• Paulo Vinicius

Resenha: "Babel-17" de Samuel R. Delany

A capitã Rydra Wong se vê envolvida com a tarefa de decifrar a mensagem enviada em uma língua incompreensível para os membros da Aliança: Babel-17. O que está por trás das mensagens e dos incidentes que acontecem justamente durante o envio delas? Ela precisará de uma tripulação e de sagacidade para superar os desafios.


Sinopse:


Aos 26 anos, Rydra Wong é a poeta mais popular das cinco galáxias conhecidas. Quase telepaticamente perspicaz, sua obra captura o humor da humanidade após duas décadas de guerra selvagem. Desde a Invasão, a humanidade sofreu com fome, pragas e canibalismo – mas sua maior catástrofe será Babel-17.


Em meio a suspeitas de sabotagem, Rydra é convocada pelas Forças Armadas para analisar as ondas sonoras que precedem e sucedem cada ataque que ameaça minar os esforços da guerra. E no que aparenta ser um eco sem nexo, ela reconhece uma mensagem coerente, com toda a beleza, ordem e poder de persuasão que só uma língua possui.


Agora, Rydra precisa reunir uma equipe improvável e dominar essa língua estranha. Ao compreender melhor o outro lado, será que conseguirá resistir à tentação de se juntar a ele?




Quem sou Eu?


Comunicação é uma palavra que envolve ser capaz de interagir com pessoas. Isso pode ser feito através da fala, de gestos, de expressões. A comunicação só é concluída quando os dois lados conseguem se entender mutuamente. Esse é um dos temas de Babel-17, um clássico da ficção científica que finalmente chega ao Brasil pelas mãos da Editora Morro Branco. Ficamos muito tempo órfãos de Samuel R. Delany, um dos grandes mestres da ficção científica e alguém que consegue falar de temas contemporâneos, mesmo o livro tendo sido escrito há algumas décadas atrás. Aviso logo que Babel-17 é uma leitura difícil, uma ficção científica dura onde as informações não estão sempre claras para o leitor. Exige pensar fora da narrativa e relacionar com outros assuntos; exige reflexão e ligar os pontos por nós mesmos. Por essa razão, não é um livro para qualquer leitor. Contudo, se você for capaz de ultrapassar essa barreira inicial, vai perceber toda a genialidade do autor. Muito antes de A Chegada, filme baseado no conto de Ted Chiang, onde um grupo de cientistas tenta decifrar uma linguagem alienígena estranha, Rydra Wong procurava entender o que era Babel-17.


A narrativa do livro é em terceira pessoa, visto do ponto de vista de Rydra. Acompanhamos sua jornada onde ela vai empregar uma tripulação bem diferente de seres. Ficamos sabendo que os terráqueos estão em guerra com os Invasores, alienígenas que parecem estar atacando a Terra e outros planetas. A Terra faria parte de uma Aliança de planetas. Bem, nesse ponto eu senti que as coisas não ficaram muito claras. Delany não explica bem o que acontece no contexto geral, deixando para o leitor juntar as peças do quebra-cabeças. Só que informações essenciais não são ditas, o que pode confundir bastante. A protagonista é uma especialista em diferentes idiomas e códigos, além de ser uma poetisa. Ela é chamada para entender uma mensagem que está sendo captada pelos sensores da Terra em uma linguagem que recebe o nome de Babel-17. Ao mesmo tempo estranhos incidentes e sabotagens acontecem em vários pontos da Aliança, precedidos de uma mensagem em Babel-17. Uma missão secundária de Rydra é investigar a relação entre esses dois pontos.


Delany tem uma forma de escrita muito precisa aqui. É até curioso examinar a diferença entre o que ele escreve aqui e Estrela Imperial onde a prosa é mais poética. Em alguns momentos, o autor assume até um tom professoral, explicando as nuances do estudo de línguas e códigos. Assumimos sempre que a comunicação precisa acontecer através da fala; isso é o senso comum. Mas, a verdade é que esta pode acontecer mesmo quando as pessoas não falam o mesmo idiomas, bastando que a mensagem enunciada seja compreendida pelo outro. Abaixo eu retomo melhor essa ideia. A narrativa segue uma linha bem simples de início, meio e fim. No começo somos apresentados ao contexto e ao problema a ser resolvido. O desenvolvimento coloca um obstáculo para Rydra até o momento em que ela conhece Jebel Tariq e o Carniceiro. E o fim é o fechamento mesmo da narrativa, deixando poucos ganchos. Nesse sentido a história é bem fechadinha, com apenas algumas coisas podendo ser exploradas (mais no relativo ao mundo onde a história se passa). Tem um momento climático quase no final que é incrível e vai agradar aos fãs de scifi.


"Palavras são nomes para coisas. No tempo de Platão, as coisas eram nomes para ideias - que melhor descrição do ideal platônico? Mas as palavras eram nomes para as coisas, ou isso era apenas um pouco de confusão semântica? Palavras eram símbolos para todas as categorias de coisas, ao passo que um nome era posto em um único objeto: um nome para algo que exige um símbolo causa ruído, criando humor. Um símbolo para algo que tem um nome também causa ruído: uma memória que continha uma cortina rasgada, seu hálito alcoólico, sua indignação e as roupas amassadas enfiadas detrás de uma mesa de cabeceira lascada e barata. [....] Um indivíduo, uma coisa separada de seu ambiente e separada de todas as coisas naquele ambiente; um indivíduo era um tipo de coisa para a qual os símbolos eram inadequados, e, portanto, os nomes foram inventados. Eu sou inventada. Eu não sou um salão azul, morno, redondo. [...]"

