• Paulo Vinicius

Resenha: "As Crônicas de Marte" de Gardner Dozois e George R.R. Martin (Parte 2)

Atualizado: 18 de Mai de 2019

Nesta segunda parte de nossa resenha sobre essa coletânea, teremos contos mais voltados para a ficção científica. Fica o destaque para o conto de Michael Moorcock (que parece um western) e o de Melinda Snodgrass.

Esta é uma resenha especial dividida em duas partes por causa da quantidade de contos presentes na coletânea. Nesta parte se encontram os seguintes contos:

9 - "Um Homem Sem Honra" (de James S.A. Corey) 10 - "Escrito no Pó" (de Melinda Snodgrass) 11 - "O Canal Perdido" (de Michael Moorcock) 12 - "A Pedra no Sol" (de Phyllis Eisenstein) 13 - "Rainha do Romance Barato" (de Joe R. Lansdale) 14 - "Marinheiro" (de Chris Roberson) 15 - "A Ária da Rainha da Noite" (de Ian McDonald)


Vamos às resenhas:


9 - "Um Homem sem Honra"


Autor: James S.A. Corey Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Quem conhece a dupla James S.A. Corey (Daniel Abraham e Ty Franck) certamente é familiar com a série The Expanse. Estamos acostumados com as grandes tramas interplanetárias dos livros que compõem a série. É um sopro de ar fresco ver a dupla tentando algo diferente. E algo bem na linha do que Edgar Rice Burroughs tentou um dia.

Para os leitores que buscam uma grande space opera nos moldes do que eles publicaram, vai tomar uma rasteira feia. Esse é um conto muito inspirado nas histórias de John Carter, com várias situações impossíveis acontecendo e personagens com uma fala bem estóica e estilosa. A escrita é na forma de uma carta na qual o protagonista, o capitão Lawton conta ao rei da Inglaterra as suas aventuras em Marte. Ele pede perdão por ter cometido um crime último contra a sua honra.

O estranhamento inicial é pela escrita estranha e até "ultrapassada" do autor. Mas, isto é um estilo, de forma a homenagear os pulps e romances planetários do começo do século XX. Gostei da coerência com a qual o autor manteve sua escrita e em nenhum momento encontrei uma inconstância (ele não surta e muda o estilo no meio da história). As falas dos personagens parecem muito coerentes com aquilo que eles querem passar e com o lugar de onde eles vem. Lawton é um corsário e ele vive ao lado de uma tripulação de bandidos e rejeitados.A vida no mar é dura para eles e isso forma na tripulação um esprit de corps que os fazem ainda mais mortais. Para mim, a dupla acertou e muito na criação de uma escrita que pudesse reviver a época dos piratas.

Os personagens são bem construídos também. Mesmo aqueles que participam pouco da história. Novamente fica aquela impressão de uma história enorme, mesmo ela sendo apenas um conto. A gente fica querendo ver mais aventuras com o sr. Darrow, o jovem Carter, o gentil La'an (uma espécie de homem sapo) e, claro, da valente Carina Meer. O mais legal é que o personagem deixa uma série de pistas quanto a outras aventuras que ele possa ter vindo a fazer em Marte, mas ele usa aquela expressão do tipo "mas, isso é uma outra história". O contorno dado aos personagens os faz se individualizar uns dos outros. Carter é aquele jovem ambicioso que faz o que for possível por dinheiro. O sr. Darrow é o fiel imediato da tripulação, que já viveu inúmeras aventuras do lado do capitão e que não vê outra vida além dessa. Carina representa o elemento alienígena na história na primeira metade e é ela quem abre as portas para uma outra maneira de enxergar o mundo.

