• Paulo Vinicius

Resenha: "As Crônicas de Marte" organizado por Gardner Dozois e George R.R. Martin (Parte 1)

Atualizado: 18 de Mai de 2019

Esta é uma coletânea feita para homenagear os bons tempos das histórias de aventuras em Marte: caranguejos espaciais, ilusões de ótica, artefatos malignos. Todas as histórias saídas de mentes brilhantes como David Levine, Allen Steele, Mary Rosenblum, Joe Lansdale.

Sinopse:


Quinze contos inéditos escritos por grandes autores de ficção científica reunidos pela primeira vez num só volume.

Uma princesa de Marte e As crônicas marcianas, dos mestres Edgar Rice Burroughs e Ray Bradbury, foram clássicos que influenciaram a imaginação de milhões de leitores e mostraram que aventuras espaciais não precisavam se passar numa galáxia distante, a anos-luz da Terra para serem emocionantes. Elas podiam ser travadas logo ali, no planeta vizinho.

Antes mesmo do programa Mariner e da corrida espacial, a imaginação já povoava nosso sistema solar com seres estranhos e civilizações ancestrais, nem sempre dispostos a fazer contato amigável com a Terra. E, de todos os planetas que orbitavam o nosso Sol, nenhum tinha uma aura de maior romantismo, mistério e aventura do que Marte.

Com contos escolhidos e editados por George R. R. Martin e Gardner Dozois, As crônicas de Marte retoma esse sentimento ao celebrar a Era de Ouro da ficção científica, um período recheado de histórias sobre colonizações interplanetárias e conflitos antigos.

Para essa missão, autores consagrados como Michael Moorcock, Mike Resnick, Joe R. Lansdale, S. M. Stirling, Mary Rosenblum, Ian McDonald, Liz Williams e James S. A. Corey foram convidados a revisitar o misterioso planeta vermelho, aqui representado como um destino exótico e desértico, com cidades em ruínas, civilizações impressionantes... e, é lógico, perigos inimagináveis.

Enfim, o bom e velho Marte está de volta.




Esta é uma resenha especial dividida em duas partes por causa da quantidade de contos presentes na coletânea. Nesta parte se encontram os seguintes contos:


1 - "Sangue Marciano" (de Allan Steele) 2 - "O Patinho Feio" (de Matthew Hughes) 3 - "O Acidente do Mars Adventure" (de David D. Levine) 4 - "Espadas de Zar-Tu-Kan" (de S.M. Stirling) 5 - "Bancos de Areia" (de Mary Rosenblum) 6 - "Nas Tumbas dos Reis Marcianos" (de Mike Resnick) 7 - "Saindo de Scarlight" (de Liz Williams) 8 - "Os Manuscritos do Fundo do Mar Morto" (de Howard Waldrop)


Vamos às resenhas:


1 - "Sangue Marciano"


Autor: Allan Steele Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




As histórias de John Carter se tornaram muito famosas nos EUA. As explorações nos rios de Marte, os combates contra jeddaks, contra tiranos e até líderes de seitas levavam os americanos à loucura nas décadas de 1920 e 1930. Até os dias de hoje vemos reflexos da obra de Edgar Rice Burroughs nos livros de muitos autores de ficção científica. Allan Steele pegou toda essa herança e influência e ressignificou em uma história onde a colonização de Marte se tornou algo maligno. Nosso protagonista é uma espécie de faz-tudo que é contratado por um doutor para levá-lo até uma comunidade de marcianos. Nesse mundo, os seres humanos acabaram construindo grandes cidades e os marcianos se afastaram da esfera de influência dos homens e se retiraram para uma vida no interior dos desertos marcianos. São muito avessos ao contato com os homens e apenas poucos deles como Ramsey são capazes de se aproximar e entender os mesmos. Mas, o doutor deseja uma gota de sangue dos marcianos. Ele quer provar que terráqueos e marcianos possuem uma origem comum. Mas, isso vai ser uma jornada extremamente complexa e difícil.

