• Paulo Vinicius

Resenha: "Copra - Round Um" de Michel Fiffe

Sonia Stone é a comandante de uma equipe de supervilões que são empregados em missões de alta complexidade. E que envolvem operações obscuras. Mas, em uma das missões, o transporte de um estranho artefato vindo de outra dimensão causa a morte de vários membros da equipe por causa de um vilão chamado Vitas. Agora, a missão é pessoal...



Sinopse:


Eles são feios. Eles são maus. E, até hoje, sempre foram fiéis! Quando um deles se revela um traidor, os homens e as mulheres da COPRA não têm alternativa a não ser usarem suas impressionantes habilidades para revidar contra todos os desgraçados que tentaram ludibriá-los.


Aqui está o primeiro volume da aclamada história em quadrinhos criada, desenhada, escrita e colorida por MICHEL FIFFE! Um épico de vingança dos anti-heróis mais barras-pesadas dos últimos anos!


Iniciada em 2012 e lançada de maneira independente por seu autor, COPRA rapidamente se tornou uma das HQs mais badaladas da atualidade, recebendo elogios do público e da crítica nos Estados Unidos. As pequenas tiragens logo se tornaram grandes conforme a popularidade crescia, a ponto de as edições serem todas relançadas pela Image Comics.


Bebendo de fontes como Steve Ditko, Jack Kirby, Jim Steranko e Frank Miller, e se inspirando em obras como Esquadrão Suicida, G.I. Joe, Doutor Estranho, Justiceiro e outros clássicos da Marvel e da DC Comics, Fiffe conseguiu agradar em cheio aos ardorosos fãs de super-heróis e se consolidou como um dos quadrinistas mais celebrados do momento!


Este volume compila as edições originais COPRA 1-6 em 164 páginas coloridas em papel couché 90g, capa cartão e formato americano, no habitual capricho gráfico e editorial da editora Pipoca &Nanquim.






Certamente esse é um daqueles materiais que ou você vai amar ou odiar (eu fiquei em um meio termo). Copra certamente é um quadrinho diferente de qualquer coisa que você vai achar no mercado. Primeiro por sua concepção: Fiffe fez essa material quase completamente de maneira independente e conquistou uma legião de fãs no processo. Ter sido adquirido pela Image é um atestado da qualidade do autor. Seu roteiro bebe bastante de fontes como o Esquadrão Suicida, de John Ostrander ou do Quarto Mundo, de Jack Kirby. Sabe aquelas tramas galácticas malucas que só alguém como o Kirby poderia ter imaginado? Está aí. Sabe a ideia de um grupo disfuncional formado por vilões que agora ficou tão na moda, mas que Ostrander foi o pioneiro? Está aí. Sem falar na arte que é de um experimentalismo formidável e eu vou passar parágrafos e mais parágrafos falando sobre. Quanto à história? Bem, eu achei que é um bom primeiro volume, mas que tem bastante coisa a avançar.


Sonia Stone é uma agente do governo que emprega alguns vilões como parte de uma equipe de alto risco para realizar missões delicadas. Membros vem e vão, mas uma parte da equipe parece ter se tornado parte de um programa. A missão mais recente envolvia o transporte de um artefato de função desconhecida vindo de outra dimensão. Os membros da equipe debatem se ele é radioativo ou não até que são atacados por um bando de vilões liderados por Vitas, que pertenceu ao Copra. Durante o embate, Vitas acaba tomando posse de uma boa parte do artefato que lhe dá poderes extras e ele mata vários membros da equipe e dispara um raio mortal em direção a uma cidade próxima exterminando dezenas de milhares de pessoas. Como Vitas era parte da equipe de Stone, o Copra é culpabilizado pela tragédia e ela e os membros que sobreviveram agora se tornaram procurados. Enquanto tentam não ser capturados, Sonia e o resto tentam encontrar uma forma de recuperar o artefato e se vingar de Vitas.


Apesar de parecer simples, o roteiro de Copra vai derramando camada após camada durante os volumes que formam essa edição. Ele se inicia como sendo uma simples missão de vingança, mas se debruça também sobre as personalidades de cada membro da equipe Copra. Há uma humanização de alguns deles como o Cabeceira, a Guthrie, o Wir e a Gracie. Mas, não se apeguem muito aos personagens porque Fiffe não tem medo de retirá-los de sua história quando são vítimas de alguma situação mortal. Só nesse volume temos vários não apenas no começo como mais adiante. Gosto de como Fiffe une escrita e arte em uma coisa só. Só que em alguns momentos a narrativa acaba sendo prejudicada por conta de buracos na explicação. Sim, já previno o leitor de que o autor não vai te dar todas as respostas, ele premia o leitor atento. Só que no momento de aprofundar alguns personagens, isso é um pouco deixado de lado. E eu estou analisando isso em cima do que o primeiro volume me apresenta. Se o autor vai ou não retornar a eles depois, eu vou refletir a respeito quando eu ler o volume dois. Aqui alguns focos ficam claros: no Cabeceira, que tem parte de seu lado fora do grupo revelado, a obsessão de Sonia em realizar a missão e até o personagem surpresa que aparece na metade da história e que tem ligação com o artefato. Acho que faltou trabalhar melhor os elementos que formam a equipe, e não é nada que não possa ser remediado com mais tempo de quadrinho.


