• Paulo Vinicius

Resenha: "Ayako" de Osamu Tezuka

Esta é a saga da derrocada da família Tenge. Da chegada de Jiro após a Segunda Guerra até o final derradeiro. Uma saga de traição, ganância, luxúria e o que há de pior no ser humano. Uma obra-prima do mestre Osamu Tezuka.

Sinopse:


Jiro Tenge, filho de uma família aristocrática do norte do Japão, volta para casa depois de passar anos como prisioneiro dos americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Ele descobre então um terrível segredo envolvendo seu pai, seu irmão mais velho e sua cunhada. Mas Jiro também tem um segredo, também terrível. E todos decidem que a filha mais nova, a pequena Ayako, é quem pagará pelos pecados da família. Através da história da família Tenge, o quadrinista Osamu Tezuka conta a história do Japão no pós-guerra. O trauma da ocidentalização forçada imposta pela Força de Ocupação norte-americana, os reflexos da Guerra Fria, os choques de gerações, a luta de classes, a corrupção na política, o poder da Yakuza, as guerras de gangs, a violência do machismo... Tudo em um ritmo de suspense alucinante, que surpreende à cada página. Um livro emocionante.




Quando falamos do nome Osamu Tezuka, logo associamos a histórias como Metrópolis e Kimba, com personagens inocentes e ingênuos e histórias com narrativas simples e temas como amizade, companheirismo e heroísmo. Alguns até mesmo chamavam Tezuka de o Walt Disney japonês. Mas, as comparações terminam por aí. Algumas das melhores histórias de Tezuka são Adolf, Buddha e Ayako. Com temas mais pesados, com aquela sujeira inerente ao caráter sombrio das pessoas. E Ayako é uma obra-prima neste sentido.

A narrativa de Ayako é um show à parte. Um roteiro bem definido que se expande por várias décadas mostrando a história de uma família e seus vários personagens. Apesar de levar o nome do mangá, Ayako não é necessariamente a protagonista. Vemos toda a família Tenge desempenhando um papel em uma narrativa de decadência, de ganância e de luxúria. A história gira em torno destes personagens e suas relações. O roteiro toma como base a vida de Ayako e se divide em três partes: sua infância, a adolescência e a vida adulta. Outros personagens como o inspetor Geta e seu filho Hanao orbitam em torno da família. A escrita do autor é bem simples e dá para entendermos tranquilamente o que ele quer dizer ao longo das páginas. O bacana é que Tezuka se inspirou na obra Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski para escrever Ayako e ele pretendia fazer mais com a história da personagem. A ideia era trabalhar com a vida destes personagens após a derrocada da família. Mas, vários problemas fizeram com que ele precisasse abandonar o projeto. 

Há de se comentar também acerca da edição da Veneta que está lindíssima. A capa está na cor rosa de um lado e bege do outro com uma cena em silhueta dos membros da família Tenge buscando escalar uma colina. Isso representaria a ambição sem limites dos membros. Do outro lado temos a reprodução de um belo quadro com Ayako chorando no final da narrativa. Esta imagem dá o tom da história. A edição é em capa dura e com folhas de papel pólen. Antes de Ayako ainda não havíamos tido nenhum mangá com esse tratamento. Até o momento, este mangá é o único que eu conheço que utiliza papel pólen, mais usado em livros. No final temos um belo ensaio de Rogério de Campos falando sobre o impacto da Segunda Guerra Mundial no Japão e como os mangás e mangakas estiveram na vanguarda de diversos movimentos sociais no Japão. E um pequeno texto de Tezuka sobre o mangá. 

O traço de Tezuka está lindíssimo. Está em um outro nível em relação a Metrópolis, o outro trabalho que li do autor. Aqui os traços dele estão mais sólidos, mais rebuscados. Isso pode ser visto tanto nos cenários quanto nos personagens. Todos possuem muita expressividade, seus físicos são bem construídos refletindo como os eles são. Jiro é um homem estoico que impõe autoridade; Ishiro é um homem bruto, do campo e sua forma atarracada lembra muito a de Sakuemon; Naoko começa como uma jovem cheia de vida e mais para frente aparece como uma matrona; Ayako é delineada sempre como uma boneca. Os cenários são muito bem trabalhados pelo autor. Desde o ar bucólico do campo aos prédios de um grande centro urbano. a atenção aos detalhes como os templos budistas do interior, aos detalhes tradicionais da casa dos Tenge, ao Ministério do Interior. Também gostei das quadrinizações feitas pelo autor. Em alguns momentos ele não tem medo de inserir longos textos dentro de quadros maiores. Ou experimenta mudanças na forma como os quadros são apresentados. Algumas cenas muito interessantes são a da casa de Hanao com Ayako em que o mesmo quadro é repetido várias vezes apenas com os personagens atuando como se fossem atores em uma peça de teatro. Outra cena experimental nesses moldes acontece mais para o final na caverna. Mesma situação, mas o emprego de quadros alterna luz e trevas. 