O leitor é colocado em uma espécie de Las Vegas em Marte. Tudo respira John Carter: as garçonetes estão vestidas como as mulheres de Carter, os seguranças vestidos como marcianos vermelhos, e até tem estátuas simulando as montarias das histórias de Burroughs. Isso mostra a banalidade dos objetivos do homem ao colonizar outros planetas. Vemos que tudo o que tem na Terra foi transplantado para o planeta vermelho. Tanto as coisas boas como as coisas ruins. Essa crítica social é forte à medida em que hoje pensamos em singrar o espaço seja para encontrar outros seres inteligentes ou para criar um mundo melhor. Mas, o autor deixa claro que o ser humano visa apenas repetir o que ele fez aqui na Terra.

A relação entre terráqueos e marcianos se assemelha demais a de colonizadores e colonizados. Os colonizadores espanhóis expulsaram os nativos para o interior do continente. Estes ou foram escravizados ou criaram uma forte aversão aos europeus. Com o tempo essa aversão acabou se transformando em guerras que duraram muitos séculos. Os povos indígenas acabaram massacrados pela superioridade tecnológica dos europeus. Aqui, não é que o autor coloca que os marcianos serão exterminados, mas que isso pode acontecer. Um determinado acontecimento no conto dispara um gatilho que faz o protagonista pensar se vale a pena deter um certo conhecimento ou não. Vale a pena arriscar o tênue equilíbrio da relação entre humanos e marcianos?

Gostei muito do conto de Allan Steele e eu creio que este não é o primeiro conto que leio dele. Mas, de toda forma, gostei do ritmo e da maneira como tudo é construído progressivamente. Mesmo em uma realidade absurda de colonização em Marte com elementos estranhos e curiosos, a narrativa manteve sua seriedade acima de tudo.


2 - "O Patinho Feio"


Autor: Matthew Hughes Avaliação:

Gênero: Fantasia




Esse é um conto que vocês vão criticar a escolha do gênero dele. Não acredito que o Matthew Hughes tenha escrito uma ficção científica justamente pela história na qual ele se inspira para escrever a história: Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Muitos consideram a escrita de Bradbury em seu clássico como uma fantasia passada no espaço, pelos elementos que ele utiliza e pela maneira como conduz a trama. Hughes faz o mesmo em um planeta desconhecido e encantador.

A narrativa acontece em terceira pessoa a partir do ponto de vista de Fred Mather, um arqueólogo que conseguiu seu lugar na expedição a Marte por acaso, mentindo sobre o seu currículo. Tudo o que ele quer é ter a sensação de estar sozinho no planeta e tentar encontrar alguma coisa que desperte a sua atenção. Ele foi destacado pelo seu supervisor, Red Bowman para seguir até a Cidade dos Ossos e inserir uma série de transponders no chão para facilitar o trabalho das máquinas escavadoras. Estas irão retirar todo o minério possível, não sem destruir tudo ao redor. Mas, Mather vai encontrar estranhas estruturas na cidade que o transformarão para sempre.

Eu tenho que aplaudir o trabalho de Hughes por conseguir criar uma história curiosa e fazer um bom trabalho com personagens. Para aqueles que acreditam que não é possível desenvolver características psicológicas dos personagens em espaços pequenos, leiam esta história. De um lado temos Mather que é um estudioso e gosta de ficar na dele, curtindo o ambiente do planeta vermelho. Sua sensibilidade para as coisas vai ser o que o colocará em apuros. De outro, temos Bowman que teoricamente funciona como o antagonista da história. Durão, ambicioso e religioso, ele não gosta de Mather, um estudioso tolo que se meteu no seu grupo de homens durões. Em menos de quarenta páginas, o autor consegue criar personagens bem distintos.

No fundo temos alguns temas circulando. Não quero discutir aspectos da metade final do conto, mas dá para comentar o que é dito logo nas primeiras páginas. A New Ares Mining é uma empresa que está ali para retirar o que for possível de Marte e tentar lucrar ao máximo com isso. Hughes retoma o tema da colonização selvagem que foi trabalhada por Bradbury em seu clássico. Aliás, o conto em si é uma releitura de um dos melhores contos da coletânea Crônicas Marcianas e tem até um easter egg para os leitores: Bowman fala de uma expedição que deu errado porque um dos que estavam lá matou todos os outros. Pois é... esta é a terceira expedição descrita por Bradbury em um dos primeiros contos da coletânea. Então, o que podemos ver é que o homem ainda deseja explorar de forma selvagem e sem se importar com os arredores tudo o que ele consegue retirar dos lugares. Muitas vezes as riquezas de uma civilização não podem ser medidas em ouro, prata ou metais preciosos, mas em experiências que vão além de nossa imaginação.