Diferentes aspectos da comunicação são exploradas aqui: a diferença de idiomas, a capacidade para interagir com o diferente e a ausência de si. Vou começar pelo óbvio que é o tema central da história: Babel-17. Sempre acreditamos que idiomas falados precisam ter alguma relação com qualquer um dos que são falados no mundo. E temos centenas de idiomas espalhados por todo mundo, desde idiomas fonéticos até movimentos com a boca como os empregados por uma tribo que vive na Namíbia e usa estalos para se comunicar. Mas, isso não significa o mesmo para alienígenas. Eles podem empregar métodos incompreensíveis para nós, seres humanos. Infelizmente, terei que usar essa comparação, mas no conto que originou A Chegada, Chiang faz com que a protagonista, ao compreender o idioma dos alienígenas, consiga enxergar o futuro (de certa forma). Aqui, a noção é semelhante. À medida em que Rydra vai compreendendo Babel-17, ela vai se dando conta de que o universo é mais complexo do que ela imaginava. O simples entendimento dessa linguagem amplia a mente dela para a compreensão do todo.


Ao mesmo tempo temos a própria Rydra que lida com suas inseguranças e sua dificuldade de falar com outras pessoas. Vemos quando ela interage com Mocky o quanto ela luta para reforçar uma ideia de controle e comando. Mesmo ela não estando certa de suas intenções, ela vai crescendo ao longo da narrativa e lidando com uma tripulação que ela mesma escolheu. O que começa como um grupo de pessoas estranhas umas para as outras vai criando laços e passando a confiar na habilidade de Rydra. No final, a eficiência da equipe é ímpar, mesmo eles estando em outra nave que não a Rimbaud, sua espaçonave inicial.


"Carniceiro, há certas ideias, que têm palavras para elas. Se você não conhece as palavras, você não consegue conhecer as ideias. E se você não tiver a ideia, você não vai ter a resposta."

Tenho também que destacar a ideia dos três navegadores. A necessidade de serem três e não apenas um. Nem vou comentar muito a respeito porque o motivo para isto é tão legal que eu prefiro deixar para vocês lerem na narrativa. Mas, fato é que os três precisam ter um contato muito próximo e normalmente isso acaba redundando em uma relação de teor sexual. Na narrativa, Rydra encontra dois dos três (um deles havia morrido há algum tempo atrás e Rydra precisa buscar um substituto para a função de número 1). Dos três temos um número 2 mais experiente e um número 3 inseguro. E eles querem que o número 1 seja uma mulher e que seja capaz de se relacionar com os 2. Mas, como encontrar alguém que consiga lidar com personalidades tão diferentes? Rydra acaba inovando e obrigando os dois a se esforçar para conhecer melhor Mollya. Ela vai oferecer o que eles querem, mas com uma espécie de bola curva para eles. Achei a opção sensacional e realmente os obrigou a conhecer melhor a pessoa que entrou para o grupo.


Mas, claro, um dos pontos altos de Babel-17 é o Carniceiro e a relação que ele estabelece com Rydra. Aqui, a habilidade de Delany brilha. Vou dar leves, mas muito leves spoilers aqui. O Carniceiro é um personagem que não consegue usar os pronomes eu e você. Sim, podem ler com atenção. Ele não usa mesmo. Toda vez que ele vai se referir a si mesmo, o personagem apenas bate no peito. Acaba se referindo a outras pessoas na terceira pessoa. Percebendo a situação dele, Rydra tenta ensiná-lo a diferença entre eu e você e o personagem tem uma enorme dificuldade para isso. Frequentemente ele vai se confundir a quem está se referindo. O curioso é que isso acaba criando algumas situações estranhas em que o leitor precisa desconfiar daquilo que está sendo dito. Não porque o narrador não é confiável, mas porque este não sabe dizer com precisão aquilo que está dizendo. Isso nos obriga a confiar mais na cena e no contexto do que nos diálogos. Quando eu li a primeira vez achei o trecho truncado, mas quando deu o estalo e eu voltei as páginas para reler as passagens, parece que o mar se abriu.


A forma como o Carniceiro cresce na narrativa com o passar do tempo é incrível. E eu achei que ele seria só as mãos de Tariq, aquele cara que faz o serviço sujo. Mas, as camadas dele vão se revelando pouco a pouco e ele vai ganhando uma riqueza de detalhes. O que se torna uma relação de ensinamento para Rydra vai se transformando em sua missão à medida em que detalhes sobre Babel-17 vão se cruzando com o subplot do Carniceiro. Sua relação com ele vai se tornando um crescimento e amadurecimento para Rydra.


Babel-17 é genial. Como obra de ficção científica, toca em pontos sensíveis como a dificuldade dos seres humanos em se comunicar uns com os outros, a facilidade que temos de julgar outras pessoas e o fato de ainda sermos muito jovens na medida de tempo universal. Não é uma leitura simples, mas é recompensadora no sentido de que vai nos fazer refletir sobre determinados assuntos e abrir nossas mentes para outras possibilidades. Só tenho a aplaudir a Morro Branco pela coragem em trazer Babel-17 para o Brasil, um hard scifi de extrema qualidade e por apresentar a muitos leitores a riqueza da escrita de Samuel R. Delany, um monstro do gênero. Agora, é esperar para que a editora traga outros dois clássicos do autor: Nova e Dhalgren.




Ficha Técnica:


Nome: Babel-17

Autor: Samuel R. Delany

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Petê Rissatti

Número de Páginas: 279 (+114 de Estrela Imperial)

Ano de Publicação: 2019


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*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco


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