chamado Comenius está procurando uma forma de reviver um ser poderoso que está oculto nas névoas da cidade.


Temos um bom aprofundamento da mitologia do Dampyr nesta história com Boselli começando a introduzir outras criaturas ao mundo. Para quem esperava ver apenas o combate contra vampiros, esta pode ser uma edição bastante curiosa e Caleb Lost abre todo um arsenal de possibilidades a serem exploradas na narrativa. Fica aqui também os elogios a um roteiro que é bastante imprevisível e nunca escolhe uma solução simples para um enigma. Em uma história fechada, temos várias tramas que parecem desconexas e se juntam em um todo bastante misterioso que nos levará até os momentos finais. O leitor fica na ponta dos pés porque não sabe o que vai acontecer a seguir. Outro ponto interessante é que mesmo resolvendo os mistérios da história, alguns personagens-chave são introduzidos na história que permitirão ser explorados em outros momentos.


A arte de Luca Rossi é bastante competente. Dos dois desenhistas preciso dizer que preferi Luca Rossi nesta edição (ele é o artista da primeira e da última história) porque ele combina mais com alguns aspectos de terror e suspense que Boselli implementa na narrativa. Dizemos que a ilha Kampa é bastante misteriosa e a arte dele ajuda nesse sentido. Como podemos visualizar na arte ao lado, Rossi emprega bem o sombreado aumentando a percepção de que os lugares possuem mais profundidade. Os ambientes também são bastante enevoados mostrando a dificuldade que Draka tem de se locomover em qualquer direção e como se perder é bem simples. Outro detalhe é como os prédios são distorcidos, mas somente em alguns momentos-chave dessa história. Os sombreados da arte de Rossi complementam o clima de mistério do roteiro, o que age muito em favor da narrativa.


A segunda história é uma trama em duas partes sendo que a primeira chama-se A Costa dos Esqueletos e a segunda, Zona Proibida. O artista das duas é o Dotti. Nela vemos a continuidade da caçada de Draka pelos mestres da noite. Draka segue junto com Tesla e Kurjak rumo a uma região mineradora considerada proibida na costa dos esqueletos, situada na Namíbia. Essa região existe de verdade e é conhecida por ser um cemitério de navios devido a algumas condições geográficas que a tornam bastante peculiar. Parece que um mestre da noite chamado Jan Vathek transformou o local em seu território e tem expandido perigosamente o seu alcance rumo a regiões próximas. Mas, o desaparecimento de uma equipe de pesquisadores, vítimas de uma comunidade de himbas nômades vai colocar Draka em rota de colisão com um mito perigoso da região: o Omulu. Quem é mais perigoso: um mestre da noite inescrupuloso ou uma força da natureza?


Preciso aplaudir o quanto Boselli pesquisou para poder compor o roteiro dessa história. Pode até ter alguma coisa inconsistente aqui ou ali, mas no geral essa é uma trama onde o autor procurou conhecer a região e suas peculiaridades além de estudar as comunidades existentes. Ele cita várias das comunidades da Namíbia embora se concentre mais nos himbas que tem a ver com aquilo que está propondo. Além disso, Omulu é um orixá ligado às artes da cura, mas que também se confunde com a raiva, a inveja e a paixão. A criatura presente na história usa um mito local para reforçar o seu ar de intimidação junto aos habitantes locais. Boselli soube dosar o quanto disso seria passado para a história. Já na segunda parte da história vemos um pouco de como as forças locais poderiam ser usadas por estes seres terríveis para cercar aqueles que estão contra eles. Se tratam de momentos bem difíceis para os nossos personagens.


