• Paulo Vinicius

Resenha: "Cantigas no Escuro" organizado por Laura Pohl

Com uma proposta original de criar histórias baseadas em cantigas de roda, várias autoras exploram narrativas que vão desde a fantasia até o terror absoluto. Se preparem que vocês nunca mais verão essas cantigas da mesma maneira.

Falando dos aspectos gerais da coletânea antes de passar para os contos achei a proposta genial. Pegar cantigas de roda e escrever histórias com tons sombrios foi muito criativo. E todas as autoras souberam explorar bem as cantigas escolhidas seja literalmente, seja apenas como fio condutor para a narrativa. Saber o que vai sair de cada cantiga é chutar no escuro, porque cada história dependeu da interpretação que a autora fez do material usado. Algumas histórias puxam para o terror, outras para o drama e até uma que se embrenha pelo realismo mágico. Histórias de assassinato, de seres sobrenaturais, de relações abusivas. A variedade é grande e no geral as histórias são muito boas.

Peguei alguns pequenos erros de edição aqui e ali, mas nada que comprometa a fruição da trama. Só chamo a atenção porque o número destes errinhos foi razoável, então merece uma atenção maior no momento de revisar. Todos os contos tem um bom tamanho e permitiu às autoras desenvolver bem sua história. Gostei também das ilustrações muito bonitas e que ajudam a passar o ar sombrio da história. E essa coletânea merecia muito uma edição física, hein. Não é de todos os ebooks que eu digo isso, mas nesse caso, valeria muito a pena por todo o trabalho de formatação e edição.  


Contos da coletânea:


1 - "Diga Adeus e Vá-se Embora" (de Jana P. Bianchi)

2 - "Na Beira do Rio" (de Íris Figueiredo)

3 - "Juro que te Amo" (de Solaine Chioro)

4 - "Escamas de Espinhos" (de Gabriela Martins)

5 - "Dourado" (de Emily de Moura)

6 - "Algo Teu" (de Laura Pohl)


Vamos às resenhas dos contos:


1 - "Diga Adeus e Vá-se Embora"


Autora: Jana P. Bianchi Avaliação:

Gênero: Terror




Já não é o primeiro trabalho da Jana que eu leio e por essa razão sei muito bem o que ela consegue nos entregar. E é sempre com muita alegria que eu começo a ler qualquer coisa que ela escreve. A autora alcançou hoje uma maturidade na escrita que é bem característica em si. E, ao mesmo tempo, ela consegue nos surpreender dando um passo a mais. A cantiga que ela escolheu foi o Ciranda, Cirandinha e ela escreveu uma história de suspense com adolescentes. O engraçado é que a gente sente um pouquinho daquela pegada de curiosidade e aventura típica de um Stranger Things (apesar de a narrativa ser com adolescentes e não crianças). Jana preferiu uma abordagem mais literal da cantiga usando seus versos para conduzir o ritmo de suspense imposto desde o início da história.

Aqui temos um grupo de adolescentes filmando uma história de terror na casa de seus avós. Usando o celeiro e os estranhos objetos presentes por lá, eles se deparam com uma estranha lápide no celeiro. Dentro da lápide eles encontram uma caixa contendo um estranho objeto dentro. E é a partir desse objeto que vai se iniciar uma estranha história envolvendo elementos sobrenaturais. Gostei da ideia da história e da forma como ela foi finalizada. Só achei que a Jana não conseguiu desenvolver bem seus personagens e dar individualidade a eles. Muitas vezes ela consegue nos entregar bons personagens em espaços pequenos. Dessa vez não achei tanto. Talvez seja chatice da minha parte por eu conhecer o estilo de narrativa dela e a gente sempre ficar naquela expectativa de algo inesquecível. Achei legal ela ter usado uma personagem surda, mas não senti que ela fez tanta diferença para a história (exceto lá no final). Poderia ter sido muito melhor aproveitada.

Diferente de outro conto que eu li na coletânea do Mitografias, Janayna opta por uma escrita mais direta. Algo mais narrativo do que expositivo. Confesso que gostei mais da Jana contadora de histórias do que da Jana narradora. Mas, é muito mais uma questão de preferência mesmo (até porque Lobo de Rua, que eu amo de paixão, é narrado). A narrativa está em terceira pessoa, sempre com os personagens focados em grupo. Mesmo narrando a história, ela ainda mantém uma condução de história que me encanta, com poucos diálogos e mantendo o leitor preso à narrativa. Esse é aquele tipo de conto que você tem que ler do começo ao fim, sem paradas. E a própria narração da Jana vai fazer você virar páginas para saber o que vai acontecer a seguir.

