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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "Clarkesworld n. 140" organizado por Neil Clarke

Uma boa edição com histórias que variam desde a obsessão de uma pesquisadora por seus objetos de estudo até uma história de investigação que se passa em Marte. O destaque vai para a linda história escrita por A. Que que nos coloca diante daqueles momentos da vida dos quais nos arrependemos.


Contos desta edição:


1 - "A Vastness" de Bo Balder

2 - "Not Now" de Chelsea Muzar

3 - "Fleeing Oslyge" de Sally Gwylan

4 - "Farewell, Doraemon" de A. Que

5 - "Cold Comfort" de Pat Murphy e Paul Doherty

6 - "In Panic Town, on the Backward Moon" de Michael F. Flynn


Resenhas:


1 - "A Vastness"


Autora: Bo Balder Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



A professora Yoshi é uma especialista na vida dos Guardiões, imensas criaturas do espaço que atravessam planetas e galáxias. Não sabemos ao certo como eles vivem e quais as suas habilidades como um todo, apenas que são perigosos e deixam um rastro de destruição para trás. Mas, ela está obcecada em descobrir mais sobre essas criaturas e fará tudo ao seu alcance para obter suas respostas. Agora ela se encontra em uma nave espacial que está no encalço de um destes seres. Quando o Guardião acelera e abre um buraco de minhoca no qual irá atravessar, Yoshi faz uma aposta perigosa mesmo contra a vontade do capitão da nave. O que ela irá descobrir? E ela conseguirá sair viva e ilesa dessa experiência?


A narrativa de Bo Balder é bem direta e consegue entregar as informações que o leitor precisa em uma velocidade impressionante. Aliás, fica essa aula dessa pouca conhecida autora holandesa que consegue aproveitar ao máximo o espaço que ela possui. Às vezes nos perguntamos como contar uma história no espaço de um conto; quanto de informação entregar ao leitor e o quanto desenvolver seus personagens. Aqui ela consegue nos apresentar Yoshi, Elivera, Anna e Wiwing. Dando tridimensionalidade mesmo aos personagens que estão ao fundo. E ela faz isso através de poucas ações e comentários. Wiwing, por exemplo, é o responsável por colocar a mão na massa e pela parte de engenharia e é um dos tripulantes mais jovens e corajosos. Ao mesmo tempo, ele sabe o quanto se atirar no espaço atrás de um Guardião pode ser perigoso para a professora. Balder consegue entregar isso em duas páginas. Sabemos tudo sobre os guardiões em quatro páginas e ainda fica um espaço para mistérios. Nesse sentido, há um belo aproveitamento de espaço, noção de encaixe de palavras e construção de mundo. Pensando a partir da escrita criativa e da composição narrativa, esse é o melhor conto dessa edição. Acabou não recebendo cinco corujas por uma percepção subjetiva da minha parte que não curtiu totalmente a história.


Falando um pouco sobre a protagonista ela é impulsiva, intempestiva. É alguém que vai até o fim do universo para obter suas respostas. Yoshi é mais velha, mas isso só reforçou suas características, não dando tanto um senso de perigo. Mais tarde ela toma a decisão de ser ela a realizar o experimento perigoso e não um dos outros membros da tripulação. Elivera coloca que ela é mais importante como membro da nave por conta de seu conhecimento, mas Yoshi acaba não dando atenção a isso. Resta saber a partir do que conhecemos sobre a personagem se isso foi uma forma de ela evitar que um dos mais novos se machucasse em algo perigoso ou se foi algo que ela queria fazer por ela mesmo e, de certa forma, uma postura egoísta de sua parte. Esse é aquele tipo de história sobre cientistas indo até as últimas consequências.


2 - "Not Now"


Autora: Chelsea Muzar Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



Uma imensa mão robótica destrói o quarto onde vive nossa protagonista, uma jovem adolescente que ainda não conhece muito sobre o mundo. Os robôs são ferramentas que se tornaram parte do cotidiano das pessoas. Só que existem muitos que veem neles possíveis ameaças, causando uma divisão na opinião de todos: aqueles que são pro-ros e aqueles que são contra. A vida da protagonista é jogada de cabeça para baixo com a chegada de jornalistas, podcasters e todo o tipo de curioso que quer saber o que aconteceu exatamente, ouvir uma palavra dos sobreviventes, além de fuçar em suas vidas. Toda a privacidade da família vai por água abaixo e a jovem se sente traída até mesmo por aqueles a quem ela considerava amigos e amigas há poucos dias atrás. Tudo o que ela deseja é um pouco de paz, mas ela irá conseguir?


