• Paulo Vinicius

Resenha: "Antologia Mitografias vol2:Mitos de Origem" org por Andriolli Costa, Lucas Ferraz Parte 2

Atualizado: 14 de Dez de 2019

Voltamos a falar desta incrível antologia que conta com histórias de Jana Bianchi, Simone Saueressig, AJ Oliveira e outros.


8 - “Kalpa” de Rodrigo Ortiz


Ficha Técnica:


Nome: Kalpa Avaliação:

Autor: Rodrigo Ortiz

Gênero: Ficção Científica



Um dos conceitos mais conhecidos no que diz respeito aos mitos de origem é o do eterno retorno. Típico das religiões orientais, é uma noção que busca o equilíbrio das coisas a partir da compreensão que tudo o que é feito por nós possui um retorno. Nossas existências são encerradas em um ciclo de encarnações e reencarnações até que tenhamos cumprido os nossos objetivos no plano terreno. Mesmo a criação é regrada por esse princípio. Ou seja, estamos eternamente em criação e destruição.


Rodrigo Ortiz nos coloca em uma nave espacial ao lado de Chandra que faz parte de uma equipe que foi investigar uma ruptura na brecha da realidade. Ruptura essa que está crescendo e ameaçando destruir civilizações ao seu redor. A humanidade não sabe o que fazer diante desta ameaça e tentam todas as soluções possíveis para lidar com o caso. Mas, será uma história ouvida por Chandra aquela que abrirá as portas para algo que pode dar uma luz sobre o que fazer a seguir.


Gostei da ideia, mas acho que ela não se encaixou adequadamente para uma história. Ou a narrativa foi muito pequena para que o conceito conseguisse se cristalizar ou a própria ideia em si não foi capaz de se assentar inteiramente como uma narrativa propriamente dita. Foi como se o autor me apresentasse uma ideia muito interessante, mas não conseguisse ser bem sucedido ao criar uma narrativa por trás. Foi aquilo: eu gostei do mito, mas não me importei com o dilema da Chandra.


9 - “As Trevas no Coração de Tucumã” de Simone Suaressig


Ficha Técnica:


Nome: As Trevas no Coração de Tucumã Avaliação:

Autora: Simone Saueressig

Gênero: Fantasia



Uau! O que foi isso que a Simone trouxe nessa narrativa? O curioso é que se o Rodrigo falhou (pelo menos para a minha experiência de leitura da narrativa), a Simone conseguiu fazer exatamente o que eu esperaria do romance anterior. Ela teve uma ótima ideia baseada em um mito indígena e foi capaz de colocar isso em uma narrativa realmente boa. No conto, vemos o casamento de um índio com uma índia realmente arisca. Quando nosso protagonista imaginou que iria conseguir namorar após o casamento, nossa personagem matreira disse que não seria capaz de fazê-lo porque só conseguia à noite. Só que na aurora dos tempos, não havia dia ou noite, apenas uma eterna luz que a tudo banhava e protegia. E agora? Quando nosso índio conseguirá finalmente namorar sua amada?


A escrita da Simone é apaixonante. Ela não só empregou as lendas indígenas em sua narrativa. Ela deu toda a cara de lenda a ela. Isso porque algumas histórias indígenas tem um tom muito particular na forma como elas são contadas. Cabe ao homem mais velho guardar essas narrativas para levá-las às novas gerações. Como contador de histórias, esse homem mais velho precisa atiçar a curiosidade para manter seu público. Para isso, ele usa de uma narrativa instigante, ritmada e divertida para tal. E a Simone consegue empregar essa técnica de contação de histórias. Alguns trechos da narrativa são muito ritmadas, com o leitor conseguindo dar ares de musicalidade à forma como a história nos é passada.


A autora trabalhou bem com a noção de origem dos tempos. Quando temos uma virada narrativa, vemos como as coisas são criadas. E a criação segue o seu ritmo, dando cor e forma ao mundo em que vivemos. Apesar de as coisas não terem saído exatamente como o esperado, as lendas assim funcionam. Gostei demais e só tenho a recomendar o trabalho da autora.



10 - “A Nova Arma do Imperador” de Leonardo Tremeschin


Ficha Técnica:


Nome: A Nova Arma do Imperador Avaliação:

Autor: Leonardo Tremeschin

Gênero: Fantasia



Uma bela narrativa mostrando a criação de uma arma poderosa para um rei. Que dependendo da interpretação de cada leitor somos levados a entender que nasceu um objeto lendário. E ao longo da narrativa são mostradas todas as dificuldades por trás do processo de criação e forja da arma. Cada detalhe é importante para o conjunto final.