Gostei da história, e a Jana manteve a qualidade tão característica de sua escrita. Ao mesmo tempo ela conseguiu nos mostrar como ela amadureceu como autora e dar um passo além. Só achei que faltou um desenvolvimento maior dos personagens, para dar individualidade a eles. Ou será que conheço tanto a escrita dela que já me tornei um chato de galocha?


2 - "Na Beira do Rio"


Autora: Íris Figueiredo Avaliação:

Gênero: Terror/Suspense




Histórias de fantasmas sempre são muito legais. Íris Figueiredo resgata aquela tradição de histórias contadas ao redor de uma fogueira. Como se fossem causos. A autora nos coloca diante de uma protagonista que tem problemas de sonambulismo e vai visitar sua amiga que mora em um lugar mais afastado. Nessa casa aconteceu um estranho desaparecimento no passado que vai voltar para assombrar os personagens desse conto.

A ideia de usar o sonambulismo como uma forma de contato com o outro mundo não é nova, mas é explorada de uma forma bem intimista pela autora. A protagonista entende que a sua condição interfere no seu modo de vida. No começo da história até somos colocados diante de uma personagem insegura acerca de si mesma e o que ela pode fazer durante os seus episódios. A autora explora bem a relação dela com seus pais, com sua amiga e consigo mesma. Não é uma jornada de crescimento (até porque não há tempo para explorar isso na narrativa), mas mesmo assim tem alguns flashes desse tipo de temática.

Outro elemento que a Íris Figueiredo deixa implícito é que a personagem parece gostar de sua amiga. Essa dúvida acerca de sua própria sexualidade e de seus sentimentos por sua amiga talvez contribuam para o fato de ela não gostar que outras pessoas a vejam durante seus episódios de sonambulismo. Mais uma vez, a autora explora isso de uma maneira bem sutil, sem se aprofundar demais, mas deixando aquela pontada de dúvida no leitor. Como eu sempre falo em algumas resenhas, muitas vezes menos é mais. A autora não precisou fazer todo um tratado sobre a personagem para torná-la mais complexa. Bastaram alguns poucos parágrafos para construir toda a personalidade dela.

Quanto à história de fantasmas em si, não achei espetacular, mas ela conseguiu transmitir o necessário para o leitor. O foco do conto não estava no acontecimento sobrenatural, mas na insegurança da protagonista e em sua relação com sua amiga. A ideia era mostrar o quanto os laços de ambas eram fortes e o quanto a protagonista precisava enfrentar seus medos. Gostei de conhecer a escrita da Íris e fiquei curioso por ler mais coisas dela.  

3 - "Juro que te Amo"


Autora: Solaine Chioro Avaliação:

Gênero: Terror




Esse é um conto que puxa mais para o terror e para a escuridão. Solaine pega a cantiga Se Essa Rua fosse Minha e dá uma guinada em direção ao obscuro que surpreende totalmente. Luciana é a irmã mais nova de Leonora. Ela foi convidada para uma festa da galera e está muito animada por ir. Faz o possível para obter a autorização dos pais para ir e a irmã fica de buscá-la na hora de ir embora. Mas, chegando à festa, Luciana fica com uma sensação ruim e pede que sua irmã volte com ela um pouco mais cedo. Ao caminhar de volta, elas são pegas por uma estranha atração rumo a um bosque escuro. Nesse bosque as duas irmãs serão confrontadas por algo da infância delas. E esse confronto pode ser fatal.

Uma das grandes necessidades em uma história de terror é a maneira como o autor faz com que o leitor sinta cada vez mais pavor à medida em que a história vai acontecendo. É o que chamamos de crescendo. Uma história de terror ela precisa sair de um ponto normal e aumentar o medo gradativamente enquanto insere elementos sobrenaturais na história. No final, o insólito está tão entranhado na narrativa que não há como retornar ao status de normalidade. Por essa razão não há como haver altos e baixos em uma história de terror… o terror precisa ser sempre crescente. Nesse caso aqui, Solaine conseguiu fazer isso com precisão. Se no início tememos pela segurança das personagens, no final sabemos que algo muito ruim irá acontecer e só desejamos que elas possam sair vivas do encontro.