A história se centra na noção de honra. Os personagens por terem sido construídos a partir de um ideal romântico, seguem toda uma série de códigos de conduta de cavalheiros. Se fôssemos posicionar os personagens em alguma corrente literária, seriam como os personagens de romances do século XIX. Então a todo momento, vemos o capitão enfrentar obstáculos que vão testar a sua noção de honra. Até porque o governador Smith, mesmo sendo um vilão, segue as normas do cavalheirismo. Mas, aí fica aquela pergunta: se o cavalheirismo torna alguém virtuoso, por que um ser inescrupuloso como Smith é honrado? Existe outro caminho além da honra? É possível ser bondoso e desonrado? Essas são as questões deixadas pelo autor nessa história.


10 - "Escrito no Pó"


Autora: Melinda Snodgrass Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




O quanto a falta de ação pode ferir as pessoas ao nosso redor? Muitas vezes somos colocados diante de decisões difíceis: sair de um trabalho e ser feliz, se separar porque uma relação não deu certo, dar uma bronca em um amigo que está machucado. É aquele momento em que tudo que está entalado na garganta sai como uma torrente de lava vulcânica que amarga o nosso interior. Devemos ficar quietos ou expulsar nossos demônios? É com essa proposta que Melinda Snodgrass escreve uma história repleta de sensibilidade e que fala um pouquinho a cada um de nós.

Stephen é um velho amargo que depois que perdeu sua esposa Catherine se tornou uma pessoa rude. Mas, ele precisa de pessoas para cuidarem dele, pois sua saúde está debilitada. Catherine morreu por conta de uma doença que afeta muitos humanos que colonizaram Marte, os obrigando a seguir para as cidades abandonadas pelos marcianos e lá permanecerem até adoecerem por completo. Kane e Noel são um casal homossexual que conseguiram ter uma filha, Tilda, através da ciência avançada da época, mas esta se parece muito com Catherine. Stephen acaba tendo um carinho profundo por ela. Kane e Noel viajam para Marte para cuidar de Stephen e de seus negócios e chamam Tilda para visitá-los. Seria uma visita curta, já que Tilda vai retornar à Terra para ingressar na universidade de Cambridge para estudar psicologia. Mas, Kane e Stephen tem outros planos para ela: obrigá-la a estudar agronomia e a assumir o "negócio da família".

Adoro quando autores de ficção científica pegam temas batidos de ficção e transportam para este tipo de cenário futurista, dando uma nova cara ao enredo. Quantas vezes já não vimos o tema da criança que é obrigada pelos pais a assumir o negócio da família e terá que lutar para provar que ele deve seguir o seu próprio destino. Esse é o tema da história. Claro que existe toda uma série de situações a mais colocadas aqui como as cidades marcianas, o ambiente inóspito. Achei o enredo genial e a forma como a autora vai nos encaminhando para a conclusão é magnífico. Ela empilha os acontecimentos um em cima do outro até que não há retorno para aquilo que acontece mais para a segunda metade. O status quo de todos é quebrado por conta da decisão de Tilda. Ela é a mola que provoca a mudança.

Muita coragem da autora colocar um casal gay como protagonista da história. O que mais me satisfez é como ela fez com que eles se tornassem absolutamente normais, sendo um casal propriamente dito. O fato de ambos serem homens não é o mais importante. O amor que um sente pelo outro é bonito e doce. Noel representa o lado brando da relação e deseja que a filha tenha liberdade para fazer suas próprias escolhas. Kane é preso à sombra de seu pai, Stephen, e comprou a ideia de que é preciso que Tilda permaneça em Marte. Outro elemento curioso é como os papéis são invertidos: Noel fez parte do exército de defesa da Terra e participou de inúmeras guerras enquanto Kane é uma espécie de fazendeiro. Noel sendo o mais doce da dupla era para ser alguém cruel, que viu a morte de perto em vários momentos. Mas, tal não é o caso. A relação de ambos é riquíssima, fazendo com que todo o núcleo familiar seja importante para a história.