O Patinho Feio é um conto fantástico de um autor que bebeu muito da influência de Ray Bradbury. Conseguiu extrair o que havia de melhor na escrita deste autor: a sutileza, a profundidade e a reflexão.

3 - "O Acidente do Mars Adventure"


Autor: David D. Levine Avaliação:

Gênero: Fantasia




Queria aproveitar a resenha deste terceiro conto para fazer uma crítica básica:

Leitores, os senhores entenderam qual é a proposta da coletânea?

Pergunto isso porque muita gente teceu críticas duras à coletânea e sequer entenderam a essência dos contos apresentados aqui. Quem estava esperando space operas contemporâneas, hard sci fi de ponta, ideias de vanguarda, quebrou a cara feio. Não é nem de longe a proposta de Crônicas de Marte. Gardner Dozois pediu aos autores que escrevessem histórias baseadas nas antigas pulps das décadas de 1930 e 1940, como as que Edgar Rice Burroughs, C.L. Moore e até o Ray Bradbury chegaram a contar nas páginas da Weird Tales e de tantas outras revistas. Desculpe dizer, gente, mas isso não é ficção científica... é fantasia. A maioria das histórias presentes aqui puxa para o fantástico e não para o científico. E algumas, como este conto do David D. Levine vão se inspirar no Edgar Rice Burroughs que escrevia histórias com elementos absolutamente bizarros.

Quantos já leram Uma Princesa de Marte? Quem leu sabe o quanto é divertido e absurdo ver John Carter dando saltos de vários metros no ar e enfrentando tharks, montando thoats e seguindo em busca da bela Dejah Thoris. Ah, mas não dá para explicar a ciência racionalmente nessas histórias. SIM... Não dá, de fato. A proposta do Burroughs, assim como a do Levine, é ser pastelão mesmo. Um navio que coloca balões no mastro e voa para o espaço sideral, um capitão pirata tentando se desviar de "ventos" na atmosfera exterior, alienígenas que parecem caranguejos.

A história é divertida. Não é para ser levada a sério. Lógico que eu não vou dar nota máxima para um conto assim, mas eu ria sozinho lendo a história. Os absurdos que o Levine inventava me fez lembrar e muito de quando eu me divertia na adolescência lendo as histórias de John Carter. Não dá para a gente ser aquele leitor de ficção científica fiscalizador o tempo todo; relaxa. A história da ficção científica da Era de Ouro é repleta de ideias bisonhas, como as de Curt Siodmak, Edmond Hamilton e tantos outros. Levine resgata essa nostalgia em uma escrita bem simples de ser entendida. Chega até a brincar com os clichês das histórias de piratas.

Se você quer achar graça de uma história absurda e ver até onde a imaginação de um autor pode chegar, leia essa história. Se você quer algo sério, nem leia a coletânea. Ela não foi feita para você. Mas, é uma pena: vai perder muita diversão e alto astral de autores que tem muita habilidade na pena.


4 - "Espada de Zar-Tu-Kan"


Autor: S.M. Stirling Avaliação:

Gênero: Ficção Científica (?)




S.M. Stirling nos entrega uma boa história de aventura que alguns elementos de estranhamento presentes na trama. Temos tudo aqui: ambiente exótico, personagens diferentes, aventura, espionagem. O clima da história lembra muito Aventureiros do Bairro Proibido com aquele toque de ameaça ao mesmo tempo em que tem coisas bem absurdas na trama.

Beckworth é um jovem pesquisador que chega à Marte e vai morar com Sally, alguém que já conhece o funcionamento daquela sociedade. Apesar de os humanos terem colonizado boa parte de Marte, Zar-Tu-Kan ainda tem a maioria de marcianos. É uma cidade em que as culturas terrestre e marciana entram em conflito com muitos não compreendendo os hábitos estranhos desses povos. Quando Beckworth é sequestrado por Coercivos (mercenários marcianos) dentro de seu apartamento, Sally vai buscar a ajuda de Teyud, a Graça Pensativa, uma Coerciva que já trabalhou com Sally para tentar resgatá-lo. Teyud e Sally vão precisar enfrentar inúmeros perigos para descobrir quem levou Beckworth e como resgatá-lo.

