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Resenha: "Asterios Polyp" de David Mazzucchelli

Essa é a história de Asterios, um homem erudito e deveras arrogante que quando chega em sua meia-idade decide mudar os rumos de sua vida quando uma tragédia se passa com ele. É um estudo de vida e de personagem feito por um artista no ápice de sua carreira.


Sinopse:


Ao lado de nomes como Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman, o artista David Mazzucchelli foi um dos grandes responsáveis pela revolução nos quadrinhos no fim da década de 1980. Seu trabalho em séries como Demolidor: O homem sem medo e Batman: Ano 1 até hoje é referência do que foi feito de melhor no campo dos super-heróis. Depois de anos publicando apenas pequenas histórias autorais, Mazzucchelli voltou-se para esta que é a mais ambiciosa de suas histórias. Asterios Polyp é ao mesmo tempo um estudo sobre as possibilidades narrativas dos quadrinhos, um livro de design, estética, filosofia e, por que não, humor. Tudo isso sem sacrificar a trama, tão envolvente quanto os desenhos do autor. O Asterios do título é um arquiteto de cinquenta anos, cujo renome vem exclusivamente de seus trabalhos teóricos. Mulherengo, misógino e de uma arrogância quase inacreditável, ele vê seu passado se esfacelar após um incêndio que consome sua casa. Tendo salvado apenas uns poucos objetos pessoais, Asterios parte numa viagem de ônibus, até onde o dinheiro em seu bolso puder levá-lo. No coração dos Estados Unidos, ele encontrará uma nova família, enquanto coloca em perspectiva os principais acontecimentos de sua vida. Quem conta a história de Asterios é Ignazio, seu irmão gêmeo natimorto. A partir desse contraponto, Mazzucchelli cria um verdadeiro jogo de espelhos, uma trama ao mesmo tempo densa - que permite diversas leituras - e fluida como um bom romance. Para narrar a vida desse personagem complexo e multifacetado, Mazzucchelli levou a linguagem dos quadrinhos a um novo patamar, e na aparente simplicidade do traço se esconde um trabalho maduro e uma poderosa reflexão sobre o sentido dos relacionamentos, da arte, da família e, em última instância, da vida.






Falar de Asterios Polyp é bem complicado. É uma HQ tão cheia de camadas que não vou conseguir raspar a superfície do que Mazzucchelli fez aqui. A história é simplesmente emocionante, onde acompanhamos um personagem que busca encontrar uma nova razão de viver depois de passar por uma terrível perda. O autor nos entrega uma narrativa poderosa que transborda sentimentos e sensibilidade à medida em que desenvolvemos alguma empatia ou antipatia por Asterios. O protagonista é uma pessoa muito real mesmo no mundo insano de racionalismos e dicotomias que ele cria para si mesmo. Isso sem falar na arte que é magnífica e mostra toda a habilidade no traço, na composição de quadros e no preenchimento de cores pelo cenário. Tenho certeza de que ao final os leitores ficarão tocados ou incomodados com a jornada percorrida pelo personagem.


Tendo sido criado em uma família que não lhe deu a atenção que ele tanto ansiava, Asterios se tornou uma personalidade difícil de se conviver. Sua mãe teve gêmeos, sendo o outro Ignazio, que faleceu e é o narrador dessa história. Asterios cresce e se torna um arquiteto de relativo sucesso, possuindo ideias arrojadas sobre a implementação de novas técnicas de construção. Embora seja respeitado pelos seus pares, Asterios nunca construiu uma única casa. No início de sua vida adulta, ele se envolveu com inúmeras mulheres, se aproveitando de sua posição para exercer um fascínio sobre elas até conhecer Hana, com quem se casa. O início da história vê Asterios sozinho e com o apartamento completamente bagunçado e um incêndio toma conta do local. Precisando escapar do prédio, ele vê toda a sua vida sendo lambida pelas chamas. Diante de um cenário de abandono, desolação e perda, Asterios sai com a roupa do corpo e parte em uma jornada para reencontrar a si mesmo e pensar no que fazer de hoje em diante.