O sentimento é muito explorado pelo autor. De um lado temos um personagem que está preso a um passado que não tem retorno. Isso fez dele uma pessoa rancorosa, incapaz de tocar a vida adiante. Do outro temos um casal que luta para se libertar de algo que não é um problema deles. Kane ainda não cresceu o suficiente (mesmo sendo um adulto) para se libertar de seu pai. Não foi ainda capaz de dar seu grito de independência, de decidir o que ele quer para si. Ele entende que está fazendo Noel e Tilda sofrerem, mas ele acha que aquilo que está fazendo é a decisão certa a se tomar. Porém, na verdade, vemos ele afastar sua família progressivamente. Isso fica claro a cada jantar que a autora mostra. O que começa como uma reunião feliz entre pessoas que se amam, logo se torna algo ruim e com uma atmosfera silenciosa onde os rancores estão perambulando pelo ar.

A história é incrível e é um dos trabalhos mais tocantes dentro dessa coletânea. Vale muito a pena a leitura.

11 - "O Canal Perdido"


Autor: Michael Moorcock Avaliação:

Gênero: Ficção Científica/Fantasia




Michael Moorcock pertence a uma outra geração de autores que desbravaram o universo de fantasia e trouxeram um sopro de ar fresco ao gênero. Portanto, ao lê-lo é possível perceber o quanto sua pena é carregada com o peso da experiência e da habilidade de romper com os padrões. Ele nos entrega uma história sobre alguém que vai ser impelido a se tornar um herói, mesmo diante de tudo aquilo que acredita ser o contrário.

Mac Stone é um ladrão; alguém que aprendeu em toda a sua vida que é preciso sobreviver antes de tudo. Tendo sido vendido ainda pequeno por sua mãe para trabalhar no subsolo de um asteróide em um ambiente extremamente perigoso, Mac aprendeu a ser ardiloso. Tendo conseguido fama e fortuna através de sua habilidade de se adaptar às mais perigosas situações, ele se vê perseguido agora por um estranho caçador. Quando encontramos com ele, Mac está fugindo pelos desertos marcianos de forma a conseguir uma brecha para matar aquele que o está caçando. E descobrir quem quer a sua cabeça. Mas, ele se verá envolvido em uma trama maior que pode colocar o planeta inteiro em risco.

Me lembro da sensação da leitura depois da quinta página da história. Pensei: "caramba... estou lendo um western". A história te passa a sensação disso a todo momento: um cavaleiro solitário, perambulando pelo deserto e que só deseja uma vida simples no planeta em que nasceu e aprendeu a amar. A história parte do ponto de vista de Mac e passamos longos momentos apenas com o protagonista em que ele nos transmite seus sentimentos e sensações sobre o que ele está vivendo. O leitor percebe que o personagem é um solitário, mas que ele deseja para si algo diferente. Porém, devido a tudo o que ele teve de fazer para sobreviver, ele não se sente digno de ter alguma coisa melhor. É muito engraçado porque quando o chamado do herói vem a ele, ele não recua. Aceita de pronto e entende que aquela é a possibilidade de se redimir.

O único problema nesse conto é o imenso info dumping que tem na metade da história. O autor conta toda a história do desenvolvimento marciano ao longo de mais de dez páginas. Isso faz a história ficar um pouco lenta na sua metade. A gente precisa dessa história para entender o peso da decisão e da missão de Mac, mas isso poderia ter sido feito de forma diferente. O personagem poderia ter flashes através do capacete, ter descoberto um diário ou até o holograma contar a história em partes enquanto Mac se dirige para o clímax.

Enfim, se você ainda não teve a oportunidade de ler alguma coisa escrita por Michael Moorcock, essa é a sua oportunidade. O autor tem uma escrita muito elegante e os altos conceitos que ele cria são facilmente compreensíveis.


12 - "A Pedra do Sol"


Autor: Phyllis Eisenstein Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Assim como o conto de Melinda Snodgrass, estamos diante de um conto que explora bastante o lado emocional dos personagens. O ambiente de Marte acaba sendo palco para uma exploração da relação entre pai e filho e de o quanto é importante entendermos os desejos de nossos pais, queiramos ou não seguir aquilo que eles nos deixaram.