Claramente Stirling se baseou em filmes de artes marciais para compor a personalidade dos marcianos. Até mesmo os nomes curiosos como Graça Pensativa, Dinastia Carmesim, Harmonia Sustentada. Dá aquele ar de paródia. Então, é aquele tipo de conto que você vai se divertir lendo, muito mais do que tentar buscar uma seriedade na história. As cenas de ação são bem construídas e muito dinâmicas o que me fez gostar da escrita do autor. O final é curioso e surpreende o leitor. Não por ser um plot twist, mas por ser irônico até. A história é escrita em uma narrativa em terceira pessoa com discurso direto, mas o estilo de escrita nem é o mais importante da história, mas o seu ritmo alucinante.

Os personagens são bem ricos e, mesmo não tendo muito espaço para desenvolvê-los melhor, redondinhos. Sally é uma personagem marcante, com uma personalidade ácida e distinta. Ela é bem ativa na história e representa bem o seu papel como protagonista. Satemcan é o cachorro-que-não-é-cachorro e fornece alguns momentos bem engraçados como durante a invasão no apartamento. A gente acaba se afeiçoando pelo Satemcan. Teyud está ali para representar o choque de culturas entre terráqueos e marcianos. Representa um jeito diferente de pensar e ver o mundo.

Para aqueles que são nostálgicos dos filmes dos anos 80, Espada de Zar-Tu-Kan é uma história divertida e engraçada nos momentos certos. Fluiu muito bem comigo.

5 - "Bancos de Areia"


Autora: Mary Rosenblum Avaliação:

Gênero: Fantasia




Vivos ou mortos. Essa é a única maneira de existirmos no mundo? Será que não existe alguma outra forma de vida, diferente dessa dicotomia no universo? Alguma possível outra dimensão, ou algum estado de existência que não pode ser definido pelo simples estou vivo ou morto. Serão esses conceitos que a autora vai tentar explorar nesse conto que é incrivelmente reflexivo e surpreendente.

Maartin é um menino que sofreu um acidente junto com sua mãe quando estavam indo até as minas em Marte. Eles caíram em um banco de areia e apenas o menino sobreviveu. E ele bateu a cabeça muito forte, causando uma hemorragia que deixou sequelas. Agora, ele consegue ver estranhas criaturas perambulando pelo ambiente. Criaturas além dos seres humanos. Por causa do acidente, ele não consegue mais articular bem o sentido da fala então as outras pessoas o enxergam como um retardado. Mas, ele pode ser o único que pode salvar a cidade quando os homem começam a destruir os bancos de areia onde as pequenas criaturas que somente Maartin vê decidem retaliar.

Foi bem ousado da Mary Rosenblum trabalhar com Maartin. Ele é um menino com muitos problemas para compreender o mundo ao seu redor. Enxergamos a história a partir do seu ponto de vista. Por causa de seu acidente, ele articula as frases e as percepções de um jeito estranho, que pode parecer uma escrita truncada para o leitor. Mas, não é. É simplesmente a maneira como um menino com hemorragia cerebral e dificuldade de articular ideias em frases enxerga o mundo. Por essa razão, suas descrições são camadas atrás de camadas em riqueza literária. Não dá para julgar ingenuamente o que ele está descrevendo e descartar como se fosse algo inútil. Um contraste muito bom vai ser quando Jorge, um dos mineiros, vai traduzir o que Maartin está tentando dizer para as outras pessoas da cidade. A narrativa é em terceira pessoa e o discurso varia entre o direto e o indireto livre.

O tema da existência é muito bem abordado pela autora. Quando pensamos em um ser, seja lá o que ele for, sempre pensamos em uma dicotomia vivo ou morto. Mas, no universo pode existir algo além disso ou diferente disso. Ainda não temos capacidade para explicar o que isso poderia ser, mas Rosenblum nos mostra o quão complexo isso é. Nos faz pensar o quanto sabemos sobre a realidade de fato. E a incompreensão do mal que os mineiros estavam fazendo também é típica da exploração selvagem do homem por recursos. A riqueza sempre acaba cegando o nosso julgamento.