Vou tentar comentar um pouco sobre a arte de Mazzucchelli, mas ela é tão fora do meu alcance que já peço desculpas de cara se não conseguir transmitir adequadamente as minhas sensações. Primeiramente é preciso comentar o quando Asterios Polyp bebe da influência de Will Eisner. A habilidade com a qual o autor preenche as páginas é sensacional. A quadrinização faz parte do pensar a página. É esse tipo de raciocínio que falta bastante nos dias de hoje. É pensar em o quanto uma cena pode integrar um quadro, como algum elemento de dentro do cenário pode ser entendido como parte do todo. Seja a fumaça do cigarro de Asterios, a silhueta de Hana, as letras do cenário, os sólidos geométricos ou as figuras sem forma. Mazzucchelli teve o cuidado até de criar fontes de letras específicas para personagens que são importantes para a história. E elas, de certa forma, definem parte de sua personalidade. Seja a fonte mais empolada de Ursula, ou a letra escrita à mão de Hana, ou a letra em negrito do produtor teatral. Os detalhes fazem com que a obra ganhe muito mais detalhes se pararmos para prestar atenção. Em determinados momentos, vemos o corpo de Asterios sendo representado como uma formação de sólidos geométricos, mostrando o jeito racionalista de seu pensamento. Já Hana é representada como hachurada, sem uma forma definida já que sua personalidade é fluida.


O emprego de cores é sensacional e ajuda a contar a história. Sua distribuição pelo cenário nos conta seja o passado representado pelo azul e pelo lilás, seja pelo presente com o roxo e o amarelo. Para dar mais riqueza às cenas, Mazzucchelli preenche com tons de claro ou escuro dessas cores. Dois outros pontos que é preciso destacar é o preenchimento de silhuetas pelo cenário e o uso inteligente do branco. As sombras fornecem uma perspectiva maior para as imagens, dando profundidade às cenas. O autor ora as estica como uma forma de dar um tom dramático à cena, ora as limita para preencher o quadro com um número maior de personagens. Em determinados momentos, as silhuetas servem para apresentar alguma cena acontecendo em segundo plano. Já o branco ajuda a compor os quadros. Lembrando que Eisner coloca em seus livros sobre arte sequencial o quanto saber usar a ausência pode ser uma boa ferramenta. Em vários momentos, Mazzucchelli não emprega sarjetas, o que poderia gerar uma cena confusa, mas não é isso o que acontece. A forma como ele emprega oferece dinamismo para o que está acontecendo em cena. Às vezes mesclar quadros gera efeitos incríveis como a representação de como Asterios pensa em que vários itens são colocados em um quadro grande com pequenas janelas nas páginas laterais.


Artisticamente falando, Asterios Polyp é um trabalho extremamente maduro. Tendo sido o autor e o artista por trás da composição da HQ, Mazzucchelli conseguiu combinar arte e roteiro em uma coisa só. Há uma relação clara entre ambos e isso é percebido quando colocamos balões, quadros, sarjetas, escolha de cores, montagem de páginas e enredo todos juntos. Percebam que mesmo os flashbacks, mostrando o que levou Asterios a chegar até aquele momento, possuem uma intencionalidade. A montagem dos capítulos que se passam no presente possuem páginas iniciais abstratas mostrando algum tipo de interação entre Asterios e Ignazio. Isso é proposital porque o protagonista encara o seu gêmeo e tenta enxergar nele o que este teria feito em seu lugar; que escolhas seriam diferentes. Os cenários desenhados representam essa jornada: seja uma longa galeria de arte, seja a representação do monumento a Abraham Lincoln, ele se enxergando em um espelho d'água ou Asterios entrar em um escritório com uma arquitetura complexa. Esses elementos artísticos dizem algo e cabe ao leitor entender estes momentos oníricos dentro do escopo da história.