Depois de passar alguns anos estudando na Terra, Dave retorna para casa para retomar os negócios de turismo em sítios arqueológicos junto de seu pai, Ben. Mas, ao chegar em casa, Rekari, o estranho assistente marciano de Ben, informa a Dave que seu pai morreu, vítima de um problema cardíaco. Rekari lhe entrega uma pedra do sol e lhe diz que esse foi o último desejo de seu pai. Mas, o filho quer ter uma conversa final com seu pai e lhe prestar as devidas homenagens e parte até o local onde ele foi enterrado. A Pedra do Sol deixada por Ben a seu filho tem um significado profundo que ele só descobrirá ao longo dessa viagem.

Esta é uma história de pais e filhos e de como alguns desejos podem ser passados adiante. Dave é um menino que acabou se afastando do resto de sua família por conta de sua proximidade com seu pai. Nem sempre os filhos concordam com aquilo que nossos pais desejam. Isso é o que Bev, irmã de Dave, sente. Mas, Dave entende o quão maravilhoso é a profissão do pai. Explorar cidades antigas, encontrar tesouros escondidos e poder compartilhar com todos as maravilhas deixadas pelos ancestrais é parte do prazer de um arqueólogo. Estes não querem o conhecimento para si, e sim que todos possam compreender e refletir sobre o que foi deixado para trás e como podemos preservar isso.

Phyllis tem uma pegada muito boa acerca do psicológico dos personagens. Vemos o choque cultural entre Dave e Rekari, mesmo Dave sabendo como se comportar diante dos marcianos. Seus hábitos ainda lhe são estranhos e Rekari apenas lhe passou parte do conhecimento total sobre seu povo. O quanto é importante a aceitação de outros. Dave é diferente porque é um terráqueo nascido em Marte. Isso faz dele um marciano? Mesmo ele sendo de outra raça? Será essa dicotomia que perseguirá toda a narrativa. Seja na capacidade que ele tem de portar uma Pedra do Sol, uma joia dada ao herdeiro legítimo de uma família marciana, seja no que ele encontrará no final da história.

A escrita é feita em uma terceira pessoa e, na maior parte, em discurso direto. Apesar de o conto possuir largos trechos descritivos e poucos diálogos, ainda podemos caracterizá-lo como direto pela forma como o autor constrói seus diálogos. Gostei do domínio que ele tem sobre seus personagens e a maneira como ele fez para abrir aquilo que eles sentem no fundo de seus corações. Esse é, sem dúvida, o grande diferencial desse conto.

13 - "Rainha do Romance Barato"


Autor: Joe R. Lansdale Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Em uma coletânea de contos, é impossível você gostar de todos eles. Alguns você curte mais, outros menos. E infelizmente esse foi o que eu menos curti e vindo de uma das melhores mentes de terror ainda em atividade: Joe R. Lansdale. Calhou de ser no conto dele aquele que não me encantou e que eu levei mais tempo para atravessar sua história.

Angela King é uma médica e junto de seu pai eles estão se dirigindo a uma região afastada de Marte, nas calotas polares, para levar a vacina para curar uma doença terrível que assola a todos que vivem no planeta vermelho. Acontece um acidente durante a ida onde o pai de Angela morre e ela precisa chegar até o Outro Lado para entregar a vacina em segurança, Mas, essa viagem vai ser marcada pela perseguição de um tubarão de gelo a ela. A protagonista vai viver mil aventuras, se deparando com cavernas escondidas e ruínas de civilizações antigas.