Mary Rosenblum escreve um conto muito bom, com uma escrita acima da média e um tema de bastante profundidade. Faltou um algo mais para eu considerar algo perfeito, mas, mesmo assim, em qualidade estética, é um dos melhores contos da coletânea até o momento.


6 - "Nas Tumbas dos Reis Marcianos"


Autor: Mike Resnick Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Uma das minhas lembranças mais antigas como adolescente é de curtir aquelas histórias bobas de aventura que passavam na Sessão da Tarde. Filmes como Zardoz, Warlock, Jumanji, Aventureiros no Bairro Proibido. Era um momento em que eu sentava para duas horas de pastelão, de defeitos especiais, mas de altas emoções. Não era nada sério, era apenas o puro prazer de curtir algo divertido. E o Mike Resnick me fez reviver estes momentos através de Nas Tumbas dos Reis Marcianos.

Temos a história de Scorpion e seu companheiro Merlin (que não é um cachorro), mercenários que são os melhores o que fazem. Pelo preço certo eles podem cumprir a sua missão desde um assassinato até um resgate. Quedipai é um marciano que se especializou nos escritos antigos e deseja encontrar a Tumba doa Reis Marcianos onde ele irá encontrar um livro sagrado contendo todos os segredos ancestrais. Uma missão que parece simples, mas vai ser uma montanha russa de emoções.

Quem busca uma aventura séria com altos conceitos não vai encontrar aqui. Resnick escreve uma história muito solta em uma narrativa em terceira pessoa em discurso direto no qual o que vale é a aventura. Escapar de perseguidores, evitar armadilhas, enfrentar perigos ancestrais. Parece até um Indiana Jones no espaço. E é essa a proposta. A escrita do autor é bem simples e direta, mas ao mesmo tempo ele consegue nos entregar algo formidável. Não é fácil escrever uma narrativa que flua como água, no qual as páginas se passam sozinhas sem sequer o leitor perceber o que está fazendo. Apesar de suas quarenta e duas páginas, a história pode ser lida direto sem interrupções.

Não temos uma temática forte embasando a história do autor, apenas o puro prazer de uma aventura. Os personagens que ele constrói são impactantes no sentido de que você consegue gostar deles logo no primeiro instante. Scorpion tem uma personalidade irônica e aproveitadora, naquele jeitão cafajeste do Han Solo, de Guerra nas Estrelas. Merlin é o parceiro perfeito do personagem, servindo como âncora e companheiro nos momentos de perigo. Seus poderes telepáticos aparecem desde o primeiro instante e em muitos momentos salvam o grupo. Eu adorei o final, e combina muito bem com o personagem. Dá aquele tom engraçado à história.

7 - "Saindo de Scarlight"


Autora: Liz Williams Avaliação:

Gênero: Fantasia




Já mencionei algumas vezes como a proposta original da coletânea engana os leitores. Muitos de vocês pegaram Crônicas de Marte achando que encontrariam várias histórias de ficção científica. E se decepcionaram ao verem que não se trata nem um pouco disso. Saindo de Scarlight é o exemplo mais na cara dessa filosofia da coletânea. Liz Williams entrega uma história que respira fantasia por todos os poros.

Zuneida Peace já foi escrava e dançarina em Cadrada. Precisou fazer várias coisas das quais ela não se orgulha. Disfarçando-se de um homem, Thane, soturno, protegido por uma máscara, ela vaga pelo continente em busca de serviços. Ela foi contratada por Houlsen para resgatar a princesa Hafyre sequestrada pelo feiticeiro de Ithiss. Ao longo de sua busca ela vai precisar lidar com o seu passado e enfrentar diversos desafios. Principalmente outro caçador de recompensas chamado Nightwall Dair.

Adorei a personalidade de Zuneida. A autora consegue nos entregar uma personagem forte que precisa viver em um mundo onde as mulheres não tem espaço. Elas servem a propósitos servis, mas mesmo assim nossa protagonista consegue tocar sua vida e enfrentar os seus desafios de frente. Ela não é nem uma mulher-guerreira, mas alguém que precisou se adaptar a um meio difícil e agressivo a ela. Esconder sua identidade foi a única maneira que ela encontrou para manter sua integridade. Em todos os momentos em que ela se encontra em perigo, Zuneida faz suas escolhas sem pestanejar.