"Ichiro, lembra de quando eu era um garoto e brincava de fazer julgamentos? Lembro que tinha uma condenação para crime de guerra que era "crimes contra a humanidade". Mas o que é a humanidade? E por acaso aqueles que julgam tem moral para fazer isso? Eu finalmente percebi que esses julgamentos são apenas um espetáculo oportunista criado pelo lado vencedor."

O roteiro de Ayako é bem pesado se formos tomar como base obras anteriores do autor. Mas, o tema principal aqui é a forma como várias famílias tradicionais japonesas buscaram continuar a sugar os cofres públicos para manter o seu modo de vida. Isso em um Japão que havia sido severamente ferido durante a Segunda Guerra. Sob o controle americano, as instituições japonesas entram em um caos absoluto. O que vemos é que existe um confronto entre aqueles que querem retomar o controle e aqueles que empregam os norte-americanos segundo seus objetivos escusos. É até dentro deste cenário que a Yakuza prospera. Vemos isso pelos olhos de Jiro na segunda parte quando ele passa a comandar uma rede criminosa. Jiro volta para casa como alguém que foi derrotado e cooptado pelo outro lado. Os seus o enxergam como um traidor. Como ele acaba precisando fazer determinadas tarefas para manter determinados favores, este seu novo "trabalho" acaba entrando em choque com os interesses de sua família. Jiro apesar de ser uma pessoa razoável, tem um lado violento e isso acaba se revelando na forma como ele resolve determinadas situações quando colocado contra a parede. 

Sakuemon é o chefe da família e revela toda a sujeira por trás das famílias tradicionais. Um velho que mantém todos sob seu controle através da intimidação, demonstrando quem é o chefe da família. Um homem ganancioso acima de tudo e que obtém aquilo que quer, quando ele quer. Curiosamente a única pessoa que ele mantém algum afeto é Ayako. Com ela, ele parece ter um claro sentimento paterno. Algo que não é compartilhado por Ichiro. Ao ter que compartilhar sua mulher com Sakuemon (algo que sabemos logo nas primeiras páginas) para ganhar sua parte da herança, ele se sente ultrajado e ofendido. Mas, claro, deseja manter as aparências. Ayako é fruto dessa relação extraconjugal. Ichiro trata sua mulher como um objeto a ser trocado ou vendido desde que ele alcance seus objetivos. 

O curioso é que a pessoa imaginada por nós como o herói da narrativa, se torna mais um entre tantos nas partes mais à frente. Shiro parece ser um menino que defende a justiça e a coloca acima de tudo. Ele tenta a todo custo punir a família pelos pecados que cometem. Tudo só para cair no mesmo círculo vicioso deles. Suas boas intenções acabam esbarrando em más escolhas que ele toma depois. Ele poderia ter evitado aquilo? Talvez. Mas, o fato de ele repetir dia após dia aquilo não o tornou tão diferente assim de Sakuemon. Ele apenas vitimizou outra pessoa. Tanto que no final ele sabia os pecados que havia cometido em vida. Mas, e Naoko? Esta acabou pecando pela ausência e a indiferença. Impossível ela não saber o que estava se passando dentro da casa. Ela poderia ter tentado fazer alguma coisa. Em relação ao caso de Eno, de fato não havia muito o que ser feito. Mas, e quanto a Ayako? Vemos que ela se ressente disso também. Sabe que cometeu erros simplesmente pela inércia. 

Mas, a maior vítima de tudo é Ayako. A gente sofre junto com ela. De uma criança promissora e fofa a uma mulher sem contato com as pessoas. A escolha da família de apagar a vida de Ayako é cruel. Na metade da história, ela de fato se torna apenas uma boneca tradicional japonesa: retirada apenas durante uma certa época do ano. A crueldade daquilo que os Tenge fazem com ela é absurdo. É como se eles estivessem limpando uma sujeita para baixo do tapete. As reações emocionais que ela tem quando adulta são de uma criança que teve pouco acesso às coisas. O que ela faz com aquele que gosta só demonstra o pouco trato social que ela tinha. Shiro mostrou a ela que aquela era forma que ela tinha de amar uma pessoa... e ela reproduz o que ela viu. Se é certo ou não, não vem ao caso. Ayako sofre de antropofobia, ou seja, do medo de um contato com outras pessoas. 

Este é um daqueles mangás que vão te causar asco, repulsa e outros sentimentos ruins. Não é uma história feliz e não acaba feliz. Ele é a história de uma família fictícia, mas provavelmente é uma entre várias dessas famílias que saíram do pós-guerra. Ao mesmo tempo é uma obra de arte de um gênio dos mangás japoneses. Merece e muito a sua leitura. 


Ficha Técnica:

Nome: Ayako Autor: Osamu Tezuka Editora: Veneta Gênero: Drama Tradutores: Marcelo Yamashita Salles e Esther Sumi Número de Páginas: 720 Ano de Publicação: 2018


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