• Paulo Vinicius

Resenha: "Aventuras de Menino" de Mitsuru Adachi

Uma coletânea de histórias que certamente vai resgatar suas memórias de infância. Um grupo de amigos perdidos na estrada que se lembram de um acontecimento trágico, um bar que parece parado no tempo e rememora escolhas nunca feitas são algumas das histórias presentes aqui. 

Sinopse:


Em Aventuras de menino, o mestre japonês Mitsuri Adachi explora, com a delicadeza que lhe é característica, a saudade da infância e a melancolia de tornar-se adulto.




Quantas vezes já não nos pegamos pensando a respeito de nossa infância? Amigos que ficaram para trás, momentos de nossa vida que sabemos que nunca retornarão. Ou aquele menino ou aquela menina de quem você gostava, mas nunca teve a coragem de abordar. São essas as histórias que Mitsuru Adachi nos apresenta nessa coletãnea repleta de momentos divertidos e outros emocionantes. São 7 histórias que tem em comum o tema da nostalgia. 

Lá vou eu falar da qualidade do trabalho da L&PM. O tamanho... o tamanho. Ah, o tamanho. O traço do Adachi é tão lindo. E o tamanho do mangá achata completamente os quadros pensados pelo mangaka. Em alguns momentos ocorrem quebras de diagramação por conta do tamanho. Você consegue perceber que o espaçamento (aquela sobrinha entre o quadro e o final da página) não existe. Outro ponto: por que raios não fazem um bendito texto falando sobre o mangaka? Okay, eu aceitava pelo menos uma biografia dele e quais as suas principais obras. Adachi é uma lenda, mas ele é basicamente desconhecido no Brasil. O mínimo que se pode fazer é apresentar a importância dele para o mercado japonês. Pedia para qualquer blogueiro ou booktuber especialista em quadrinhos e mangás fazer um texto fuleirinho e colocava no final. Não daria trabalho. Repito: entendo a ideia da L&PM de popularizar mangás com temáticas mais adultas, mas não é assim que se faz as coisas. Acho que deveria ter havido um pouco mais de carinho na produção. 

O roteiro do Adachi é muito sutil. As narrativas dele procuram ressaltar bastante o cenário, a composição de cena e as expressões dos personagens. Ao falar de texto em si, é preciso destacar o quanto o estilo dele é clean. Várias histórias possuem bem pouco texto. Adachi mostra mais do que conta. O que é uma máxima que se tornou muito falada nos dias de hoje. Ele faz uma mescla entre um estilo mais fantasioso e algo mais pés no chão. Gostei muito da harmonia entre as histórias. Quando o leitor chega no terceiro conto, ele já sabe qual é a temática geral das histórias. Não há uma variação muito grande entre elas. Para mim, isso é muito bom porque demonstra que os materiais foram pensados como um todo. Não são histórias desconexas juntas por um curador. 

E que traço lindo. O uso que ele faz do preto e do cinza são lindíssimos. Ele tem uma mescla de elegância e sutileza vistos em poucos autores. O autor emprega muito os jogos de câmera para trabalhar um mesmo acontecimento sob vários ângulos distintos. Por exemplo, na cena acima temos um garoto observando e depois pegando um pequeno dragão do topo de um relógio. Vemos uma sequência desde ele descendo a escada,olhando para o relógio e pegando o objeto. Tudo sem nenhuma fala. Deduzimos a cena apenas por esta sequência. Parece simples, mas exige todo um domínio não só do desenho, mas de como encaixar estas cenas em uma ordem coerente. O design de personagens do Adachi é bem clássico e por alguns momentos me fez lembrar o Tezuka. Poucos traços e bem diretos para facilitar o trabalho do mangaka, ao mesmo tempo em que ele impõe detalhes como blusas, calças e ternos com pequenos detalhes. O cenário no fundo não é esquecido como quadros com pinturas, as folhas de uma árvore (que possuem todas as suas nervuras) que não parecem iguais, um salão repleto de itens diferentes. Gosto de como o Adachi faz as coisas parecerem simples quando na verdade não são. É o nível dele que é tão elevado que atingiu outro patamar de harmonia. 

Vou falar de duas histórias que eu gostei muito. Começando pelo fim, Caderno de Desenho é uma linda história sobre um rapaz que ia muito até uma cafeteria onde passava horas desenhando e pensando na vida. Ele tenta se declarar para uma menina que ele passou anos seguindo-a e toma uma negativa. Mas, aí vemos que esta menina se divertia rejeitando os rapazes que ela seduzia. É uma história sobre escolhas erradas e sonhos nunca realizados. O caderno de desenho onde ele colocava seus sonhos foi esquecido na cafeteria e todos os outros que ele tinha foram jogados fora em prol de uma vida de adulto. O autor não questiona se as escolhas do protagonistas foram corretas ou não. Não importa. Escolhas são escolhas, e temos todo o direito de arrependermos delas. Mas é possível também tentar corrigir e quem sabe contornar determinadas situações. 

Já Perdidos na Estrada trata de escolhas não feitas também, mas com um tom mais sombrio. Um grupo de três amigos se vê preso em uma estrada dentro de uma floresta e rememora a morte de um amigo. Eles se ressentem de não terem sido capazes de salvar seu amigo e até acreditam terem sido responsáveis pelo acidente que causou a morte de Michi, seu amigo, por conta de uma brincadeira que eles haviam feito. Quando somos crianças, fazemos coisas das quais nos arrependemos. Não sabemos a gravidade de algumas situações. Claro que isso não significa um sentimento de impunidade em relação a tudo. Nada disso. Apenas a compreensão de que crianças não possuem a mesma visão que um adulto a respeito das coisas. Ao mesmo tempo os amigos se ressentem de terem deixado o outro amigo que esteve envolvido na situação do acidente para trás. Como se eles tivessem julgado o amigo Daichi como O Culpado pela morte de seu amigo. Eles criaram uma barreira em relação a ele, o ocorrido sendo encarado como uma mácula que não deveria ser revista. 

As histórias de Adachi são riquíssimas em detalhes e sentimentos. Eu poderia ficar parágrafos e mais parágrafos comentando a respeito deles, mas prefiro deixar para que vocês, leitores, explorem a narrativa rica deste autor. Apesar da edição ruim do mangá, recomendo demais a leitura. Não tem como você não se emocionar ou refletir sobre alguns desses contos. Acredito até que o leitor irá se identificar com algum deles, ou alguma situação muito semelhante a alguma passada na infância. 


Ficha Técnica:

Nome: Aventuras de Menino Autor: Mitsuru Adachi Editora: L&PM Pocket Gênero: Romance Tradutora: Drik Sada Número de Páginas: 216 Ano de Lançamento: 2011

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