Precisamos falar da arte que causa uma divisão nas opiniões a respeito do quadrinho. Por um lado tem leitores que compreenderam a genialidade do que Fiffe está fazendo enquanto outros se incomodam com o estilo subversivo do autor. Já digo logo de cara: se você bater o olhos nas cinco primeiras páginas e não gostar da arte, saia fora. Essa HQ não é para você. A arte não vai "melhorar" porque ela não tem o que ser "melhorada". Como citei antes, subversiva é a melhor maneira de dar um adjetivo à arte de Fiffe. Ele é afeito a diversos experimentalismos por toda a HQ e ele vai bagunçar com o que entendemos como história em quadrinhos, desde a sarjeta, ao balonamento, à quantidade de quadros por página, ao letreiramento. O que você imaginar que pode ser mudado, ele vai mudar. Como no quadro ao lado: Vincent, um feiticeiro das artes místicas vai ajudar Sonia a identificar a origem e os poderes do artefato. Ele e sua ajudante, Xenia, vão fazer testes com ele o que desperta seus poderes. No momento em que acontece a cena acima, Vincent tenta tirar a presença que existe dentro do artefato do corpo de Xenia e percebe que o objeto é ligado a outra dimensão. Seu poder começa a quebrar o fluxo da realidade, e Fiffe quebra um quadro maior em diversos pequenos quadros para representar esse fraturamento.


O próprio balonamento varia de acordo com o personagem. Pode ser uma mudança de cor, uma variação no tipo de borda, o tipo de fonte empregada. As opções que ele usa são as mais diversas. Nem tentem entender um padrão no tipo de quadrinização que Fiffe usa porque não tem nenhuma. E isso é bom porque ele surpreende o leitor que inovações na maneira como ele apresenta a narrativa. Acho que esta é a melhor maneira de conectar arte e escrita. A arte proporciona formas de comunicar ao leitor o andamento da narrativa como um momento em que um suspeito é capturado e passa por um interrogatório com a Copra. Ao invés de mostrar toda uma sequência de diálogos apresentando outros suspeitos, Fiffe mistura balão e arte para seguir como os personagens sobem na hierarquia de suspeitos. Gosto demais das soluções narrativas empreendidas pelo autor. Demonstra extrema criatividade.



Falando sobre alguns personagens, não tenho como não falar de Sonia Strong. Há uma associação óbvia com Amanda Waller, a líder do Esquadrão Suicida dentro do governo. O que vamos ver ao longo deste primeiro volume é como a personagem lida com o seu grupo e os seus superiores. O projeto é confidencial e eles estão sempre na linha de fogo. Tanto é que a trama principal da narrativa com Vitas nasce de uma disputa interna entre ela e outra pessoa que deseja tomar o seu lugar. O que eles não poderiam contar é que os acontecimentos sairiam tanto do controle. Como Sonia se vê acusada por uma tragédia tão séria, ela toma a situação com Vitas como pessoal, não apenas para lidar com alguém que fez parte do seu grupo, conhecia as mecânicas internas e soube como atacá-la diretamente, mas também para dar um recado aos seus opositores. A quem deseja tomar o seu posto. Ela estar na linha de frente nas atuações do grupo, algo que é estranhado por todos, tem muito a ver com reforçar sua posição como líder da Copra.


Já o Cabeceira é outro personagem delineado pela narrativa. É impossível não pensar no estereótipo do criminoso pequeno que acabou se envolvendo com as pessoas erradas e saiu como bode expiatório no momento do aperto. Ele revela suas frustrações acerca da situação em que se encontra e deseja abandonar em algum momento esse grupo. Ele é envolvido porque, dos membros do Copra, ele é um dos homens de confiança de Sonia. Os outros são membros instáveis que agem de acordo com os próprios interesses. Esse questionamento nós já vimos em outras situações, mas a maneira como a narrativa de Fiffe faz é bem legal. Ele não precisa de capítulo e mais capítulos; basta apresentar algumas sequências de cenas em que o personagem faz uma reflexão sobre o seu papel na vida. Uma ceninha isolada em que ele é chamado para a missão e ele pensa se deve ou não aceitar. E o seu altruísmo diante de uma situação de risco.


Poderia discutir vários elementos interessantes da arte, como toda uma sequência de cenas que envolvia a perseguição a um inimigo, mas vou deixar para outra conversa. Confesso que, pelo hype em cima do quadrinho, esperava um pouco mais, mesmo sabendo que iria me deparar com algo mais alternativo. Senti algumas lacunas na construção de personagens (não tanto na missão principal) e isso tirou um pouco da minha empolgação. Gostei da aula de arte que o autor faz e da forma como ele transforma a sua pena em uma espécie de canivete suíço de mil e uma utilidades. Só isso já vale demais a pena prestar atenção no que ele está criando.












Ficha Técnica:


Nome: Copra - Round Um

Autor: Michel Fiffe

Editora: Pipoca & Nanquim

Tradutor: Érico Assis

Número de Páginas: 164

Ano de Publicação: 2021


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