Que narrativa simples e sensacional ao mesmo tempo! Chelsea nos entrega uma história tão verdadeira, mas tão verdadeira que ela poderia acontecer agora no nosso mundo, se estivéssemos em um contexto semelhante. A temática explora a nossa sociedade e tece críticas pesadas sobre a maneira como bisbilhotamos a vida alheia diante de fatos excepcionais. O quanto a vida de uma pessoa pode ficar exposta de uma hora para outra. E tudo isso visto pela lente de uma jovem que não consegue entender exatamente por que as coisas estão acontecendo. Ela tem uma vaga noção principalmente no que diz respeito à divulgação das notícias e se irrita com a forma como a imprensa está lidando com a situação. Ao mesmo tempo, ela não consegue entender a reação de vizinhos e amigos. A autora consegue entregar todo o desespero e indignação da protagonista ao mesmo tempo em que ela procura ajuda e compreensão de sua família, que nada faz.


Esta é uma história que diz tanto sobre os dias de hoje. E a autora usa uma narrativa em primeira pessoa, tornando a história ainda mais impactante. Em um determinado momento, a protagonista comenta sobre o quanto ela gostava de sua amiga e as brincadeiras e confissões que elas faziam uma para a outra. De repente, sua melhor amiga se transforma em mais uma que busca um clique, um momento efêmero de fama. Apenas para seguir um pensamento de rebanho. Trazer uma narrativa mais intimista torna a indignação mais palpável para o leitor. Ao final da narrativa temos um momento lírico muito singelo.


3 - "Fleeing Oslyge"


Autora: Sally Gwylan Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



Após a invasão de alienígenas, o planeta se tornou um lugar bem perigoso para se viver. Pessoas foram colocadas em um regime de submissão onde os alienígenas controlam suas vidas. Àqueles que resistem, resta fugir dos grandes centros urbanos e campos de prisioneiros. Existem também os humanos traidores que caçam fugitivos em nome de seus mestres. Senne está fugindo de Oslyge, um lugar que a manteve cativa por muito tempo. Ela se submeteu a todo tipo de humilhações e finalmente se uniu a um grupo de mais quatro pessoas que estão saindo de lá em busca de uma força de resistência. Tudo o que Senne deseja é estar o mais longe possível do lugar. Ela não é nenhuma guerrilheira e sequer saber manusear uma arma. Apesar de representar uma luz de esperança, a fuga poderá ser mais difícil do que ela imagina. E o perigo espreita a cada lugar escuro.


A escrita de Sally é bastante claustrofóbica. Tudo é fechado, apesar de eles estarem em lugares abertos. A falta de esperança transborda dos personagens e isso se reflete nos diálogos secos e diretos entre eles. A autora usa uma narrativa em terceira pessoa, próxima dos personagens nos guiando através de uma terrível jornada onde eles precisam avaliar o que representa a liberdade para eles. O ritmo da narrativa é frenético embora a história possua poucos momentos climáticos. É impressionante o quanto ela consegue te prender na história; não por curiosidade, mas por tensão. Tudo inspira medo e ela foi muito habilidosa ao não nos mostrar exatamente quem era o inimigo. E esse não mostrar representa muito o que é a virada narrativa que acontece nos momentos finais da história. A gente fica revoltado e não consegue entender por que aquilo acontece. Mas, ao mesmo tempo, ficamos pensando se não se tratava de uma estratégia de sobrevivência.


É uma história pesada e o fato de Senne ser uma mulher que acaba por se envolver com revolucionários homens é pior ainda. Ela convive com a violência diariamente e precisou lidar com várias situações difíceis. Isso criou na protagonista uma crueza e uma desconfiança que são intrínsecas à sua personalidade. Embora no fundo tudo o que ela realmente deseje seja um lugar seguro para si. Ela não tem laços porque estes foram desfeitos quando os alienígenas chegaram. Uma sociedade repressora retirou todas as relações sociais que ela tinha. A narrativa é uma longa cena de fuga onde o grupo de Senne precisa sobreviver aos obstáculos que lhes são postos.