A ambientação não é nem um pouco de ficção científica. A autora usou o planeta Marte como uma ambientação incomum como Nárnia ou a Terra Média ou qualquer outro mundo fantástico. Tem algumas coisas que lembram armas futuristas, mas poderia fazer parte de qualquer livro de fantasia. A autora demonstrou sua flexibilidade diante da proposta e se inspirou em autores como C.L. Moore que usam esse tipo de espaço para construir suas histórias. Não dá nem para falar muito sem estragar as surpresas que a autora apronta por aqui.

A escrita dela é um pouco mais pesada, carregada nas descrições. A narrativa é em primeira pessoa então somos capazes de visualizar o universo a partir dos olhos da protagonista. Ela entrega uma fala sardônica e em muitos momentos melancólica. A narrativa se encaixa bem com o ponto de vista, sendo um discurso indireto com alguns momentos de diálogo. O conto é uma quebra total de paradigma do que você, leitor, viu até esse momento. E a autora mostra a nós as possibilidades dentro da exploração de ambientes interplanetários.


8 - "Os Manuscritos do Fundo do Mar Morto"


Autor: Howard Waldrop Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Estamos sempre tentando buscar de onde viemos. Essa obsessão pelas origens tem a ver com descobrirmos o motivo de estarmos vivos para alguns. Para outros tem a ver com desvendar os mistérios do próprio coração. Claro que vão existir várias outras razões, mas a verdade é que estamos sempre empreendendo essa jornada por mais que ela possa não ter razão alguma de ser; Howard Waldrop nos leva a uma dessas jornadas.

O nosso protagonista está em uma jornada para reviver os passos de um antepassado chamado Oud. Há milhares e milhares de anos ele embarcou em uma jornada rumo a um ponto distante onde ele teria dado origem à forma como os marcianos passaram a viver. Ele descreve sua jornada em um diário de viagem que o protagonista procura reviver passo a passo. A história possui dois pontos de vista: em primeira pessoa com o protagonista contando como está o andamento da reconstituição e em terceira pessoa com o diário de Oud.

Howard Waldrop mostra muito bem como é a nossa cisma de buscar nossa origens. Se tornou algo quase filosófico entender de onde viemos para projetar o para onde vamos. Para o protagonista essa é uma viagem emocional, não há um objetivo profundo por trás e ele sequer espera encontrar algo espetacular no ponto onde Oud fez seu ritual de passagem. Neste caso aqui, não se trata de dar importância ao objetivo final, mas à trajetória em si. São as etapas da viagem que vão fornecendo ao protagonista insights sobre si mesmo.

A criatura Oud é bem original. A gente sempre tende a imaginar os personagens espaciais como humanóides e eu imaginei isso até a metade da história. Quando Waldrop descreveu parte da constituição física do personagem, meu queixo caiu. Ele nos surpreende de uma maneira incrível e até a gente ficava se perguntando quem é o tal de Gui que aparecia de vez em quando no diário. Isso porque no começo, ficamos sabendo que Oud embarca sozinho na jornada. Gostei da originalidade e isso me fez querer muito ler outras coisas do autor.

Vale destacar também que de certa forma a escrita é feita em uma maneira epistolar. Logo temos trechos do diário alternando-se com a narrativa em primeira pessoa do protagonista. Para quem quer aprender novas formas de uso deste tipo de estilo, aqui fica uma excelente dica.

Ficha Técnica:

Nome: As Crônicas de Marte Organizada por Gardner Dozois e George R.R. Martin Editora: Arqueiro Gênero: Fantasia/Ficção Científica Número de Páginas: 496 Ano de Lançamento: 2018


Outras Partes:

Parte 2


Link de compra:

https://amzn.to/2YGLqQR


Tags: #cronicasdemarte #gardnerdozois #georgerrmartin #editoraarqueiro #marte #aventura #civilizacoesdesaparecidas #ruinas #descobertas #areia #ficcaocientifica #fantasia #leiascifi #scifi #amoscifi #igscifi #leiafantasia #amofantasia #igfantasia #ficcoeshumanas



ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.