Gosto de como o Leonardo conduz a narrativa. Parece que estamos realmente diante de uma lenda sendo contada. Existe uma cadência na forma como as coisas acontecem. Nada acontece sem motivo e tudo se conecta para um algo maior e mais importante. Para mim, faltou um algo mais para que a história fosse realmente inesquecível.


É impossível não pensar na velha história da nova roupa do imperador. Trocadilho ou não, o autor conseguiu atingir seus objetivos na narrativa.


11 - "GOD Talks" de AJ Oliveira


Ficha Técnica:


Nome: GOD Talks Avaliação:

Autor: AJ Oliveira

Gênero: Ficção Científica?



A ideia por trás deste conto é genial. Só posso dizer isso logo de cara. O AJ Oliveira criou uma espécie de TED Talks divino em que o deus da mentira fala a respeito de empreendedorismo em uma visão escatológica. É como se Loki estivesse produzindo uma pequena apresentação no Youtube contando os segredos de ser um deus da mentira e como a mentira é uma das invenções mais geniais da criação.


É preciso ressaltar o quanto o autor captou o espírito daquilo que está escrevendo. Ele realmente embarcou na ideia e o resultado é quase como se fosse uma transcrição de uma apresentação. A escrita está muito boa mesmo e é fácil de entender. Qualquer um que já tenha assistido a uma apresentação do TED vai reconhecer o formato na mesma hora. Outra coisa muito legal é a forma como o protagonista emprega exemplos do cotidiano para solidificar fórmulas de empreendedorismo. É realmente didático e simples de ser compreendido.


A mensagem por trás deste pequeno conto é bem pessimista, mas acertada. O ser humano é programado para mentir. Ele faz isso em quase todos os momentos de sua vida. Quando ele não mente para os outros, mente para si mesmo. E as mentiras são desde pequenos delito até grandes mentiras deslavadas. A mentira é fácil de ser realizada e o remorso vem muito tempo depois. Outro pequeno detalhe é que o autor embarcou na ideia de credo pela fé. Uma divindade alimentada pela quantidade de seguidores que ele possui. Algo que se tornou mais difundido nas religiões ocidentais e popularizado por Deuses Americanos.


Enfim, não é o conto que eu mais gostei da coletânea, mas certamente é um dos mais criativos. O AJ é um autor bastante talentoso que sabe brincar com a expectativa do leitor.



12 - “Tudo que se Planta, Dá” de Jana Bianchi


Ficha Técnica:


Nome: Tudo que se Planta, Dá Avaliação:

Autora: Jana Bianchi

Gênero: Fantasia



Essa é uma história bem antiga e fiquei surpreso que a Jana conhecesse essa narrativa. Lembro-me de tê-la ouvido na minha infância, mas mal me lembrava dos detalhes. A autora faz uma ressignificação da narrativa ao colocá-la nos dias de hoje como uma espécie de cura espiritual. O conto é tenso e o final angustia o leitor. Já há algum tempo a Jana tem buscado trabalhar com o elemento da tensão na narrativa, segurando ao máximo as informações para que o leitor não consiga adivinhar o final de antemão. O outro conto que eu li que estava nessa pegada não tinha funcionado bem, mas esse aqui funcionou como uma luva.


Esse redirecionamento de expectativa que ela faz é interessante. Porque a gente se imagina indo para um lugar, quando na verdade a solução é outra. E o melhor: a gente imagina que possa acontecer isso, mas como é meio óbvio, descartamos. E a autora fornece várias pistas que vá acontecer o contrário. A psiquê da protagonista é muito bem trabalhada e a questão do quem ela gosta mais é subvertida.


A narrativa fala de um casal de mulheres em que uma delas, Laura, está com um câncer terminal. Talita busca a todo custo uma cura para a sua amada, sejam elas medicinais ou espirituais. Em uma dessas sessões espirituais, ela é informada que tem um milagreiro que mora em um local afastado que pode ter a solução para o dilema de Talita. Mas, o preço que ela precisará pagar é muito alto. Gostei de como a Jana inseriu a história indígena de uma forma natural, sem forçar a barra e sem firulas. A forma como ela trabalha o trio Laura, Talita e Mila é lindo, demonstrando como os sentimentos destas três mulheres é forte uma pela outra. E o quanto afetar este triângulo vai ter consequências severas para elas.