O protagonista não é um personagem simples de se sentir empatia. No começo é um homem bastante tóxico que impõe a sua vontade às das outras pessoas. Sua opinião está sempre correta e as dos outros deve ser descartada. O seu grande conhecimento é usado como uma forma de agredir a inteligência alheia. Ele se enxerga literalmente como o protagonista de seu próprio universo. E é nessa batida que vemos o personagem apequenando todos os personagens com os quais tem contato. Sejam alunos, companheiros de trabalho, pessoas comuns e até sua própria esposa. Esse ar pomposo serve para esconder suas próprias inseguranças, vindas de uma família que não o enxergava. Esse ar de soberba começa a se quebrar quando ele passa a interagir com Hana, que é o seu exato oposto. Hana enxerga o melhor nas pessoas e busca ajudá-las e guiá-las a se tornarem pessoas melhores. À medida em que Asterios é colocado em situações de stress, ele mostra a sua impaciência e baixa tolerância a ser contrariado, o que o faz estar no meio de situações bem complicadas.


É engraçado imaginar que a ausência do irmão pode ser o que causou a criação dessa mentalidade maniqueísta e dicotômica que cerceia a personalidade de Asterios. Ele separa todas as coisas em branco e preto, positivo e negativo, certo e errado. Na sua visão, o mundo pode ser separado sempre em duas tendências. A sua linha de pensamento gira nessa direção e mesmo para os assuntos mais absurdos, ele sempre vai conseguir um jeito de classificar em duas categorias. O numeral 2 é tudo para ele e isso pode ter a ver com essa ausência. Essa visão dicotômica sobre a vida faz com que ele torne tudo bidimensional, inclusive sua relação com o resto do mundo. O que me parece é que Asterios sente uma ausência o tempo inteiro. E ele não se conforma com isso, pensando de forma associada nas escolhas que fez. Essa relação implícita com um indivíduo que nasceu natimorto guia a sua viagem pelo seu subconsciente. É possível interpretar isso de inúmeras formas. Ignazio poderia representar algum aspecto do seu ego, poderia representar possibilidades nunca alcançadas, ou até mesmo como o próprio Asterios gostaria de ser. Ignazio poderia representar o indivíduo ideal na mente do protagonista.


Mazzucchelli entrega muitas sutilezas no roteiro. Isso vem de uma narrativa pensada onde ele não entende o leitor como um tolo. Algumas informações não são ditas abertamente deixando para a nossa interpretação. O que falamos sobre a infância de Asterios é revelada em uma série de quadros que não falam muita coisa, mas entregam uma sequência de cenas que, somadas, nos permitem fazer deduções. Outra situação que acontece mais à frente é quando Hana se envolve com um produtor de teatro. Em um determinado momento, Hana acusa Asterios de não prestar atenção em um certo tom nas interações com ele. Quando me dei conta do que era, juro que retornei a todas as partes em que Hana e ele conversavam e percebi na hora o que ela quis dizer. Mas, assim como Asterios, não percebi o que estava acontecendo nas entrelinhas e me senti culpado. O curioso é que essas interações vão ficando progressivamente grosseiras e a gente só se dá conta depois da explosão de Hana.


Não é à toa que o quadrinho é reverenciado por muitos leitores e está na lista daqueles quadrinhos clássicos que estão em outro patamar. Um roteiro soberbo montado com cuidado, atenção e inteligência. Todas as pontas são amarradas no final, que é lindíssimo e emocionante. Mazzucchelli entrega uma obra de arte que pode e deve ser lida muitas vezes ao longo da vida. Certamente vai provocar reações e interpretações diferentes a cada nova leitura. A arte é estelar e dispensa comentários. É uma aula de arte sequencial, digna de um trabalho de mestres como Will Eisner. Os quadros, os personagens, o balonamento, tudo é levado a outro nível pelo autor.



Ficha Técnica:


Nome: Asterios Polyp

Autor: David Mazzucchelli

Editora: Quadrinhos na Companhia

Gênero: Ficção

Tradutor: Daniel Pellizzari

Número de Páginas: 344

Ano de Publicação: 2014


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