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Resenha: "Crononautas" de Mark Millar e Sean Murphy

Reilly e Quinn fazem parte de um projeto voltado para viagens no tempo. Quinn conseguiu terminar os últimos ajustes para a sua invenção, uma roupa capaz de atravessar o tecido do espaço e do tempo. Só que eles vão usar essa habilidade para viver uma vida boa e aprontar altas confusões.



Sinopse:


Viajar no tempo não deve ser algo confiado a qualquer um, e Crononautas mostra claramente o quanto isso pode ser perigoso. Uma aventura eletrizante através dos momentos mais marcantes da história humana, com uma dupla de cientistas aventureiros irresponsáveis bagunçando tudo que sabemos sobre nosso mundo.






Depois que eu terminei de ler Crononautas, tive o impulso de criticar essa HQ. Enorme e grandioso. Porque pouca coisa faz sentido na história. Não há uma preocupação em explicar ou sequer que haja coerência nas cenas. Para quem está em busca de uma narrativa instigante sobre viagem no tempo, esse pode não ser o seu quadrinho. Parando para pensar depois, Crononautas é um imenso filme de comédia com dois caras que aprontam todas. Em uma pegada meio Starsky & Hutch onde os personagens tem um ego maior do que o Himalaia, mas sempre acabam se dando mal. Depois de refletir sobre isso, minha opinião melhorou uns 5%. Mas, admito que não curti a história. Só que tem um pequeno detalhe: ela é desenhada por Sean freaking Murphy.


A sinopse da história é bem simples. O doutor Quinn trabalha em uma pesquisa para o desenvolvimento de um equipamento capaz de realizar uma viagem no tempo. Depois de anos dedicados a essa pesquisa, o que faz com que Quinn se separe de sua esposa e seu pai caia vítima do alcoolismo, ele consegue desenvolver roupas especiais com essa tecnologia. Para ajudá-lo nessa missão, ele chama o aventureiro Reilly, um cara completamente maluco e cheio de positividade que vai ser o seu parceiro. Eles então mobilizam uma complexa operação, mas na hora de ativar a roupa, Quinn é sugado pelo vórtice espaço-temporal que o leva a um destino diferente do que tinha sido planejado. Reilly é destacado para ir resgatar seu amigo e, quando chega em Samarcanda, Quinn faz uma proposta para ele: que tal se a gente curtir a vida, indo de uma época a outra e vivendo do bom e do melhor.


O roteiro do Millar é bem simples e direto. Se você está esperando algo focado em ação e altos conceitos, não é isso o que você vai encontrar aqui. Millar propôs uma narrativa divertida e repleta de ironias onde os personagens são totalmente mal intencionados e usam a sua tecnologia para se dar bem. Quinn vai comprar casas, ter relacionamentos com dúzias de mulheres em épocas diferentes, colocar tanques na Idade Média e se tornar rei de uma nação. Não tentem encontrar uma lógica para aquilo que acontece ao longo da narrativa. Não tem. Millar nos fornece uma história que se passa em múltiplas temporalidades e que tem todo tipo de absurdo. É um longo filme de ação e comédia com dois protagonistas malucos. Tem furos de enredo, tem soluções deus ex machina. Se vocês esquecerem um pouco o aspecto mais sério da narrativa, dá para curtir um pouco mais o que foi criado aqui. É possível até permanecer apenas com essa história porque ela se encerra em si mesma. O que eu consigo perceber é que é um daqueles quadrinhos pensados para se tornarem longa metragens.



Vou começar falando de Reilly, o aventureiro. A personalidade me lembra muito a do Star Lord de Guardiões da Galáxia. Leve, divertido e encrenqueiro, mas é aquele tipo de personagem que está lá quando você mais precisa. Não diria que ele é o sidekick, o parceiro, mas que ele é um co-protagonista, só que acaba sendo superficial demais. Enquanto Quinn tem um plot de fundo sendo trabalhado que motiva suas ações, Reilly está somente ali do lado. Mas, ele se mete em situações completamente malucas e faz umas tiradas engraçadas. Como uma cena curtinha de quando ele e Quinn vão a Belém ver o nascimento de Jesus e o doutor oferece um crucifixo de ouro a ele e Reilly pergunta a ele se ele quer traumatizar o bebê. Além disso, ele é o personagem que sempre se dá mal como quando ele é capturado pelos guerreiros opositores a Quinn ou quando ele tenta ficar com uma garota do laboratório.