4 - "Farewell, Doraemon"


Autor: A. Que Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



O jovem Hu Zhou retorna depois de um fracasso em sua carreira como desenhista de quadrinhos em Beijing. Retorna para sua pequena cidade natal no interior da China e tenta dar um recomeço à sua vida. Ele revive a sua infância enquanto vê tudo e todos que ele conhecia em momentos diferentes de suas vidas. Aquela vida desprovida de preocupações e com problemas tão pequenos ficou para trás. Em sua infância ele se apaixonou pela série do Doraemon, um personagem japonês dos desenhos infantis que vivia mil aventuras ao lado de seus dois amigos humanos. Um boneco mecânico com poderes mágicos capaz de realizar sonhos. Em uma vila pobre, assistir aos VCDs da série na casa de um senhor que possuía um projetor era a diversão da molecada. Com o tempo as crianças vão deixando de lado a série e se interessando por outras coisas, mas este não foi o caso de Hu Zhou. Principalmente quando ele encontra Tang Lu, a filha do bêbado local que é viciado em apostas. Em uma vida tão difícil como a dela, suas alegrias vêm de assistir a série do estranho personagem ao lado de seu único amigo. Uma amizade que floresce como as flores na primavera, mas que por conta de acontecimentos da vida acaba ficando para trás quando Hu Zhou se muda. Outro segredo que a amizade entre Hu Zhou e Tang Lu compartilham é sobre o rio onde as coisas que boiam acima dele, afundam e desaparecem misteriosamente. Agora, crescido, Zhou tenta reatar a amizade com Tang Lu, mas encontrará uma nova realidade à sua espera.


É por essa história que adoro histórias curtas. Estou escrevendo esse texto no começo de março de 2022 (não sei quando será publicado) e já posso afirmar que é uma das minhas histórias curtas favoritas do ano. A beleza, a intensidade, a profundidade. E a premissa criada pelo autor é de uma simplicidade magnífica. A história é até grande para os padrões da revista (provavelmente se encaixa no tamanho de uma novella e não de um conto) e o autor consegue espaço mais que suficiente para fazer o leitor criar vínculos com os seus personagens. O elemento de ficção científica é muito, muito sutil e o leitor vai se perguntar por boa parte da história o que ela está fazendo aqui. Mas, acreditem, o estranho está lá... só aguardem um pouco. Consigo traçar várias semelhanças com o tipo de escrita de Haruki Murakami com a sensibilidade e a complexidade de seus personagens. A escolha de palavras, a forma como o autor nos envolve com os problemas vividos por eles.


Não nos enganemos: Hu Zhou é um personagem fracassado e que tem bastante insegurança em suas escolhas de vida. Isso o coloca no trajeto que ele percorre na narrativa. No momento em que ele precisava ser mais ativo, alguma coisa acontece para que ele decida não agir. Ao perceber os resultados de sua inércia é que ele percebe que deveria fazer algo diferente. Mesmo quando adulto, em uma situação em que ele poderia ajudar Tang Lu, ele não faz e isso tem como consequência uma série de acontecimentos terríveis. A sua jornada do herói é uma de superação, de conseguir realizar o que ele sempre pensou fazer e nunca foi capaz. Sua ação heróica, ou seja, o seu grande vilão a ser derrotado é ele mesmo. Quando ele percebe que precisa agir, precisa sair desta inércia e arriscar um pouco é que a história ganha cores.


A narrativa é belíssima e vão ter alguns momentos em que os leitores irão se emocionar. O elemento que liga os dois personagens, o boneco Doraemon, serve como catalisador para que eles tenham esperança no futuro. É bastante curioso pensar que Tang Lu, por ser a melhor aluna da sala, é a que teria mais possibilidades de crescimento. Mas em uma sociedade injusta não é isso o que acontece, algo que vemos logo de cara. O autor apresenta essa desesperança e melancolia em contraste com os flashbacks do passado que mostra uma vida mais inocente e idílica. Mesmo vivendo em uma vila mais empobrecida e com famílias com poucos recursos, os personagens conseguiam incentivar um ao outro rumo a alguma esperança no futuro. Claro que a vida apronta das suas e uma ação errada levou que o destino dos dois mudasse completamente. E nós vamos acompanhar o que vai acontecer a seguir.