A relação entre as irmãs é colocado como temática principal da narrativa. O quanto um irmão gosta do outro, o quanto eles são imprescindíveis para nossas vidas. Algumas vezes não gostamos de nossos irmãos porque eles são chatos ou implicam conosco. No entanto, eles são partes integrantes de nossas vidas. Na história, Leonora ama Luciana e vic-versa. Apesar daquelas briguinhas entre irmãs, elas sabem o quanto a presença e a companhia de ambas traz segurança e calidez às suas vidas. A escolha da narrativa em primeira pessoa pela autora foi muito feliz, pois nos permitiu entrar na mente de Luciana para entender as sensações que ela tinha ao lado de sua irmã. Da metade para o final da narrativa vemos como os parágrafos se tornam mais tensos e agitados, fruto daquilo que está se sucedendo na história. Para os fãs de boas histórias de terror, vocês vão curtir bastante essa interpretação de uma bela cantiga pela mente da autora.


4 - "Escamas de Espinhos"


Autora: Gabriela Martins Avaliação:

Gênero: Fantasia




Fazendo um trocadilho com o título, esse conto é bem espinhoso. E parabéns à edição da coletânea por avisar no início da história que ela trata de relacionamentos abusivos. Muitas pessoas tem gatilho com esse tipo de narrativa e preferem não ler. Parabéns mesmo. Mas, voltando ao parágrafo inicial, a autora foi corajosa ao embarcar nessa temática e procurou usar um pouco de realismo mágico para tratar dos sentimentos da protagonista em relação àquilo que se passava com ela. Entretanto, nem sempre se embrenhar pela fantasia vai dar o resultado adequado.

A protagonista é Tábata, uma adolescente normal que sai com as amigas para mais uma noitada. Lá ela conhece Sérgio um cara com a qual ela começa a se relacionar. O que começa como um sonho de princesa, pouco a pouco vai se transformando em uma relação abusiva, que vai corroendo a protagonista em pequenas fatias. Até que os espinhos que se formam dentro de si são tantos que ela precisa expeli-los de alguma forma. E é aí que o cravo irá brigar com a rosa, a princesa vai se transformar no dragão.

Gostei de como Gabriela constrói o tema da relação abusiva. Quando se diz que uma narrativa vai tratar disso, logo se imagina que haverá agressão física ou contato violento de algum tipo. Quando uma relação abusiva não se resume a somente isso. Muitas vezes relações abusivas acontecem quando um dos lados diminui o outro através de palavras ou ações. A relação entre Tábata e Sérgio é marcada por pequenos abusos: ciúmes exagerados, obstruir as amizades, atrapalhar a liberdade, usar como um objeto decorativo, cercear as decisões. Nesse sentido, a autora é muito feliz em mostrar os pequenos abusos que vão se empilhando um após o outro até se tornaram sufocantes e insuportáveis. O momento final é fruto de tudo isso, mas tem mulheres que não tem esse momento em que os espinhos são tantos que não é possível mais escondê-los.

Não gostei do realismo mágico empregado na narrativa. Achei que ele foi mais confuso do que útil para o contorno geral. A mensagem do cravo e a rosa teria sido obtido com a mesma eficiência sem os elementos estranhos. A história toda se cerca dessa temática. Em muitos momentos eu precisei parar e reler o parágrafo para imaginar o que a autora quis dizer com uma passagem. Ao final eu entendi que era preciso ir além das imagens fantásticas e buscar criar o que elas realmente significavam. Mas, garanto que não serão todos os leitores que vão conseguir fazer essa transição.

Porém, gostei da coragem da autora em abordar o assunto e a narrativa é boa o suficiente para transmitir de forma adequada a mensagem. Os personagens são marcantes e a estruturação da história é bem feita tendo um início, um desenvolvimento e uma conclusão bem claras.

5 - "Dourado"


Autora: Emily de Moura Avaliação:

Gênero: Fantasia/Suspense




Usando a cantiga do alecrim dourado, Emily nos coloca na pela de Rebeca, nossa narradora em primeira pessoa. Ela nos leva por uma aventura pelas matas atrás da casa de sua família. Ao lado de Rosa e da nova amiga Nadine, por quem Beca sente uma atração, vamos explorar essa mata que segue até um lindo campo de alecrim de todas as cores. Entre brincadeiras e uma tarde ensolarada, as meninas relaxam nesse campo curtindo tudo o que a natureza pode lhe dar. Mas, uma sombra está à espreita e colocará a vida de todas elas em perigo. Beca, Rosa e Nadine precisarão de todas as suas forças para escapar desse mal.

