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Foto do escritorPaulo Vinicius

Resenha: "As Vozes Sombrias de Irena" de M. Sardini

Na cidade de Brno, no leste europeu, estranhas ocorrências como mortes "acidentais" e desaparecimentos levam a um mistério que se desenrola à gerações. Eva e Sabina estarão no meio dessa tempestade, precisando lidar com a iminente morte de sua avó, Irena.


Sinopse:


Em 1988, na Tchecoslováquia, ocupada pela União Soviética, Eva e Sabina, duas irmãs separadas por uma grande diferença de idade, precisam desvendar um segredo de família quando sua avó, Irena, sofre um AVC. Quanto mais Irena se aproxima da morte, mais suas netas percebem a herança sombria que a avó deixa para trás e que pode colocar em risco a vida de todas as mulheres da família.






A mitologia do leste europeu é rica em histórias e muitas delas não foram exploradas. Mia Sardini pega uma criatura bastante ligada a temáticas atuais como violência doméstica e questões feministas e consegue criar uma história fascinante que mescla uma narrativa de família com a caça a uma criatura sobrenatural de grande poder. O resultado é uma história que prende o leitor ao longo de quase cento e cinquenta páginas e nos coloca diante de um mistério que vamos desvendamos aos poucos ao lado dos personagens. Confesso que desconhecia a criatura abordada no livro e a autora soube potencializar bem suas características e trazer para dentro do que ela gostaria de contar. Um bom livro de terror que mostra o potencial da autora.


Estamos em uma cidade chamada Brno, na antiga Tchecoslováquia, prestes a encarar o fim da União Soviética. Um dos países do leste europeu que está às vésperas de enormes mudanças. Começamos a acompanhar estranhos acontecimentos, sempre ligados a alguma questão de violência doméstica ou abuso. Isso leva à investigação de Dimitri, um caçador de rusalkas, um tipo de criatura que se assemelha a uma sereia e que só pode ser ferida por armas de ferro e quando se transforma em uma raposa. Em outro núcleo narrativo, Eva e Sabina, duas irmãs que perderam a mãe muito cedo e foram criadas pela avó Irena, se encontram depois de anos sem se ver. Mesmo com suas diferenças e seus caminhos de vida, elas precisam se unir pois sua avó está prestes a morrer e estes podem ser os últimos momentos ao lado de uma pessoa que foi tão importante em suas vidas. Só que Sabina, alguém que sempre teve a possibilidade de ver coisas que não são visíveis às pessoas comuns, volta a ver uma estranha mulher de cabelos molhados e que está sempre ali vigiando os seus passos a cada sete anos. Quem será esta mulher e o que ela deseja?


A escrita de Sardini é bastante veloz. Sua forma de contar histórias se foca em descrições curtas e objetivas e uma boa exploração dos diálogos entre os personagens. Não se preocupem que o info dumping existente no livro é mínimo e só acontece mais à frente na história. A autora conseguiu equilibrar desenvolvimento de personagens, encaminhamento da narrativa e quebras temporais. A narrativa é em terceira pessoa, o que ajuda a trocar de núcleos narrativas com rapidez e fornece um dinamismo maior para a história. Os capítulos são bem curtinhos o que é um ponto positivo e negativo ao mesmo tempo. Positivo no sentido de que o leitor é incentivado a continuar na leitura já que os capítulos terminam rapidamente e esse mecanismo passa a impressão de que o avanço é mais rápido do que parece. Por outro lado, acho ruim essa alternância constante porque quebra demais a história em pequenos núcleos. Teria sido melhor fazer capítulos duas ou três vezes maiores porque a história poderia ser melhor condensada. Nem sempre maior velocidade significa um resultado melhor.