O que eu percebi é que Lansdale quis fazer uma sátira às histórias de exploração em Marte. Curiosamente ele usa uma série de clichês ao longo da narrativa de forma a que tudo aconteça "acidentalmente" para a personagem. A narrativa é uma grande cena de perseguição e sobrevivência. Mas, imagine isso de um jeito pastelão. Tudo é muito inconcebível, a personagem sempre escapa das maneiras mais bizarras e inusitadas. É feito de propósito mesmo. Mas, ao mesmo tempo em que é engraçado a forma como ele compõe a sátira, me incomodou ao mesmo tempo. Não permitiu que eu acreditasse na história que estava acontecendo. Tudo caminhou para que eu entrasse em um modo completo de descrença.

A personagem também é feita de forma satírica. Ela usa bordões o tempo todo, consegue sempre criar alguma coisa no improviso. Achei ela pouco trabalhada pelo autor, que poderia brincar com o histórico dela e dar um tom pomposo à coisa. A escrita é bem descritiva com pouquíssimos trechos de diálogo. Como é uma história de sobrevivência, não houve a necessidade de compor grandes diálogos, apenas partir para o factual. Tudo isso contribuiu para que eu não gostasse da escrita do Lansdale, pelo menos não aqui. Ele usa bem a narrativa em primeira pessoa, mas o leitor não se sente na pele do personagem. Enfim, não recomendo esse conto em especial.


14 - "Marinheiro"


Autor: Chris Roberson Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Chris Roberson nos entrega mais um conto de piratas, mas este segue a linha do swashbuckling, ou seja, de disputa entre piratas, do código deles e de como estes se relacionavam no navio. Muitos dizem que apresentar ideias em um conto é algo essencial para uma boa história. Mesmo que o conto seja um modelo menor e mais compacto de narrativa, é possível apresentar grandes ideias. Só que é preciso dosar, caso contrário tudo fica muito confuso.

O protagonista é um terráqueo chamado James Carmody que foi parar em Marte por acidente. Ele foi parar em um lugar na Terra que o transportou até este lugar e ele não sabe mais como voltar. A partir de suas experiências em Porto Livre, ele conseguiu se tornar o capitão de um navio, o Argo. Durante suas viagens, ele se depara com uma corveta que, quando ele derrota os tripulantes, ele descobre a carga em seu interior: refugiados praxianos, uma região dominada por uma religião chamada Hegemonia. Aqueles que acreditam no Deus Sufocado se tornam párias e são tratados como lixo pela sociedades. Estes praxianos tentaram fugir, mas acabaram em uma outra armadilha. Por sorte, foram parar nas mãos de Jason que agora tem um problema enorme nas mãos.

Temos uma história simples de piratas e a primeira metade realmente não me impressionou muito. De um lado temos um personagem que parece ter sido enviado a Nárnia através de algum meio mágico; por outro temos uma boa e velha batalha no estilo John Carter e as histórias de Edgar Rice Burroughs. Talvez se a primeira metade fosse menor, dando tempo para o personagem trabalhar melhor as demais ideias que ele tinha em mente, a história teria dado melhor resultado. Eu gostei da cena de ação no final, ele conseguiu passar algo emocionante com as sequências entre os dois personagens. Até mesmo a cena de invasão à corveta é divertida e passa aquela ideia da pirataria.

Mas, o autor tentou algo mais. Discutir questões de religião e escravidão. Acho que ele explorou mal as duas ideias porque foram muitas coisas para explorar em um espaço pequeno. Até achei interessante o dilema dos praxianos que ou voltavam para serem humilhados ou eram vendidos como servos em Vend e como o imediato Tyr se colocava no meio de tudo isso. Só que faltou aquela sensação de problema grande. Faltou passar ao leitor aquela coisa do se importar com o que estava havendo. Eu não consegui. Me impressionei em um primeiro momento porque achei que a história seria simples, mas no final não consegui comprar tudo. Se tivesse sido um baú de ouro a ser disputado, não faria diferença.

Acho que o autor ficou preso entre escrever uma história simples ou explorar temas complexos. Ele quis juntar as duas ideias, mas percebeu que o espaço prejudicava o desenvolvimento amplo das mesmas. Acabou que ele não conseguiu ser nem uma coisa e nem outra. E essa encruzilhada prejudicou o formato final.