Esse foi o conto que eu menos gostei na coletânea. Ele me pareceu grande e arrastado demais. Teria sido possível cortá-lo pela metade que teria ficado melhor. Em vários momentos eu senti que a autora se perdeu em sequências de situações que não levavam a lugar algum ou até repetia frases que ela insistia em fazer gravar na mente do leitor a todo o momento. Eu entendi que a Beca sentia algo pela Nadine… não precisava ser lembrado a cada duas páginas disso. Para vocês terem uma ideia, o próximo conto lida com uma situação semelhante e a autora conseguiu o mesmo efeito (acho que até melhor trabalhado) sem forçar a barra.

Me incomodou também não saber qual era a temática da história. O foco era aonde exatamente? Na atração de Beca por Nadine? Na amizade das três? No lado obscuro da mata? O que o campo de alecrim tinha a ver com tudo? Enquanto outras autoras souberam usar muito bem as cantigas seja de forma direta ou indireta, eu não entendi qual foi o propósito do emprego da cantiga aqui. Era só porque a criatura se alimentava de alecrim? Sabe quando você fica confuso sobre qual o direcionamento tomado no conto? Foi assim que eu me senti. Infelizmente acabei não gostando da história, não me simpatizei com os personagens e me arrastei muito pela história. Se fosse um romance padrão, eu teria abandonado. Convoluto demais. É a mesma questão do menos é mais. Muitas vezes não é preciso entregar uma história muito complicada. Talvez se a história se focasse apenas na criatura sombria com três meninas explorando a mata pura e simples, não haveria maiores problemas. Não era nem preciso explorar os sentimentos delas. Bastava ser uma aventura boba que acabou mal.

Tem alguns pontos positivos na narrativa como a boa ambientação e o uso de uma lenda que eu não conhecia muito a respeito. A autora conseguiu criar essa sensação de mata e de o quanto a mata é perigosa mesmo quando ela parece inocente. Porém, os pontos negativos acabam se sobressaindo demais em relação aos positivos.  


6 - "Algo Teu"


Autora: Laura Pohl Avaliação:

Gênero: Terror




O último conto da coletânea é da organizadora e nos coloca diante de uma história realmente assustadora. Incrível como ela conseguiu pegar uma cantiga bonitinha como Batatinha quando Nasce e transformar em algo bem insólito. Laura me fez lembrar da série Além da Imaginação ou até do Contos da Cripta quando éramos colocados diante de situações bem improváveis e dali resultava uma história de arrepiar.

Um ponto extremamente positivo nessa narrativa é o quanto a autora não precisou mostrar o que estava causando o terror; bastou insinuar. Ao criar o clima e a tensão, ela fez com que a gente comprasse o que estava acontecendo como alguma coisa terrível e que não deveríamos nos aproximar. É a boa e velha suspensão de descrença funcionando de forma ideal. Bons diretores de filmes de terror não precisam te mostrar uma criatura gosmenta e que baba sangue da boca. Basta aparecer uma silhueta, ou o vento soprar diferente, ou os nossos pelos do corpo ficarem eriçados. Laura faz bem isso durante a ida da nossa narradora em primeira pessoa, Marília, até a cabana. Ela segue por uma mata escura e densa até chegar a uma cabana onde ninguém vai. Tudo fruto de um joguinho estúpido de verdade ou consequência. Marília aceita porque quer impressionar a popular Patrícia. Ela é desafiada a retornar com uma batata de uma cabana no alto da casa de um colega da escola. Mas, ao fazer isso, ela toma algo de uma força sinistra que quer também tomar algo dela.

A autora também foi muito habilidosa ao tratar da insegurança de Lia acerca de seus sentimentos em relação à Patrícia. Diferentemente do conto anterior, aqui a autora consegue ser sutil e coloca a personagem em situações totalmente verossímeis e que são coerentes com a sua personagem. Ela não precisa nos dizer que Lia é apaixonada por Patrícia. A gente sabe que ela é. É fruto de um conselho que toda hora vemos ser repetido entre autores: mostre, não diga. É o palpitar do coração de uma forma diferente, é o corar com um comentário, é o ser corajoso mesmo que seja uma coragem estúpida. A gente acaba se importando com Lia o suficiente para torcermos que ela se abra para sua amiga e revele o que está entalado na garganta.

Adorei o conto da Laura e, como bom leitor de terror, queria ver mais trabalhos da autora nesse sentido. Ela tem uma boa noção de criar tensão e uma pegada de terror em um estilo mais clássico. Quase não vejo autores se embrenhando nesse formato de histórias. Tomara que ela escreva mais porque certamente conquistou um fã.  

Ficha Técnica:

Nome: Cantigas no Escuro Organizada por Laura Pohl Editora: Auto-Publicado Gênero: Fantasia/Drama Número de Páginas: 236 Ano de Publicação: 2018


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