Já aviso de cara que existe um aviso de gatilho no começo da história. E não é brincadeira, gente. Tem algumas situações bem pesadas sendo trabalhadas pela autora. Isso é feito de forma natural, algo que dá mais peso ao que acontece aos personagens. Algumas de suas motivações são impulsionadas por esses acontecimentos trágicos. Ou seja, não é gratuito e a autora explora bem as nuances por trás dessas situações. A rusalka é ligada a esse espírito de liberdade, de condenação por atos absurdos e até um certo pingo de vingança. Até mesmo o impacto que essas violências tem nas vítimas é abordado pela autora. As consequências em suas vidas, como elas passam a se relacionar com outras pessoas. Tudo é feito de uma maneira bastante respeitosa e de forma a levantar a bola para a discussão desses temas.


Temos uma situação familiar bem séria acontecendo. O suicídio de Bianka, mãe de Sabina e Eva, a mudança na relação das irmãs e o amor que elas tem por Irena, uma mulher repleta de mistérios e superstições. É curioso como inicialmente a autora aborda bastante a forma como cada uma das irmãs tocou suas respectivas vidas. Eva se casou com Ian e teve uma filha chamada Martina. Ela é uma mãe e uma dona-de-casa, e alguém que busca um bom futuro para sua filha. Já pensa em seu casamento e uma vida adulta segura. Claro que como toda família, nem tudo é perfeito e os problemas rondam a casa de Eva. Isso porque ela é excessivamente controladora e tudo gira em torno dela. Sabina tem uma vida mais livre e leve, sem ter um casamento adequado e sendo uma mulher de temperamento e comportamento duvidoso para uma sociedade tão conservadora como aonde elas vivem. Os destinos e escolhas dessas irmãs se chocam e elas vão precisar aprender a conviver juntas caso queiram passar pela doença de sua avó. E quem sabe se ela irá viver ou morrer? O mais importante é que elas coloquem as cartas na mesa e consigam resolver suas diferenças.


Se estamos falando em problemas familiares precisamos falar de Martina. Uma menina criada em outro momento da sociedade tcheca, próxima à reabertura. Diferente de seus pais que passaram por uma realidade mais limitada, Martina tem um espírito livre, semelhante ao de sua tia Sabina. Sua mãe a colocou junto a um rapaz que é bondoso com ela e bem resolvido em sua vida. Teoricamente uma pessoa ideal em uma sociedade tão rústica como a tcheca. Mas, será que é isso o que Martina realmente quer? Paz, segurança e conforto ou seu íntimo deseja a aventura ou algo mais quente? Essa é uma decisão que vai permear o coração da personagem que precisa ainda lidar com uma mãe que não vai gostar nem um pouco de saber aonde seu coração está.


Só achei que determinados temas acabaram sendo deixados de lado em prol da narrativa principal. Por exemplo, a própria diferença entre as irmãs acaba ganhando uma resolução rápida demais quando a doença da avó aperta. Esse lado contrastante poderia gerar uma boa discussão entre o espírito livre e a necessidade de estabelecer uma família. E estamos falando de uma sociedade conservadora e repleta de limitações, aonde desafiar o status quo poderia gerar uma condenação por subversão. Ou até mesmo a situação entre Martina e Eva que não tem uma resolução satisfatória na minha opinião. Faltou aquele momento em que as duas personagens se encaravam, seja a partir dos momentos climáticos vividos no final do livro que poderiam gerar uma mudança na personalidade de Eva ou antes com duas visões de mundo se chocando. Ambos os temas dariam bem mais riqueza a uma narrativa que já é muito boa.


As Vozes Sombrias de Irena foi a minha apresentação a essa boa autora que conseguiu me enredar com uma história apavorante, mas muito, muito humana em seu âmago. Uma história sobre mulheres precisando passar por situações limite. Embora a narrativa se passe na década de 1980, algumas das situações pelas quais elas passam são bastante atuais e estão na pauta do dia. É um livro que vai agradar aos fãs de terror com seus momentos tensos e àqueles que buscam um livro com uma temática profunda. A autora está de parabéns e já quero saber o que ela irá produzir a seguir.













Ficha Técnica:


Nome: As Vozes Sombrias de Irena

Autora: M. Sardini

Editora: Avec Editora

Número de Páginas: 144

Ano de Publicação: 2021


Link de compra:


*Material enviado em parceria com a Avec Editora














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