5 - "Cold Comfort"


Autores: Pat Murphy e Paul Doherty Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



Diante de um planeta Terra que se encaminha cada vez mais rumo ao aquecimento global e o degelo na Antártida, um cientista se envolve na criação de uma rede capaz de capturar metano e reutilizar com outras finalidades. Para isso ele precisa do apoio do chefe de uma estação na região, além do apoio de governos espalhados pelo mundo. Quem sabe assim, ele não consiga salvar o planeta e nos levar a um novo mundo? Mas, esta missão pode ser mais difícil do que parece. Principalmente quando o interesse de governos e empresários se coloca no caminho do bem-estar da humanidade.


Essa é mais uma história que surge no esteio das discussões climáticas que vemos tendo nos últimos anos. Ela apresenta algumas ideias bastante interessantes e nem de todo impossíveis de serem realizadas. Percebemos um alto grau de pesquisa científica e de fatos presentes na narrativa. Os autores especularam um pouco em cima do que eles apresentam no texto e é sempre interessante ver aonde a imaginação dos autores de ficção científica conseguem nos levar. É preciso sempre destacar que alguns livros e contos do gênero foram responsáveis por desenvolvimentos tecnológicos em diversos campos científicos. O meu problema com a história é que ela é narrada demais. A escrita dos autores me lembrou um pouco a do Kim Stanley Robinson onde este costuma fazer este trabalho de especulação e projeção e o cerne da história tem a ver com a discussão ética ou geopolítica por trás daquilo. Só que estamos no espaço de uma história curta e Robinson geralmente escreve livros extensos. Quando isso é transportado para menos palavras, temos uma história que nos conta acontecimentos. Não temos exatamente um núcleo de personagens ou sequer o protagonista tem um desenvolvimento agudo. Acontecem algumas mudanças em sua vida, sim, mas elas empalidecem diante da narrativa. Os acontecimentos da narrativa tomam o protagonismo do cientista que está ali como um elemento decorativo apenas. As discussões éticas e científicas são muito boas e gostei de pensar na possibilidade de exploração do metano, mas e o personagem? E isso porque nem estou comentando sobre o ato de terrorismo ambiental que ele provoca no início do conto e que nunca mais é revisitado... Vale a pena pelas discussões, mas no resto, precisa de uma repaginada.


6 - "In Panic Town, on the Backward Moon"


Autor: Michael F. Flynn Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



Os problemas parecem perseguir Mickey. Ele está curtindo alguns momentos de descontração em um bar em Phobos quando ele é contratado para transportar um artefato misterioso para um homem envolvido em negócios inescrupulosos. Só tem um problema: um ladrão roubou o vigarista. E agora todos são suspeitos e o protagonista irá precisar de toda a sua capacidade de ler pessoas para descobrir quem foi o responsável. E isso envolve até mesmo seus três amigos mais próximos: Willy, VJ e Hot Dog. É, os dias não estão fáceis para Mickey.


Uma narrativa bem simples e direta que tem como foco o aspecto investigativo da narrativa. Sendo uma escrita em primeira pessoa, acompanhamos a rotina de Mickey entre Marte e o satélite Phobos. Desde os aspectos comuns até as trambicagens e os esquemas que envolvem todo o tipo de negociação. Sendo um pau-para-toda-obra Mickey pode estar ou não do lado legal das coisas. Nesse momento ele se vê obrigado a ficar ao lado da lei para não acabar ele mesmo sendo implicado em uma situação que pode deixá-lo em maus lençóis. A narrativa nos apresenta o cenário em alta velocidade e isso impede que o leitor consiga imergir no cenário proposto. São várias referências e informações que não acrescentam à trama. Se uma informação não acrescenta, para que ela está lá? Informações sobre Marte e Phobos, sobre o trabalho do protagonista, sobre os rolos que ele se envolve, isso sim é importante. Mas, estas informações se perdem no meio de outras. O mistério em si é legal, mas achei a solução meio estranha. Até reli o trecho em que eles apontam o responsável e não consegui ligar os pontos. É uma boa história que peca em alguns pontos. Para quem curte mistério é uma ótima pedida.










Ficha Técnica:


Nome: Clarkesworld n. 140

Organizado por Neil Clarke

Editora: Wyrm Publishing

Número de Páginas: 255

Ano de Publicação: 2018


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