• Paulo Vinicius

Resenha: "Conto de Areia" de Jim Henson, Jerry Juhl e Ramon K. Perez

Um homem chega a um vilarejo no meio do deserto. Sendo recebido por aplausos e votos de vá em frente, ele recebe um mapa que diz que ele precisa chegar até o outro lado da montanha. Só tem um porém: não confie no mapa. 

Sinopse:


Entre 1967 e 1974, Jim Henson e Jerry Juhl prepararam três versões de um roteiro para um longa-metragem chamado Conto de Areia. Enquanto trabalhava na última revisão do texto, Jim Henson começou a se envolver na produção de Vila Sésamo e O show dos Muppets, e abandonou o cinema experimental para se concentrar nos projetos que o tornaram um criador de renome mundial. O roteiro de Conto de Areia, o único longa-metragem que Henson nunca chegou a filmar, acabou nos arquivos da The Jim Henson Company. Contudo, graças à arte de Ramón K. Pérez (Wolverine e os X-Men, Gavião Arqueiro), a obra finalmente ganhou vida como uma graphic novel de impacto visual a altura do gênio que a concebeu. Ganhadora de três prêmios Eisner em 2012 (Melhor Álbum Gráfico, Melhor Desenhista e Melhor Design de Publicação), dois prêmios Harvey (Melhor Álbum e Melhor História) e do Joe Shuster Award. Também foi eleita melhor publicação do ano em 2012 pelos sites iFanboy e Comics Alliance.




Como analisar arte? Sério, como a gente analisa algo em um nível artístico tão elevado que chega a ser intimidador. Ramon Perez se baseou no roteiro de um mestre como Jim Henson para criar algo impressionante. Para quem não conhece Jim Henson e Jerry Juhl são os responsáveis por dois enormes sucessos da TV americana: Vila Sésamo e Os Muppets. Mentes brilhantes que criaram histórias que cativaram o público por décadas. Mas, Conto de Areia é um roteiro que nunca foi adaptado, em uma época em que Henson fazia diversos trabalhos experimentais. Seu sucesso com Os Muppets acabou tomando todo o seu tempo e o projeto acabou engavetado. Ramon K. Perez transformou este roteiro em uma HQ magnífica, digna do legado deixado por Henson e Juhl. 

Sobre a edição em si, o Pipoca & Nanquim mais uma vez caprichou no produto final. A capa conseguiu manter a qualidade da edição americana, apesar de ter suas próprias especificidades. Faço ideia do trabalho editorial necessário para trazer algo tão fora da curva para o Brasil. É preciso lembrar que a editora realiza o seu trabalho de impressão inteiramente em território nacional, diferentemente da Panini, por exemplo, que envia para fora do Brasil. O formato da edição lembra um caderno moleskine com as bordas arredondadas, um elástico para marcar páginas. A capa é linda com alguns trechos em baixo relevo criando níveis na capa. A folha de guarda mostra uma mescla entre os autores e o protagonista da história. Aliás, essa é uma tônica da história; essa mescla entre o roteiro e a HQ, algo muito bem pensado por Perez. Mas, voltando à edição, o letramento também é incrível, com algumas fontes tendo sido feitas à mão. 

Vale o destaque de que o Pipoca & Nanquim é a única editora de quadrinhos totalmente transparente acerca de todo o processo editorial. Isso ajuda e muito aos leitores a entender as etapas de produção de um quadrinho. Detalhes que nós, leigos, jamais entenderíamos caso não houvesse todo esse trabalho deles de mostrar passo a passo o que foi e o que não foi feito ou como foi feito. Desconheço outra editora de quadrinhos no mundo que tenha esse trabalho. 

