• Paulo Vinicius

Resenha: "Corpo Estampado" de Iris M. Fonseca

Luzia é uma mulher-onça, uma criatura considerada lendária no interior do Brasil. Vamos acompanhar as suas alegrias, suas tristezas, suas dúvidas e sua vida itinerante. Porque uma onça vive para correr solta pela mata.



Sinopse:


A lenda das mulheres-onça deleita e amedronta crianças e jovens que se embrenham pelas matas do sertão mineiro na expectativa de conseguir ver alguma delas em transformação. Para Luzia, o corpo estampado não é uma lenda, é sua segunda pele: uma vida baseada em caçar, matar, derramar sangue. É preciso saciar a fome maior, sempre guiada por um instinto ancestral na busca por sua liberdade. No entanto, um experimento ao sul do Brasil e a descoberta sobre o verdadeiro paradeiro de seu pai, sumido em 1972, viram um desafio ainda maior que sua identidade.





Uma história curta é um gênero de escrita que acaba pedindo objetividade, foco e uma certa eficiência do escritor na sua pena. Por isso ele pode ser considerado um dos gêneros mais difíceis de escrita. Isso porque o autor acaba caindo em uma armadilha que é a do "isso é suficiente?". Quando uma história está balanceada? O quanto é pouco e o quanto é muito? Eu preciso comentar sobre tudo o que eu criei para a minha história ou posso deixar silêncios e ausências? É nesse labirinto de escolhas que eu acredito que a Íris M. Fonseca caiu e uma história com muito potencial ficou aquém do que poderia ser. Mesmo assim a autora conseguiu criar uma narrativa fascinante sobre uma lenda folclórica brasileira.


Luzia é uma mulher-onça, uma licantropa que em determinadas noites se transforma em uma onça que precisa devorar seres humanos para saciar sua fome. Sua existência é solitária à medida em que ela precisa manter pessoas que ela ama seguras de sua fome animal. Mesmo assim, nenhum ser humano é capaz de manter afastadas as relações com outras pessoas. E é nesse vai e vem que Luzia toca a sua vida: se aproximando de pessoas e depois precisando afastá-las para mantê-las longe. Ao mesmo tempo conhecemos sua infância, seus parentes e como surgiu a maldição dentro de sua família. Mas, tudo isso vai levar a Luzia se encontrar com uma misteriosa personagem que de alguma forma está ligada ao desaparecimento de seu pai.


A protagonista convive com essa sensação de solidão o tempo todo na narrativa. A narrativa é contada em primeira pessoa e o leitor consegue perceber o quanto a melancolia está presente nela. Ela busca essa conexão, mas entende que o seu espírito é andarilho e não consegue ficar presa a um único lugar. Se no começo vemos Luzia junto de sua família e somos introduzidos à forma como as mulheres-onça conseguem viver escondidas na sociedade brasileira. O quanto a família é importante para ela. Só que chega o momento em que alguém precisa seguir em frente. Só que sempre desejamos emular aquela sensação de pertencimento e encontrar uma nova família em outra parte. Como Luzia não consegue fazer essas conexões, sua vida acaba tomando rumos diferentes do que ela imaginava. As duas pessoas com as quais ela se liga não conseguem se manter em sua vida por um ou outro motivo.


A autora trabalha bem a mitologia por trás das mulheres-onça. Ela dá um ar regionalista a tudo o que acontece ao longo da narrativa, o que valoriza ainda mais a sua trama. Mesmo para quem não mora em Minas Gerais dá para perceber o quanto a narrativa bebe de influências locais. E nada é forçado demais. É diferente por exemplo de outros romances onde a ambientação é colocada em um lugar do Brasil, quando na verdade ela poderia acontecer em qualquer outro lugar do mundo. Além da ambientação, os elementos que formam a mitologia são bem trabalhados, apresentando a história, o surgimento e as características de cada integrante. Tudo isso é trabalhado de forma orgânica através de conversas com familiares, recordatórios e flashbacks. Mesmo as experiências da própria personagem servem para dar mais tridimensionalidade a ela. Seus erros e acertos a transformam em uma personagem verossímil e real.


Porém, preciso dizer que a narrativa sofre com info dumping. Muito info dumping. Isso me incomodou bastante porque tornou a narrativa desnecessariamente grande. Tudo o que foi criado para formar a mitologia das mulheres-onça poderia ter sido reduzido. Algumas coisas poderiam até mesmo serem deixadas como lacunas a serem preenchidos pelos leitores. O que eu senti foi que a autora criou um enorme número de ideias e conceitos para a sua narrativa e tentou encaixar quase todas elas de uma só vez. Isso tornou a leitura inchada e mais longa do que deveria. Ao mesmo tempo a autora colocou tantas ideias que não conseguiu desenvolver todas elas de forma eficiente. Os conceitos se misturaram com a própria trajetória da personagem o que provocou um desequilíbrio narrativo. Outro detalhe é que a personagem está tão bem construída que parece alguém de um romance longo. Mas isso veio em detrimento dos plots possíveis.


Ainda tenho que entrar no detalhe daquele terço final da narrativa quando aparece uma espécie de "antagonista". Sinceramente não vi a necessidade de inserir aquele plot na história. Destoou tanto do resto da história que derrubou o meu interesse no ato. O que fez eu curtir a narrativa foram os dilemas da Luzia. A inserção de uma organização que faz não sei o que (não quero dar spoiler) feriu a cadência narrativa. É como uma música: ela estava em um tom até certo momento e depois alterou tanto o tom que a música se perdeu. Para mim, a autora poderia ter encerrado a narrativa antes do encontro com a segunda personagem importante para a Luzia. Dava para colocar mais alguns parágrafos sobre os sentimentos dela em relação às suas conexões e fazer um balanço sobre o que aconteceu. O tema do pai desaparecido nem precisava ter voltado à tona.


Corpo Estampado é uma ótima narrativa com um sabor todinho mineiro. Apresenta uma história criativa e interessante com elementos fantásticos empregados para contar a trajetória de uma personagem que deseja apenas um lugar que ela possa chamar de lar. Embora esse sentimento de lar seja algo itinerante, já que seu instinto não a deixa ficar parada em um mesmo lugar. A narrativa sofre de alguns problemas ligados ao excesso de informações fornecidas ao leitor e a um momento final que destoou do resto da história. Mesmo assim, eu curti bastante as ideias da autora e recomendo a leitura.










Ficha Técnica:


Nome: Corpo Estampado

Autora: Iris M. Fonseca

Editora: Revista Mafagafo

Número de Páginas: não informado

Ano de Publicação: 2020


Avaliação:


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