13 - “Carpe Corporem” de Lucas Ferraz


Ficha Técnica:


Nome: Carpe Corporem Avaliação:

Autor: Lucas Ferraz

Gênero: Ficção Científica



Mais um conto angustiante. Aqui vemos uma história mais voltada para o cyberpunk onde o Lucas aproveita para fazer uma crítica à nossa vontade intrínseca de criar mecanismos para realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Não somos mais capazes de curtir o momento, apreciar o dia. Carpe Diem. Este foi eliminado com a explosão da atividade industrial e da prestação de serviços. Nossos dias são acumulados com várias funções simultaneamente o que prejudica a nossa percepção das coisas.


O protagonista instala um chip ilegal em seu cérebro onde uma IA passa a ser programada para realizar tarefas de seu trabalho de forma automática enquanto outra parte de seu cérebro é destinada a outras funções. Então, quando ele está trabalhando, na verdade quem está fazendo isso é sua IA enquanto ele pode se dedicar a ver filmes ou ler livros. É o sonho de consumo de muita gente nos dias. Entretanto, o personagem vai perdendo pouco a pouco o contato com o mundo e principalmente com sua parceira, Mika. Ela pede ao protagonista que jamais use esse artifício durante o seu convívio. Mas, o que acontecerá se ele usar?


Uma bela forma de usar a ficção científica para fazer uma crítica social à humanidade acelerada do século XXI. O gênero funciona melhor quando ressoa como um soco no estômago para nós. Isso porque aposto que a maior parte dos leitores inicialmente gostaria de um implante desses no cérebro. E aposto que muitos dirão que jamais chegariam aos extremos que o personagem chega. Será mesmo? Eu acredito que a humanidade precisa evoluir muito ainda para alcançarmos um parâmetro saudável para convivência. Talvez a solução não esteja em fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, mas em fazer menos tarefas. A menos que vocês queiram acabar como nosso protagonista no final do conto.


14 - “As Três Mães de Roma” de Isa Prospero


Ficha Técnica:


Nome: As Três Mães de Roma Avaliação:

Autora: Isa Prospero

Gênero: Ficção Científica



Que maneira de encerrar a coletânea! Caramba! Disparado um dos melhores contos, se não for o melhor para mim. Se estamos falando de histórias de origem, cabe muito bem a história da origem de uma das maiores cidades da Antiguidade: Roma. E ela passa pelo velho mito de Rômulo e Remo, os bebês que foram encontrados e amamentados por uma loba e depois entregues a um casal de pastores. Mais tarde, a partir de guerras, eles foram os responsáveis pela criação de uma cidade em um vale cercado por cinco montes. Isa pegou a história e colocou-a do ponto de vista da loba (na verdade uma lobisomem) e como ela encarou a criação dos dois meninos.


Aqui o tema principal é a maternidade e suas agruras. Noria é uma mulher cuja maldição a retirou do convívio com outras pessoas. Quando os membros da vila não foram mais capazes de conviver com uma mulher que se tornava uma loba nas noites de lua cheia, ela quase foi morta. Fugiu para floresta e lá viveu, até encontrar os dois meninos. Ela tentou criá-los à sua maneira, mas percebeu que isso não seria possível, e ambos precisariam viver ao lado dos humanos. A dor que ela sente em saber ser incapaz de criar as crianças da melhor maneira possível é lancinante. A gente vai acompanhando toda a montanha-russa de emoções: a impotência de não poder criá-los, ter de abandoná-los para serem criados por um casal humano, nem sempre estar próxima enquanto eles iam crescendo. Essa dor só vai aumentando pouco a pouco até estourar no final diante de uma cena que é realmente triste.

Podemos então dizer que Roma pode ter tido três mães: a mãe biológica de Rômulo e Remo, a loba e a pastora que cuidou de ambos. A forma como a Isa trabalha essas relações de maternidade é genial e ela nunca perde o foco em Noria, onde a “câmera” está. Essas formas de maternidade serão responsáveis pela criação de ambos e como eles se tornarão como pessoas. Noria está quase como uma passageira na aventura de ambos os irmãos e isso afeta nossa personagem de maneira profunda. Esses sentimentos certamente ressoam para o leitor que vai acompanhar a jornada dura dela. Conto recomendadíssimo!!!


Ficha Técnica:


Nome: Antologia Mitografias vol. 2 - Mitos de Origem

Organizado por Leonardo Tremeschin, Andriolli Costa e Lucas Rafael Ferraz

Número de Páginas: 198

Ano de Publicação: 2018


Continua da primeira parte


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