Dessa vez vou falar antes do traço antes de passar para o roteiro. E que coisa linda é esse traço. Muito colorido e com uma palheta de cores inacreditável. Pelo que eu pude perceber, Ramon Perez puxou bastante para o rosa e o amarelo, o que produz um visual psicodélico inacreditável. Em alguns momentos o vermelho toma conta do cenário, quando temos tensão nos quadros. Sequências e mais sequências de splash pages povoam o quadrinho. Nessas splash pages, o artista realiza quadrinizações bem fora do padrão. Para quem aprecia quadrinhos em sua forma mais artística, Conto de Areia é um deleite. Dá para passar vários minutos colados em uma página, tentando assimilar todos os detalhes no pano de fundo. Outro elemento importante é como o artista foi capaz de fazer uma integração entre quadrinho e roteiro. Um exemplo é como a história começa com o roteiro lentamente se transformando em uma imensa splash page com o protagonista chegando na cidade. Em vários momentos da narrativa o roteiro aparece durante as cenas. É uma homenagem justa à origem do quadrinho.​


Conto de Areia é uma HQ repleta de interpretações. Por o autor deixar a narrativa muito aberta e quase sem diálogos, permite ao leitor construir a sua própria maneira de compreender o que se passa entre as páginas. Não é o tipo de quadrinho que vai agradar muitas pessoas justamente pelo autor não te dar um direcionamento exato do que ele pretende. Cabe ao próprio leitor fazer o seu entendimento e mesmo este não vai estar 100% certo até porque não é essa a intenção. E nem por isso tira os méritos deste grande trabalho. É justamente por me fazer pensar que gosto tanto dele.

Uma das interpretações possíveis é que o protagonista está em batalha consigo mesmo. Cada uma das situações passadas no deserto representam os obstáculos apresentados pela vida. Cabe a cada um de nós buscar ultrapassar esses obstáculos para alcançarmos o nosso objetivo final. E é isso o que representa a linha no final do percurso. Claro que nem sempre vamos conseguir ultrapassar tudo, daí começaríamos todo o processo novamente. O mesmo vale para o caso de conquistarmos nossos objetivos: quando alcançamos, buscamos outro objetivo. Essa teoria é reforçado pelo plot twist do final do quadrinho. 

Outra interpretação é que o personagem estaria tentando vencer o vício dos cigarros. Reparem que o tempo todo ele está tentando acender um cigarro, e sempre acontece alguma coisa para impedi-lo. Seja um homem com um jarro de água, um inimigo disparando sua arma contra o cigarro, pessoas o perseguindo, uma confusão em um saloon. Tudo conspira para isso e tudo o que o personagem deseja é o alívio oferecido por uma tragada. O antagonista da história seria o próprio subconsciente dele buscando atrapalhá-lo para que ele não retome seu vício. 

Pode ser ainda que tudo não tenha passado de uma alucinação provocada por um estado de quase morte no deserto. Ao caminhar pelo deserto, ele pode ter tido algum tipo de sonho desperto em que elementos de seu inconsciente foram parar no cenário. Possivelmente uma mescla de suas memórias e experiências, algo que só seria compreensível para aquele que estava vivenciando a alucinação. Isso é típico dessa condição: mesclar memórias com fantasias. 

Os cenários são os mais diferentes possíveis e Perez usa e abusa desses elementos de roteiro para criar cenas absolutamente bizarras: discos de vinil com sons que acontecem, uma mulher de biquini tomando água de coco no meio do deserto, um saloon dentro de outro saloon, um gordinho segurando um bloco de gelo nas costas que se transforma em um cubo de gelo por causa do calor. A originalidade por trás de cada cena é estimulante. Esse é aquele tipo de quadrinho que deve ser lido e relido diversas vezes e a cada vez vai te oferecer uma interpretação diferente. Mais um trabalho brilhante do Pipoca & Nanquim que nos traz essa obra magnífica. 


Ficha Técnica:

Nome: Conto de Areia Baseado no roteiro perdido de Jim Henson e Jerry Juhl Artista: Ramon K. Perez Editora: Pipoca & Nanquim Gênero: como classificar essa HQ??? Número de Páginas: 160 ​Ano de Publicação: 2018 Link de compra: https://amzn.to/2CWlPxo

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