15 - "A Ária da Rainha da Noite"


Autor: Ian McDonald Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Isso é que é maneira de encerrar uma coletânea. UM conto de altíssimo nível escrito por um dos caras que eu considero um dos pistoleiros da ficção científica; Ian McDonald. Aqui no Brasil, apenas Brasyl (sem trocadilhos entendidos) chegou a ser publicado, sem uma boa recepção do público. Uma pena, sinceramente. Não aprenderam a apreciar a ótima escrita deste autor que é muito criativo. Ele sempre usa algum ambiente diferente, ou coloca os personagens em uma situação pouco usual.

Aqui, somos apresentados a lorde Jack e Faisal. Um é um cantor de ópera ao estilo antigo e com um talento que o coloca em outro patamar. Já Faisal é seu ajudante, fazendo as vezes de alguém que cuida do seu bem-estar ao mesmo tempo em que é o pianista. Jack é um bon vivant, alguém que se embebeda, curte mulheres e a boa vida que a profissão de cantor lhe assegurou. Mas, eles estão falidos: a vida de luxos deixou uma dívida enorme. Graças a alguns contatos eles são enviados para realizar cinco shows para um grupo de militares que estão nas linhas de frente na guerra contra os uliris, um povo que detesta a presença dos terráqueos em Marte. Jack e Faisal vão ver todas as agruras e o terror da guerra da primeira fila.

Uma coisa que é preciso dizer acerca da escrita de McDonald é como ela é elegante. O título da história pode ser dado tanto a um momento final da narrativa quanto à própria composição da mesma. A escrita é feita em terceira pessoa e composta como se fosse a letra de uma música. Os momentos de luxo e segurança se parecem com uma canção tranquila e acolhedora; os shows se parecem com refrãos de uma bela música dançante; as batalhas se parecem com música clássica com altos e baixos. A forma como ele descreve uma batalha no espaço parece algo saído de uma Cavalgada das Valquírias. É uma beleza da violência, um encantamento do aterrador. Mortes são apresentadas como innuendos.

A relação entre os dois personagens é forte. Ambos desenvolveram uma comunicação que muitas vezes a gente confunde com a de dois amantes. Aliás, Faisal deixa transparecer que sente algum tipo de atração por Jack ao mesmo tempo em que sabe que jamais será tão talentoso quanto ele. O olhar de Jack quando observa o absurdo da destruição é o prego final no caixão dos sonhos de Faisal. Ele sabe que não consegue observar os mesmos detalhes e a mesma música que Jack vê em algo tão fútil quanto dois povos se matando. E então, a gente se questiona: o que é mais forte, o amor pelo homem ou a adoração pelo mito? Jack possui uma personalidade extremamente complexa por ter passado pelo luxo e pelo lixo. Ele tem um comprometimento artístico incrível, capaz de passar por uma plateia ou por um grupo receptivo, ou até por uma festa onde todos estão tão bêbados que nem raparam nele.

A ambientação da guerra já foi trabalhada inúmeras vezes. Seja com personagens que sofrem com ela ou até aqueles que fazem parte dela. Mas, é sempre muito curioso quando o autor consegue nos mostrar a visão daqueles que não estão envolvidos necessariamente com a guerra. São aquelas pessoas comuns passando por toda a violência que os cerca, sem poder fazer nada a respeito. São histórias carregadas de emoção e sentimento. E aqui o autor consegue entregar exatamente isso.

Baita maneira de encerrar uma coletânea, conto recomendadíssimo!

Ficha Técnica:


Nome: As Crônicas de Marte

Organizada por Gardner Dozois e George R.R. Martin

Editora: Arqueiro

Gênero: Fantasia/Ficção Científica

Número de Páginas: 496

Ano de Lançamento: 2018


Outras Partes:

Parte 1


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