Se eu mencionei que Rossi é muito bom em trabalhar com tramas de mistério e suspense, Dotti é o desenhista das cenas de ação. Extremamente competente em traçar cenas de batalha onde várias peças estão se movendo ao mesmo tempo. Colocar os grandes momentos de ação em ruínas, canyons ou desertos favorece bastante o desenhista que precisa se preocupar com poucos detalhes ao redor e compor momentos repletos de lutas e destruição. Gosto bastante de como as cenas de Dotti são organizadas e compreensíveis; parece que estou vendo um filme e sei exatamente os cortes feitos. Ele é exímio ao lidar com quadros em que precisa demonstrar habilidade de transição de ação para ação. As sequências possuem ritmo e intensidade. Outro fator favorável é o seu design de personagens: ele nunca usa dois modelos iguais. Parece bobagem, mas some aí comunidade himba, os escorpiões de Vathek, os mercenários e depois os enviados de Omulu e a gente tem uma quantidade boa de personagens a serem criados. Mesmo os não-mortos não possuem modelos iguais.



Por fim temos a última história que se chama Das Trevas e tem a arte de Luca Rossi. Draka segue rumo a uma cidade universitária chamada Friburgo onde precisa descobrir o paradeiro do Grimório de Profundis, um livro místico capaz de abrir a passagem para outras dimensões. Há muito tempo ele foi dividido em quatro partes e espalhado por quatro locais onde era mantido escondido por quatro guardiões. Mas, alguém parece estar em busca dele e já conseguiu encontrar três partes, tendo eliminado seus guardiões. O último trecho fica na cidade, mas Draka precisa encontrar o guardião e descobrir quem está por trás dos assassinatos. Para conseguir investigar livremente, ele vai se disfarçar de um professor de folclore do Leste Europeu e dar aulas para turmas repletas de alunas loucas pelo charme de Draka. O que começa como algo divertido e curioso, vai se aprofundando em uma trama perigosa do qual o dampyr não sabe o que ou quem está enfrentando. Todos são suspeitos.


Este é mais um excelente roteiro de Boselli com o apoio de Maurizio Colombo e é nitidamente inspirado no horror cósmico lovecraftiano. Para aqueles que gostam do famoso autor, esta história é um prato cheio. Aliás, nada consegue me tirar da cabeça que Boselli tentou criar a sua própria versão da Universidade Miskatonic. É uma trama que vai ter um clima de investigação bem forte em que Draka vai precisar usar bastante de sua inteligência e capacidade de improviso para resolver o mistério. E o próprio Draka afirma que esse não é o forte dele. O roteiro meio que força Draka a se voltar para esse aspecto mais investigativo e quem sabe essa não é uma maneira de fazê-lo se voltar para outros aspectos de sua personalidade. Nessa narrativa conhecemos também a misteriosa Sophie, uma das alunas da turma de Draka e que possui uma química com o personagem, mas algo mais parece levá-lo até ela. Essa narrativa assim como a primeira ajuda demais a engrandecer a mitologia do personagem inserindo mais e mais criaturas e situações.


Para quem acha que Dampyr é só uma história de um caçador de vampiros, repense os seus conceitos. É muito mais do que isso. As tramas são profundas e sempre saem do lugar comum. Nunca é aquilo que você espera e sempre tem algo escondido a partir do que é apresentado primeiro ao leitor. Fiquei me pegando tentar adivinhar o que iria acontecer a seguir, mas a história é imprevisível. O roteiro tem muita qualidade e reflete o padrão elevado da Sergio Bonelli Editore para as suas histórias. Os dois artistas também são muito bons, embora eu prefira mais o Rossi porque ele combina mais com o clima proposto por Boselli, mas Dotti não fica nem um pouco atrás. E isso porque a dupla de edições desenhadas por Dotti mantém a gente aflito e querendo passar logo as páginas. E agora eu me sinto mais preparado para apreciar outros fumetti sem medo.









Ficha Técnica:


Nome: Dampyr vol. 2

Autor: Mauro Boselli e Maurizio Colombo

Artistas: Luca Rossi e Dotti

Editora: Editora 85

Tradutor: Julio Schneider

Número de Páginas: 388

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

Dampyr vol. 1


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