Por outro lado Quinn é um pesquisador que deseja explorar as diferentes épocas. Seu anseio por aventura se conecta ao seu conhecimento das características do passado. Quando ele vê que seu equipamento funciona direito, percebe uma oportunidade para se libertar das amarras que o prendiam em uma rede de responsabilidades. Seu trabalho custou a Quinn alegrias e felicidade. Ser capaz de ir de um lugar a outro, sem compromissos e sem qualquer apego permite ao personagem desestressar. Sim, ele faz muita bobagem, atitudes completamente reprováveis que ele mesmo entende estar fazendo. Só que ao mesmo tempo esse é como aquele momento em que apertamos o botão de reset para conseguirmos caminhar adiante. Se torna uma necessidade para que Quinn compreenda a extensão de sua mágoa. E ele só vai perceber isso quando alguém apontar a ele o que está fazendo de errado. Antes ele precisa resolver o problema com a esposa e com o pai. Uma esposa que ele deixou de lado em seus melhores momentos para se focar no trabalho. E acabou se separando porque os sentimentos arrefeceram. E um pai com problemas de alcoolismo e ele nunca pôde acompanhá-lo ou dar-lhe o ombro amigo necessário para superar um momento tão difícil.


Enfim, Crononautas não foi uma HQ que me agradou completamente. Precisei esfriar a cabeça um pouco antes de sentar e escrever alguma coisa. É uma história que não é para ser levada a sério e quando o leitor se conscientiza disso, a percepção sobre a história melhora. Não tentem encontrar coesão ou coerência. Há furos, há soluções fáceis. É o livro típico de um filme da Sessão da Tarde onde a gente desliga o botão dos neurônios e apenas se diverte com situações completamente impossíveis. Pensando assim, minha avaliação sobre a HQ subiu um pouquinho. A gente sempre espera mais, mas Millar nunca se levou a sério aqui.


O Quadrinho em 1 Quadro:



Essa HQ é perfeita para Sean Murphy mostrar todas as suas potencialidades. Se não tem o melhor roteiro do universo, a arte é assombrosa. Não pela definição de personagens, mas pela preocupação que Murphy tem com o cenário onde as coisas acontecem. O fundo dos quadros é muito detalhado e uma splash page como a de cima mostra a preocupação do artista em fornecer o máximo de informações possível. São tantas coisas acontecendo no cenário que podemos observar por vários minutos todos os detalhes. Me faz lembrar as cenas criadas por George Pérez, outro desenhista que se preocupava com o todo. Em inserir o máximo número de informações a serem interpretadas pelos leitores. Com múltiplas coisas acontecendo simultaneamente. Por se tratar de uma narrativa de viagem no tempo com tecnologia de diferentes eras presentes no cenário, a cena acima consegue ter cavalos, carros, tanques, arco e flecha, metralhadora. Algo desse estilo possui uma enorme dificuldade para um artista e estamos falando de apenas uma cena em uma HQ com quatro edições.


Outro destaque fica para a pesquisa feita pelo artista. Como a série se passa em diferentes temporalidades, Sean Murphy precisou compreender construções, roupas de época e inspirações para desenhar cada lugar. E passamos por vários como a Pré-História, Roma Antiga, Oriente Médio Medieval, descobrimento da América, Nova York na década de 1920 e vários outros. Ao mesmo tempo o artista precisa ser bastante versátil para desenhar tantos períodos históricos diferentes. Isso porque a narrativa envolve todo o tipo de insanidades acontecendo nesse período. Faço ideia de quanto foi necessário pesquisar para desenhar uma perseguição de carro em cima da Grande Muralha da China no passado. E com vários detalhes presentes no cenário.











Ficha Técnica:


Nome: Crononautas

Autor: Mark Millar

Artista: Sean Murphy

Editora: Panini

Tradutor: Eric Novello

Número de Páginas: 125

Ano de Publicação: 2018


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