• Paulo Vinicius

Resenha: "As Dez Torres de Sangue" de Carlos Orsi

O grupo formado pelo mercenário Rouen, o nobre D. Manuel e sua esposa Teresa foram capturados por bandoleiros no deserto do Saara. Seu destino será se aventurar pelos recantos mais sombrios do interior do deserto e, quem sabe, sair com vida.

Sinopse:


Nas profundezas do Saara fica Antares, o Olho do Escorpião, a Cidade das Dez Torres, para onde foram exilados os sultões da primeira raça humana criada por Alá, homens primordiais de grande estatura e crueldade que desafiaram seu Criador e que estão na raiz das lendas que mantêm os bravos beduínos do deserto acordados e com medo à noite. Para Antares se dirigem Suleiman Ibn Batil e sua refém, a nobre Dona Teresa. Ele tem dívida de sangue que só pode ser paga com a destruição total da fortaleza maligna. Ela apenas deseja escapar – do deserto, de Suleiman, dos desígnios da própria família. Em As Dez Torres de Sangue, novela do autor e organizador veterano Carlos Orsi, descubra uma aventura entre os mistérios da Cabala e as intrigas do Império Português da Era dos Descobrimentos. Armados apenas com espadas afiadas e a própria coragem, os Suleiman e Dona Teresa enfrentam monstros, estátuas vivas e outras criaturas fantásticas em busca do segredo que levará à derrocada final das Dez Torres.




Essa foi uma boa surpresa relacionada a histórias de terror. Já fazia algum tempo que eu não lia algo desse tipo. O espaço para desenvolver a história não foi muito grande, mas mesmo assim eu achei curioso as ideias que o autor trabalha na história. Tudo bem encadeado e gerando uma mitologia que, mesmo em um espaço pequeno, funciona e dá credibilidade ao que o autor apresenta.

A escrita da novella é muito boa. Tudo é apresentado de uma forma bem direta e sem firulas. Mesmo o info dumping (a construção do mito, a apresentação dos personagens e do mundo) é feito bem organicamente, sem ser moroso ou cansativo. A narrativa é feita em terceira pessoa onisciente, sem correr grandes riscos. Gostei também da fluidez da história: não tem palavras complicadas ou jargões empregados. Isso torna a leitura mais prática e veloz. E você sente vontade de continuar a leitura porque o autor vai colocando diversos ganchos interessantes para que você dê continuidade. Não existem divisões em capítulos. Temos algumas separações em subseções ao longo da história de forma a formar cenas. Mas, como o livro é pequeno, essa falta de montagem em capítulos só reforça o fato de o autor ter optado por uma novella ao invés de um romance. Aliás, parabéns ao autor. Eu gosto demais desse gênero de histórias.

Só não consegui formar uma ligação ou uma empatia com os personagens. Vi no GoodReads que as avaliações do livro estão medianas e acho que a culpa está aqui. Os personagens são pouco aprofundados (nem tem como aprofundar muito por causa do tamanho da narrativa), mas esse é um dos perigos do estilo novella. Não dá para cometer exageros e, se não houver uma medida adequada, algum elemento de composição acaba ficando prejudicado. Mesmo com o backstory empregando elementos de história colonial brasileira, os personagens soam esquisitos. Como se fosse possível usar qualquer tipo de personagem em qualquer período histórico. O fato de serem portugueses indo para Goa não muda nada. Eu vi em um vídeo sobre histórias curtas que existe um enorme desafio para os autores escrevendo flash stories, contos ou novellas que é encontrar a maneira de equilibrar narrativa, apresentação de personagens e desenvolvimento. Não tira o mérito do autor ter escrito uma história divertida e aterrorizante.

A narrativa pode ser dividida em duas partes: um trecho que trata da vingança de Ibn Batil e outro que mostra a entrada dele e de Teresa em Antares. O plot da vingança é bem solucionado e serve de gancho para a história principal. Os personagens fazem sentido uns para os outros. Nenhum deles foi colocado ali por acaso. Todos servem a um propósito principal. Achei que o autor poderia ter retornado ao plot da vingança mais para a frente na história, mas seria mais um luxo do que propriamente uma necessidade. Achei interessante o fato de ele apresentar um pouco da cultura muçulmana no processo. O espírito de colaboração, a honra, a mudança de nome. Mais curioso ainda é o autor aproveitar o espaço para fazer uma conexão entre cristianismo, judaísmo e islamismo. Tudo isso servindo de base para a montagem da mitologia do lugar que ele criou.

Por falar em lugar que ele criou, este é muito bem construído. O terror inerente à história criada. Os cenários são aterrorizantes e as descrições ficaram muito boas, mesmo os dos personagens mais chocantes. Me senti em um desses games modernos que lidam com a temática infernal. A imaginação do autor é incrível e a cena final com as correntes e todo o resto é incrível. A própria cidade de Antares é um espaço que vale a pena ser mais explorado em outras histórias. Não sei se essa é a intenção do autor, mas ele deixou muitos ganchos para explorações posteriores. Eu fiquei meio perdido no final com a libertação e quais foram as consequências desse fato. O que eu depreendi disso é que passou a ideia de ser quase como uma história de terror contada ao redor de uma fogueira. Me lembrou os clássicos pulp antigos em que os personagens se aventuram por um lugar desconhecido e precisam enfrentar diversos perigos. Em dados momentos parece até algo saído de um filme do Indiana Jones, quando Ibn Batil explica à Teresa sobre a árvore da vida.

As Dez Torres de Sangue é uma boa história de terror que pode ser lida em poucas sentadas. Possui uma ambientação aterrorizante e a cidade criada pelo autor deixa muito espaço para novas histórias. Achei os personagens pouco explorados principalmente Ibn Batil que poderia ter uma história de fundo muito boa. Isto pode ter acontecido por causa do espaço explorado ou de um equilíbrio maior entre personagens, ambiente e narrativa. Entretanto, a escrita do autor é muito boa mesmo. O leitor não sente dificuldade alguma durante a leitura e as páginas passam facilmente.


Ficha Técnica:

Nome: As Dez Torres de Sangue Autor: Carlos Orsi Editora: Draco Gênero: Terror/Fantasia Número de Páginas: 96 Ano de Lançamento: 2012


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